‘Já fiz ele ligar pro deputado, se comprometer’, disse ex-assessor a fiscal preso na Carne Fraca

‘Já fiz ele ligar pro deputado, se comprometer’, disse ex-assessor a fiscal preso na Carne Fraca

Grampo da PF, na Carne Fraca, flagrou conversa entre o ex-assessor Ronaldo Troncha, que trabalhou com o deputado Sérgio Souza (PMDB-PR), e o fiscal agropecuário Daniel Gonçalves Filho; PF aponta 'possível fraude em licitação'

Julia Affonso, Ricardo Brandt, Mateus Coutinho e Luiz Vassallo

24 Março 2017 | 05h00

Foto: Dida Sampaio/Estadão

Foto: Dida Sampaio/Estadão

Interceptação telefônica da Polícia Federal, na Operação Carne Fraca, flagrou uma conversa entre o ex-assessor Ronaldo Troncha, que trabalhou com o deputado Sérgio Souza (PMDB-PR), e o fiscal agropecuário Daniel Gonçalves Filho, ex-Superintendente Regional do Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento, no Paraná. Em relatório sobre o grampo, a PF aponta ‘possível fraude em licitação’.

Daniel Gonçalves Filho chefiou a Superintendência Federal da Agricultura, entre 25 de julho de 2007 a 19 de fevereiro de 2014, e de 19 de junho de 2015 a 11 de abril de 2016, quando foi exonerado. A Polícia Federal atribui ao fiscal o papel de ‘líder e principal articulador’ do esquema de corrupção na Superintendência.
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Ronaldo Troncha trabalhou com o deputado Sérgio Souza entre abril de 2015 e outubro de 2016. O deputado foi eleito por unanimidade nesta quinta-feira, 23, presidente da Comissão de Agricultura, Pecuária, Abastecimento e Desenvolvimento Rural da Câmara.

O diálogo amistoso entre Ronaldo Troncha e Daniel Gonçalves Filho foi interceptado em 26 de janeiro de 2016. Ronaldo se refere a Daniel como ‘meu irmão’.

“Fala, meu irmão! Tá aprovado, tá?”, avisa o ex-assessor.

“Tá aprovado?”, questiona o fiscal.

“Já vai conversar com a Vera hoje. Tá? Já fiz ele ligar pro deputado, se comprometer com o deputado”, relata Ronaldo Troncha.

“Tá bom, tá bom”, diz Daniel Gonçalves Filho.

Em outro trecho da conversa, destacado em relatório da PF, Ronaldo e Daniel falam sobre um processo judicial.

“Agora, eu não entendi aquilo que cê me falou”, diz Ronaldo.

“Não! É que a empresa tinha … que ficou segundo lugar tinha entrado com Mandado de Segurança. Mas o juiz já julgou o Mandado de Segurança e num (sic) deu”, explica Daniel.

Ronaldo. “Ah, não tranquilo.”

“O juiz julgou e entendeu que não tinha problema nenhum na Licitação e mandou tocar pra frente,
tá?”, avisa Daniel.

“Não! Tranquilo, então já tá resolvido tá?”, diz Ronaldo.

“Tá resolvido”, afirma Daniel.

Para a Federal, os diálogos ‘demonstram a ligação próxima’ entre o ex-assessor e o fiscal.

Em outro grampo, Ronaldo Troncha conversa com Daniel Gonçalves para falar sobre processos em trâmite perante o Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento, ‘chegando até a obter de Daniel, log in e senha de acesso ao sistema eletrônico de processos’ da Pasta.

“Frise-se que Ronaldo perde a senha e chega a pedir novamente para Daniel Gonçalves, alegando a necessidade de verificar um processo”, destaca a Federal.

O ex-assessor de Sério Souza foi alvo de mandado de condução coercitiva na Carne Crua, deflagrada na sexta-feira, 17. Nesta quinta-feira, 23, Ronaldo Troncha prestou depoimento espontâneo à Polícia Federal.

A Operação Carne Fraca mira corrupção na Superintendência Federal de Agricultura no Estado do Paraná (SFA/PR) do Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento. No rol de empresas investigadas pela Polícia Federal estão a JBS, dona da Seara e da Big Frango, a BRF, controladora da Sadia e da Perdigão, e os frigoríficos Larissa, Peccin e Souza Ramos.

Na lista de irregularidades identificadas pela PF estão o pagamento de propinas a fiscais federais agropecuários e agentes de inspeção em razão da comercialização de certificados sanitários e aproveitamento de carne estragada para produção de gêneros alimentícios. Os pagamentos indevidos teriam o objetivo de atender aos interesses de empresas fiscalizadas para evitar a efetiva e adequada fiscalização das atividades, segundo a investigação.

A reportagem não localizou Ronaldo Troncha.

COM A PALAVRA, O ADVOGADO RODRIGO SANCHEZ RIOS, QUE DEFENDE DANIEL GONÇALVES FILHO

A defesa informou que vai se manifestar no processo.

COM A PALAVRA, A ASSESSORIA DO PMDB:

O PMDB não autoriza ninguém a falar em nome do partido e está à disposição da Justiça para qualquer esclarecimento.

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