Janot tem de explicar suspensão de depoimentos, diz delegado da Lava Jato

Eduardo Mauat, que integra a força-tarefa da operação sobre corrupção na Petrobrás, diz que interrupção 'atrasa' investigação

Redação

17 Abril 2015 | 19h34

Por Fábio Fabrini, de Brasília

O delegado Eduardo Mauat da Silva, um dos responsáveis pela Operação Lava Jato no Paraná, disse nesta sexta-feira, 17, em entrevista ao Estado, que o procurador-geral da República, Rodrigo Janot, deve explicações à sociedade por pedir a suspensão, no âmbito do Supremo Tribunal Federal (STF), de depoimentos de políticos e outros suspeitos de envolvimento no esquema de corrupção da Petrobrás.

Rodrigo Janot. Foto: André Dusek/Estadão Conteúdo.

Rodrigo Janot. Foto: André Dusek/Estadão Conteúdo.

Para o delegado, que é representante de sua categoria no Paraná, a interrupção das oitivas tolhe o trabalho que vem sendo feito pela PF. “No momento em que essas diligências são suspensas por uma interferência externa, entendemos que ela está sendo tolhida. Agora, se ela está sendo tolhida por uma questão jurídica ou por alguma outra questão, cabe ao doutor Janot explicar. É uma investigação bastante rumorosa e há interesse da sociedade”, afirma Mauat.

ESTADÃO: Como os senhores estão vendo o pedido de suspensão das diligências?

EDUARDO MAUAT: Não levantamos nenhuma suspeita em relação ao Ministério Público (MP) enquanto instituição. Mas é necessário que se tenha em mente que são servidores públicos também, e a instituição deve satisfações à sociedade. Nós queremos que eles expliquem o porquê dessa atitude, porque, se era para eles assumirem a investigação… eles poderiam escolher quem é que eles iriam ouvir ou deixar de ouvir diretamente, e fazer um procedimento correndo o risco de ser anulado posteriormente. Mas que fizessem, então, por conta própria. Não que a Polícia Federal fosse colocada numa situação, e depois, manipulada a investigação.

ESTADÃO: Há uma manipulação?

MAUAT: Não uma manipulação maldosa, digo manipulação da conotação que eles entendem (que deve ser dada) à investigação. A PF estava tratando a investigação como mais um inquérito de tantos outros, com oitiva de pessoas, testemunhas etc. No momento em que é suspensa essa apuração e o MP entende que tem de haver uma redefinição de estratégias, ele deveria esclarecer do que se trata isso. Não entendemos ainda do que se trata.

ESTADÃO: O procurador-geral não explicou à PF?

MAUAT: Não explicou.

ESTADÃO: O senhor entende que o Janot está tolhendo a investigação?

MAUAT: A investigação foi desenhada pelos colegas que estão presidindo (o inquérito) e que projetaram as diligências que seriam realizadas para a instrução do inquérito. No momento em que essas diligências são suspensas por uma interferência externa, entendemos que ela está sendo tolhida. Agora, se ela está sendo tolhida por uma questão jurídica ou por alguma outra questão, cabe ao doutor Janot explicar. É uma investigação bastante rumorosa e há interesse da sociedade em saber o que está acontecendo.

ESTADÃO: A suspensão prejudica a investigação?

MAUAT: Por enquanto, é um atraso. Agora, vamos ver que direcionamento vai ser dado à investigação daqui para a frente.

ESTADÃO: Está faltando dinheiro para diárias de policiais na Lava Jato?

MAUAT: Há um contingenciamento geral do governo. Não houve prejuízo concreto à Operação Lava Jato, mas as diárias estão atrasadas há uns dois meses. Nós não gostaríamos que isso acontecesse.

ESTADÃO: O senhor vê isso como retaliação, já que tem gente do governo sendo investigada?

MAUAT: Num primeiro momento, não, mas ela pode vir a ocorrer, mesmo que de maneira indireta. Pode haver um prejuízo à operação. Aí, se houve um dolo por parte do governo ou não, é relevante.

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