Joe Biden visto por Obama

Joe Biden visto por Obama

José Renato Nalini*

31 de janeiro de 2021 | 11h00

José Renato Nalini. FOTO: IARA MORSELLI/ESTADÃO

A parte civilizada do planeta respirou com alívio, ante a eleição de Joe Biden. O período anterior serviu para mostrar aos democratas que o Estado de direito é frágil e suscetível a retrocessos. Justificam-se as expectativas de um olhar benevolente dos Estados Unidos quanto ao ambiente, que foi tão menosprezado nos últimos anos. Quanto à diversidade, quanto à tolerância, quanto aos direitos humanos. São infinitos os anseios acalentados pelos que se assustaram com a agressiva impulsividade precedente.

Quem lê “Uma Terra Prometida”, a biografia de Barack Obama que é um fenômeno literário recente, vai ficar ainda mais satisfeito, ao constatar o que o primeiro Presidente negro pensava sobre seu Vice.

A escolha do companheiro de chapa recaíra sobre dois nomes: Tim Kaine, governador da Virgínia e o senador Joe Biden, de Delaware. Obama era mais próximo a Tim: amigos quase da mesma idade e raízes análogas. E Biden era muito diferente. 19 anos mais velho. Passara 35 anos no Senado, presidira o Comitê Judiciário e o de Relações Exteriores.

Barack admite sua dúvida inicial: “E se eu era visto como calmo e controlado, comedido no uso das palavras, Joe era passional, um homem sem inibições, que compartilhava de bom grado qualquer coisa que lhe passasse pela cabeça. Esse era um traço cativante, pois ele realmente gostava de gente. Dava para perceber isso quando interagia num evento qualquer: o rosto bonito sempre iluminado por um esplêndido sorriso (e a poucos centímetros do interlocutor), perguntando a todos de onde eram, dizendo o quanto amava suas cidades”.

Biden era conhecido por estender suas manifestações. Fala fácil e entusiástica. Obama cotejou tudo isso e concluiu ser favorável o seu perfil, pois “no trato com as questões nacionais, ele era inteligente, prático e fazia o dever de casa. Sua experiência em política internacional era ampla e profunda. Durante sua participação relativamente breve nas primárias, fiquei impressionado com sua habilidade e disciplina como debatedor e com sua naturalidade no palco nacional”.

O candidato a Presidente impressionou-se com a determinação de Biden. Enfrentara problemas desde a infância, sofrera derrotas e tragédias: “em 1972, semanas depois de eleito para o Senado, sua mulher e filha pequena morreram – e os dois meninos, Beau e Hunter, saíram feridos – num acidente de carro. Em consequência dessa perda, seus colegas e irmãos tiveram que se esforçar para convencê-lo a não abandonar o cargo, mas ele fez questão de organizar seus compromissos de modo a lhe permitirem fazer uma viagem diária de uma hora e meia de trem entre Delaware e Washington para cuidar dos filhos, prática que manteve pelas três décadas seguintes”.

Isto bastaria para aferir a sensibilidade e o caráter do homem que hoje é um dos mais poderosos do mundo. Porém há mais. Ele se impôs a Obama como a solução natural. O Presidente não queria um substituto, mas um parceiro. “Se me escolher” – disse Joe – “eu quero ter liberdade para expressar minha opinião para você e dar conselhos sinceros. Você será o presidente, e eu defenderei qualquer decisão sua. Mas quero estar presente em todas as grandes decisões”.

Obama assumiu esse compromisso.

Não cessaram as dúvidas. Os assessores de Obama entendiam que “Joe também representava riscos. Achávamos que sua falta de disciplina diante de um microfone talvez pudesse provocar controvérsias desnecessárias. Seu estilo era à moda antiga, ele gostava de ser o centro das atenções e nem sempre agia com a devida cautela. Eu achava – (diz Obama) que ele poderia se irritar se achasse que não estava sendo tratado com a devida consideração – um sentimento que poderia ser agravado pelo fato de ter que lidar com um chefe muito mais jovem”.

Prevaleceram a racionalidade e a sensatez. Barack sentiu que o contraste era positivo. Joe estava mais do que bem preparado para assumir como presidente. Sua presença tranquilizaria os que resistiam à ideia de um Presidente da República tão jovem e inexperiente. “Sua experiência em política externa seria valiosa numa época em que travávamos duas guerras, bem como suas relações no Congresso e o seu potencial de dialogar com eleitores ainda temerosos de eleger um presidente afro-americano. O mais importante, porém, era o que meus instintos me diziam – que Joe era decente, honesto e leal. Eu acreditava que ele se importava com as pessoas comuns e que, numa situação difícil, seria alguém confiável. E eu estava certo”.

Como é bom, para variar o tom daquilo que tem sido a política universal, ouvir alguém falar bem de outrem. Principalmente quando eles são Barack Obama e Joseph R. Biden Júnior.

*José Renato Nalini é reitor da Uniregistral, docente da pós-graduação da Uninove e presidente da Academia Paulista de Letras – 2021-2022

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