Jornalista amigo de Dirceu nega extorsão em compra de jornal do ABC

Breno Altman, que auxiliou Ronan Maria Pinto informalmente após a compra do Diário do Grande ABC, em 2004, afirmou a juiz da Lava Jato que versão de Marcos Valério sobre suposta chantagem contra Lula, Dirceu e Gilberto Carvalho é uma 'fantasia'

Julia Affonso, Fausto Macedo e Ricardo Brandt, enviado especial a Curitiba

13 de setembro de 2016 | 15h30

Breno Altman. Foto: Reprodução

Breno Altman. Foto: Reprodução

O jornalista Breno Altman – amigo do ex-ministro José Dirceu – afirmou nesta segunda-feira, 12, ao juiz federal Sérgio Moro que a suposta chantagem contra o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva pelo empresário Ronan Maria Pinto, dono de empresas de ônibus em Santo André (SP), é uma fantasia. O operador do mensalão Marcos Valério confirmou em juízo saber se suposta cobrança ao PT de R$ 6 milhões pelo empresário, que teria como objetivo a compra do jornal Diário do Grande ABC, em 2004.

“Acho isso uma grande fantasia. Quando vi essa informação, e eu tenho bastante relação com algum dos personagens citados, achei isso uma dessas coisa que no meu ramo de atividade isso é comum de acontecer, invenção de informação”, afirmou Altman.

O jornalista é réu junto com o ex-tesoureiro do PT Delúbio Soares, o ex-secretário do partido Sílvio Pereira e do operador de propinas do mensalão Marcos Valério. A força-tarefa da Lava Jato, em Curitiba, sustenta no processo que, o PT levantou em 2004 no banco Schahin R$ 12 milhões por meio de um empréstimo fraudulento em nome do pecuarista José Carlos Bumlai, amigo do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva.

Metade teria sido enviada para o empresário de Santo André (SP) Ronan Maria Pinto e outra metade para os publicitários Armando Peralta e Giovanni Favieri, responsáveis por uma campanha de prefeito de Campinas, ligados ao ex-governador Zéca do PT – responsável por aproximar Lula e Bumlai.

A dívida nunca foi quitada diretamente, mas sim com um contrato do esquema de cartel e corrupção na Petrobrás dirigido para o Grupo Schahin de operação de um navio-sonda, usado para explorar petróleo em alto mar – negócio de US$ 1,6 bilhões, fechado em 2009.

O jornalista disse que auxiliou Ronan após a compra do jornal Diário do Grande ABC, mas negou saber do empréstimo, de chantagem ou de ilícitos no negócios. O jornalista foi alvo de condução coercitiva na 27 fase das apurações, batizada de Operação Carbono 14, havia afirmado em depoimento à Polícia Federal que “desconhece as razões” que levaram o empresário do ABC a comprar parte do jornal Diário do Grande ABC. Altman disse ao juiz que conheceu Ronan via ex-prefeito de Santo Davi Capistrano (morto em 2000).

Filiado ao PT desde 1986, Altman é amigo do ex-ministro José Dirceu – preso e condenado na Lava Jato – e um dos principais pensadores do PT. Conhece Ronan Maria Pinto e o ex-secretário do PT Silvio Pereira desde os anos 1980. Os dois são réus no processo e foram presos temporariamente na Carbono 14. O ex-tesoureiro do PT Delúbio Soares foi conduzido coercitivamente e também depôs nesta segunda-feira, para Moro.

Altman disse não ser verdade que ele tenha participado de uma reunião com Ronan, Silvio Pereira e Marcos Valério, em São Paulo, em que teria sido cobrado o pagamentos dos R$ 6 milhões. “Isso não é verdade. Nunca participei de reunião com o senhor Marcos Valério. Nem nunca estive nesse hotel. É uma mentira.”

Chantagem. Outro réu ouvido ontem foi o publicitário Marcos Valério, pivô do mensalão. Em 2012, em depoimento à Procuradoria-Geral da República, ele afirmou que Ronan estaria chantageando o ex-presidente Lula, e os ex-ministros José Dirceu e Gilberto Carvalho e poderia revelar novos nomes no polêmico Caso Celso Daniel. Valério teria participado de uma reunião com Ronan Maria na capital paulista na qual teriam tratado do repasse dos R$ 6 milhões para comprar 50% do Diário do Grande ABC.

Silvio Pereira teria dito a ele, em 2004, que “o presidente está com um problema muito sério, está sendo chantageado por uma pessoa, e essa pessoa está exigindo um recurso no valor de R$ 6 milhões”. “Em 2004, eu estava na SMP&B Comunicação e recebo um telefone do senhor Sílvio Pereira”, afirmou. A SMP&B teria sido acionada porque “tinha recursos a repassar” ao ex-tesoureiro do PT Delúbio Soares, do esquema do mensalão.

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