‘Já não estava dando mais para suportar’, diz empreiteiro sobre propinas na Petrobrás

‘Já não estava dando mais para suportar’, diz empreiteiro sobre propinas na Petrobrás

Ricardo Pessoa, dono da UTC Engenharia e delator da Lava Jato, reafirma à Justiça Federal que pagou propinas para ex-tesoureiro do PT

Ricardo Brandt, Mateus Coutinho e Fausto Macedo

20 Novembro 2015 | 19h58

Ricardo Pessoa. Foto: Reprodução

Ricardo Pessoa. Foto: Reprodução

O empreiteiro Ricardo Pessoa, dono da UTC Engenharia, um dos delatores da Operação Lava Jato, afirmou à Justiça Federal nesta sexta-feira, 20, que a rotina do pagamento de propinas no âmbito de contratos da Petrobrás chegou a um estágio que ‘já não estava dando mais para suportar’. “Era uma prática generalizada, no meu caso independente de qualquer coisa assinou o contrato teria que assumir esse compromisso, tanto na área da Diretoria de Serviços quanto na Diretoria de Abastecimento.”

O empreiteiro e delator reafirmou o repasse de valores para o então tesoureiro do PT, João Vaccari Neto e não quis mostrar o rosto. As audiências na Justiça Federal no Paraná, base da Lava Jato, são filmadas. A defesa de Pessoa pediu para que sua imagem não fosse mostrada. Por isso, a câmera de TV apontou para um ponto fixo no teto da sala de audiências do juiz federal Sérgio Moro, que conduz a Lava Jato.

VEJA A ÍNTEGRA DO DEPOIMENTO DE RICARDO PESSOA NESTA SEXTA-FEIRA:

Moro perguntou detalhes sobre o início da temporada de propinas. “Começou nessa obra da Revap (Refinaria Henrique Lages, em São José dos Campos). Pagava-se na Diretoria de Abastecimento através do deputado José Janene (morto em 2010). Pagava-se na Diretoria de Serviços. O parâmetro para se negociar o valor era em torno de 1% para cada diretoria”, contou.

Moro questionou se o então diretor de Abastecimento da estatal Paulo Roberto Costa recebia propinas. “Eu tinha informação que sim. Embora nunca tenha dado pessoalmente a ele, mas participei de reuniões com ele e o deputado José Janene onde eu era cobrado pelo deputado.”

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Na Diretoria de Serviços, área controlada pelo PT, Ricardo Pessoa esclareceu que o diretor à época, Renato Duque, mandava que o então gerente de Engenharia Pedro Barusco o procurasse. “O próprio Renato Duque me enviava para o sr. João Vaccari.”

Só a UTC pagava?, insistiu o juiz.

“Eu tinha informações que a grande maioria pagava. Discuti isso seguramente com mais dois executivos com quem eu tinha muitos consórcios juntos.”

Ele citou o executivo Márcio Faria, ligado ao Grupo Odebrecht. “Várias vezes conversei com ele sobre esse assunto, que já não estava mais dando para suportar.”

O juiz perguntou. “Por que que se pagava sr. Ricardo?”

“Eu vou lhe dizer Excelência, se pagava porque já não era mais a regra do jogo. Fomos cobrados politicamente. Começou pela Abastecimento. Para você continuar mantendo a sua possibilidade de não ter que pedir para ser convidado (para as licitações). Para ter uma boa vontade com relação ao dia dia do seu contrato, os ativos necessários precisariam ser aprovados no âmbito da diretoria. Isso tudo, se não tivesse um bom andamento, nos causaria um prejuízo muto grande. Ficou mais fácil pagar, isso passa a ser de certa forma automático. Vai considerando isso uma coisa normal.”

O sr. t inha conhecimento que esses valores que o sr. pagava iam também para agentes políticos e partidos políticos?

“Tinha conhecimento e certeza”, respondeu o empreiteiro delator da Lava Jato. Ele disse que particpou da negociação dos valores. “Participei e ficou combinado que pagaríamos ao PT e, através disso, ao Barusco e ao Vaccari por solicitação de Renato Duque. A Odebrecht ficou encerragada da área de Abastecimento.”

“Como o sr repassava valores para o sr. Vaccari ?”, prosseguiu o juiz.

“Ele (Vaccari) queria que sempre fizesse contribuições no Diretório Nacional. Para nós era indiferente, eu até preferia porque eliminava a posição de caixa dois. Então, à medida em que os parcelamentos eram definidos de cada contrato eu fazia as contribuições mensais para o PT.”

O juiz. “Mas essas contribuições mensais faziam parte do acerto da propina?”

“Sim sr.”

“Eram feitas doações oficiais ou doações por fora ?”

“Doações oficiais na conta do partido, do Diretório Nacional, invariavelmente. Raramente ele (Vaccari) pediu para fazer algum Diretório Estadual.”

Eram feitas doações por fora?, indagou o juiz Moro.

“Ele (Vaccari) pediu, ao longo desse período, alguns pagamentros em espécie. Eu apresentei uma tabela de R$ 3,921 milhões.”

O criminalista Luiz Flávio Borges D’Urso, que defende Vaccari, tem reiterado que seu cliente jamais arrecadou valores ilícitos para o PT.

O PT afirma que todas as doações que recebeu foram líticas e declaradas à Justiça Eleitoral. A Odebrecht nega envolvimento com o esquema de propinas na Petrobrás.