Joesley em Nova York… e você aqui

Aureo Marcus Makiyama Lopes*

27 de maio de 2017 | 05h00

 

A Lava Jato opera há anos e já revelou centenas de esquemas de corrupção. Com o tempo, fomos ficando insensíveis a novos fatos. São muitos e a população não está disposta a sair à rua para protestar toda semana. Já estávamos acomodados… até que veio a delação de Joesley. Agora estamos novamente indignados, e raivosos com as enganações e os danos que os corruptos continuam nos causando. É um absurdo. Joesley vivendo num duplex de 51 milhões de reais em NY e frequentando restaurantes de luxo, e nós aqui nos f…, flagelando por sermos tão estúpidos e inocentes.

Mas uma pergunta não quer calar. Por que, depois de tantos casos de corrupção, e por que dentre tantos outros crimes delatados, envolvendo quase 2 mil pessoas, estamos indignados justamente com Joesley? Foi ele que criou esse esquema com os políticos? Não. Era ele que procurava os políticos para oferecer vantagens? Não (era procurado). Então por que diabos nos preocupamos com Joesley e nos esquecemos do restante dos crimes, agentes e organizações investigados?

Infelizmente, a resposta é inveja e ressentimento.

Para alguns, bem no fundo, onde a luz da autoconsciência não ilumina, o ideal era estar em seu lugar, morando num duplex em NY, casados com uma bela mulher, com 3 bilhões na conta, andando de jatinho particular e com uma carta “saída da prisão” no bolso. Admitamos, Joesley é invejado por qualquer culpado que tenha pendências com a lei e enfrente a severidade da opinião pública e da justiça. Para os demais, Joesley é alvo de um justo ressentimento por parte daqueles que cumprem a lei e se negam a obter vantagens indevidas.

Na crítica à delação, essa inveja e esse ressentimento se misturaram a nossa indignação e tornam Joesley uma unanimidade. Ele é o anti-herói do momento. Amargo para os comparsas e indigesto para o restante das pessoas. Enquanto isso, “do outro lado da cidade…” estamos perdendo, novamente, o bonde da história.

Há mais atenção para Joesley na mídia, e mais indignação nos brasileiros, do que em relação a todos os outros crimes juntos. Nossa atenção sobre Joesley neste momento é, no campo da megacorrupção, igual ao reflexo que temos quando levamos uma trombada de um batedor de carteiras. Olhamos para um lado e, zás, o comparsa leva a nossa carteira.

E a nossa “carteira” neste caso, que contém as revelações mais chocantes sobre a corrupção brasileira já apuradas por autoridades públicas é, justamente, a chance de verdadeira punição à corrupção brasileira. A corrupção brasileira como cultura e como forma cotidiana e comum de fazer negócios e de fazer política. O sistema de corrupção que troca seus sócios mas se mantém funcionando, há centenas de anos. Essa “trombada” – os crimes, a delação e a vida afortunada em NY – foi tão forte que gerou uma grande onda de indignação. E você sabe quem está pegando essa onda?

Aqueles que querem anular as delações, inutilizar as provas e, desse modo, garantir a impunidade mais geral possível. Aqueles que, há pouco, diziam que o Ministério Público precisava de restrições ao abuso de autoridade (pela perseguição injusta de investigados), e agora dizem o contrário, que o MP é brando demais. Se essa não é a sua turma, desembarque dessa onda e exija punição ao conjunto dos crimes revelados. E proteja as delações, pois elas são um preço a pagar pela chance de um País melhor. Ao final, mesmo quando elas saem caras, são muito mais baratas que 200 bilhões em corrupção por ano.

*Aureo Marcus Makiyama Lopes

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