Joesley e Wesley surfaram na delação para fazer o que sempre fizeram: levar vantagem, diz procurador

Joesley e Wesley surfaram na delação para fazer o que sempre fizeram: levar vantagem, diz procurador

Thiago Lacerda Nobre, chefe do Ministério Público Federal, em São Paulo, defendeu manutenção da prisão preventiva dos irmãos Batista da JBS

Julia Affonso, Luiz Vassallo e Fausto Macedo

11 de outubro de 2017 | 05h00

Thaméa Danelon e Thiago Lacerda Nobre. Foto: Daniela Lopes / ASCOM PR-SP

O procurador-chefe da Procuradoria da República em São Paulo, Thiago Lacerda Nobre, afirmou nesta terça-feira, 10, que os irmãos Joesley e Wesley Batista ‘não imaginavam que seria pegos’ por jogo de mercado. Para o chefe do Ministério Público Federal, no Estado, os executivos ‘surfaram’ na delação para levar vantagem. Joesley e Wesley foram denunciados por uso de por uso de informações privilegiadas e manipulação do mercado, na Operação Tendão de Aquiles.

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“Simplesmente, com sangue frio, resolveram fazer lucro de algo que parecia para eles, num primeiro instante, desfavorável. Eles realmente fizeram lucro, acredito que não imaginavam que seriam pegos, mas o fato é que as provas nos autos são extremamente robustas e ficou plenamente demonstrado para nós que fizeram manipulação do mercado visando exclusivamente o lucro ou, no caso das ações, minimizar perdas que teriam, enganando todo o sistemas e enganando todo o povo brasileiro de uma forma que, ao que parece, era uma coisa contumaz da parte deles”, disse.

O procurador defendeu a manutenção da prisão preventiva dos irmãos. Joesley e Wesley estão custodiados na Superintendência da Polícia Federal, em São Paulo, desde setembro.

“São pessoas que fizeram com bastante desfaçatez a prática de ilícitos quando estavam sendo investigados por quase 10 operações e enquanto se discutia um acordo de colaboração premiada, que tem na sua origem o indivíduo entender que cometeu crimes, assumi-los e parar de pratica-los. Eles surfaram na onda de uma colaboração premiada para fazer o que sempre fizeram, ao que parece, levar vantagem dos cofres públicos, de oportunidades que lhes apareciam”, afirmou.

“Acreditamos que a prisão preventiva é necessária, uma vez que essas pessoas postas em liberdade novamente nada nos garante que não voltarão a praticar ilícitos. Mesmo afastadas formalmente da direção da empresa, eles têm contatos, amizade, têm caminhos para voltar a praticar o ato delinquente que sempre fizeram.”

Segundo a denúncia, Wesley e Joesley atuaram para reduzirem o prejuízo com os papéis e lucrarem com a compra da moeda americana, aproveitando-se da informação privilegiada e, como consequência, manipulando o mercado de ações. Os donos da JBS, afirma o Ministério Público Federal, reduziram prejuízo com compra e venda de ações e lucraram R$ 100 milhões com a compra de dólares dias antes de o acordo de colaboração com a Procuradoria-Geral da República vir à tona.

“Eles tinham na mão informações que ia comprometer pessoas da mais alta cúpula dos poderes federais e sabiam que isso, uma vez exposto, uma vez divulgado, haveria um abalo no mercado, basicamente com derrubada de ações da empresa e sobretudo com a valorização do dólar, que foi demonstrado que foi um dos maiores aumentos do dólar em cerca de 20 anos”, disse o procurador.

“São pessoas que não chegaram onde estão à toa, são pessoas que conhecem o mercado, são pessoas que trabalham na área há muito tempo, que entendem perfeitamente como funciona a lógica do sistema e, por conta disso, manipularam o mercado para os seus próprios interesses, para na verdade fazer lucro com uma situação que a princípio seria desfavorável.”

Para Thaméa, ‘ficou bem claro que era a certeza da impunidade que levava a praticar essas condutas’.

“A partir da Operação Lava Jato, nós estamos vendo que isso está mudando e o Ministério Público trabalha nesse sentido para acabar com essa cultura da impunidade onde os poderosos nunca eram presos e processados. Esperamos que daqui para a frente esses fatos sejam sempre efetivamente punidos para inibir essas práticas”, afirmou.

COM A PALAVRA, J&F

“A JBS informa que não teve acesso ao relatório da PF e reitera que as operações de recompra de ações e derivativos cambiais em questão foram realizadas de acordo com perfil e histórico da Companhia que envolvem operações dessa natureza. Tais movimentações estão alinhadas à política de gestão de riscos e proteção financeira e seguem as leis que regulamentam tais transações.

Conforme demonstra estudo da Fipecafi sobre o tema: havia subsídios econômicos para a estratégia de derivativos cambiais adotados pela companhia; operações com derivativos fazem parte da rotina operacional da empresa; as recompras efetuadas pela JBS em 2017 são normais quando comparadas às do período imediatamente anterior; ação da JBS estava “barata” e não há evidências de que o preço se comportou de forma distinta nos dias de recompra pela empresa.”

COM A PALAVRA, A DEFESA
O advogado Pierpaolo Bottini, que defende os irmãos Batista, disse que ainda não teve acesso ao relatório final da Operação Acerto de Contas. O espaço está aberto para a manifestação.

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