Já tivemos estadistas

Já tivemos estadistas

José Renato Nalini*

24 de outubro de 2020 | 11h00

José Renato Nalini. FOTO: DANIEL TEIXEIRA/ESTADÃO

O desalento com a Democracia Representativa é fenômeno global. É muito difícil que alguém se sinta representado, numa era em que a comunicação exaure a capacidade de apreensão refletida que um dia já foi possível. Sem falar que nunca dantes se desacreditou tanto do exercício da função pública, tantos e tamanhos os desmandos perpetrados contra o bem comum.

A patrulha fiscalizatória não contribui para alteração do panorama. O excesso de denúncias, fundadas ou não, faz com que os honestos fujam da política. Acostumamo-nos a fazer uma pregação retórica, mas a atuar em sentido contrário. Por exemplo: invocamos a presunção de boa-fé e de inocência. Atuamos na crença absoluta de que prevalece a má fé e que o suspeito é sempre culpado.

Entretanto, nem sempre foi assim. Já tivemos brasileiros que podem ser paradigma de homem público. Aquele que se esquece de si e se devota ao semelhante. O terreno pantanoso da política não enlameou sua carreira. Seu caráter não foi tisnado por malfeitos. Eles precisariam ser mais lembrados, para mostrar às novas gerações que a probidade acompanhou o curso de alguns brasileiros pela vida pública.

Um deles foi Washington Luís Pereira de Sousa, o “paulista de Macaé”, que foi o último Presidente da chamada Primeira República. Eleito sem oposição, foi deposto por uma revolução tramada por antigos aliados. Foi vereador, presidente da Câmara, Prefeito em Batatais, depois Prefeito em São Paulo, Deputado Estadual, Secretário de Estado, Governador e Chefe do Executivo Federal.

Tudo acrescido de uma sociabilidade rara. Era comunicativo e expansivo. Participava das atividades culturais quando jovem, participava de saraus, atuava no teatro amador, no qual também traduzia peças e era tenor apreciado.

Em todos os cargos pelos quais passou, saneou as finanças municipais, estaduais e federais. Empenhava seu próprio nome para obter créditos, anteriormente negados pelo acúmulo da dívida estatal. Foi pioneiro no urbanismo, ambientalista quando sequer existia essa palavra, já pensava numa educação integral, para formar gerações aptas aos desafios de uma indústria que mal engatinhava.

Visionário, idealizou projetos de PPP – Parceria Público Privada, fez uma Reforma Agrária que ajudou o desenvolvimento da agricultura familiar, idealizou uma Justiça Laboral que seria até melhor do que aquela que veio a surgir. Porque o juiz só atuava se os representantes de trabalhador e empresário não chegassem a um acordo. A essa altura, ninguém falava nas ADR – Alternative Dispute Resolution, a busca da composição consensual dos conflitos. Hoje, considerado o ideal, pois o Judiciário é que tem de ser a alternativa. Litigar é contraproducente para todos. Deve ser, efetivamente, a ultima ratio.

Pois esse homem, Washington Luís, cuja biografia o imortal da APL Célio Debes esmiuçou em três consistentes volumes publicados pela Imprensa Oficial do Estado, sofreu a desilusão do ostracismo. As moscas procuram sempre o poder. Quando ele se viu impedido de dar posse a Júlio Prestes, com o golpe getulista, foi banido para a Europa.

Não tinha posses. Consumiu a herança do sogro, segundo Barão de Piracicaba. Em Portugal, fez pesquisas e visitou os locais explorados por Eça de Queiroz em suas obras. Em Paris perdeu a mulher, Sofia, que não suportou a dor moral de se ver longe da Pátria e dos filhos.

O advento da II Guerra Mundial fez com que deixasse a Europa e fosse para os Estados Unidos. Durante os dezessete anos de exílio, suportou essa injustiça com serenidade. Era um prolífico missivista. Em suas inumeráveis cartas, nunca se queixou e fugia aos temas políticos.

Para Honório de Sylos, outro pensador hoje esquecido, Washington Luís dignificou o poder. Reafirmou, longe da Pátria, a rijeza de seu caráter, enobrecendo sua pátria com a serenidade de suas atitudes. O silêncio engrandeceu-o. Não protestou, não clamou, não bradou, não reclamou, não se queixou, não revidou, não se rebelou, não se revoltou. Permaneceu altivo e calado.

Enfatiza Honório de Sylos: “Não mudou, não trocou de rumo, não se desviou de seu caminho. Firme, seguro, severo, resoluto, não deslustrou sua marca, sua divisa, seu timbre. Ficou longe. Ficou só. Todavia, quando, em 1947, regressou ao seu chão, com a cabeça branca mas erguida, reconheceu a nação que voltava ao seu seio um grande brasileiro”.

Não desapareceram os grandes brasileiros. Mas é preciso senso, prudência e critério para escolhê-los hoje. Washington Luís foi modelo de político idôneo: começou como vereador, para depois presidir a Edilidade, ser Prefeito, Deputado, Secretário de Estado, Governador de Estado e Presidente da República. Em tempos nos quais a vereança era um exercício de cidadania, honroso, mas não remunerado.

As eleições municipais constituem oportunidade singular para prover a política de bons quadros. Invoque-se, uma vez mais, o inolvidável André Franco Montoro: “as pessoas não nascem na União, nem no Estado: nascem no município”. É aqui o espaço em que tudo começa. E em que tudo termina também. Não há necrópoles federais. Dorme-se, em regra, no chão que nos viu nascer. O intervalo entre nascimento e morte deve ser preenchido com tentativas insistentes em tornar o mundo melhor. A boa política pode contribuir para afastar a sensação de fracasso. Vamos nutrir a esperança em um Brasil melhor.

*José Renato Nalini é reitor da Uniregistral, docente da pós-graduação da Uninove e presidente da Academia Paulista de Letras – 2019-2020

Tudo o que sabemos sobre:

Artigo

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.