Joice e Jader

Joice e Jader

Fernando Goldsztein*

09 de fevereiro de 2022 | 16h50

FOTO: FELIPE RAU/ESTADÃO

Costumo correr pelas ruas da cidade. Em função do calor e da umidade do verão de Porto Alegre, tem que ser de manhã bem cedo. Faço sempre o mesmo roteiro. A perspectiva de um corredor é muito diferente da de quem anda pelas ruas dirigindo, de Uber ou de ônibus. O corredor passa muito próximo das coisas e das pessoas e, como invariavelmente percorre grandes distâncias, vê o que o reles mortal não enxerga.

Foi o que aconteceu no caso da Joice e do Jader. O casal mora num local simples, porém muito organizado. Várias vezes passei por ali e vi a Joice varrendo copiosamente os seus tapetes. Eles dispõem de uma mobilia singela: o lençol sobre a cama; um lindo arranjo de margaridas encima de uma caixa que serve como “criado mudo”; os alimentos e livros cuidadosamente dispostos numa prateleira improvisada; uma mesinha plástica com duas cadeiras; duas canecas para o café; talheres; um copo com creme dental e escovas de dentes; entre outros tantos objetos.

Até aqui nada demais, certo? O que surpreende é que este cenário é debaixo de um viaduto. Sim, fizeram da rua a sua morada e a mantém como se uma casa fosse.

Um dia destes não resisti e parei para conversar com os dois. Muito educados, ambos na faixa dos trinta anos, o Jader era vendedor e a Joice cuidava de idosos. Se conheceram na rua, estão juntos há cinco meses e dizem não poder mais viver um sem o outro. Ele disse ter saído da casa da mãe, que tem muitos “problemas”. Ela, por sua vez, foi para a rua porque o ex-marido teria incendiado a sua casa. Estão sem trabalho e alegam que a falta de domicilio é o principal empecilho para conseguirem uma ocupação. Vivem da benemerência da vizinhança. Fazem as suas necessidades fisiológicas no banheiro de um supermercado próximo e usam galões de água para tomar banho. O sonho é serem contratados como caseiros,  pois assim teriam emprego e um local para morar.

Fernando Goldsztein. FOTO: ARQUIVO PESSOAL

É, sem dúvidas, uma história muito triste que, infelizmente, faz parte do trágico quadro da desigualdade social brasileira. Faço votos (desculpem o trocadilho) para que possamos eleger políticos sérios e realmente interessados não em suas agendas pessoais e de seus partidos, mas sim em fazer o país crescer. Não existe outra forma de reduzir a pobreza.

Como escreveu Pedro Malan no Estadão em 9/1/22: “Fazer um bom governo é, em última análise, assegurar o aumento da eficiência dos gastos e das ações e políticas governamentais, em especial nas áreas social, regulatória, de segurança e econômica. E, com isso, reduzir as incertezas que afetam o ânimo empresarial, a confiança dos consumidores e poupadores e as expectativas sobre o país e seu futuro”.

É exatamente isso que esperam dos governos e dos políticos, há muito tempo, os milhões e milhões de Joices e Jaders espalhados pelo nosso Brasil.

*Fernando Goldsztein, empresário. Fundador do The Medulloblastoma Initiative

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