‘Isso não vai dar certo, vai acabar com o governo da minha mãe’, disse filho a Garotinho

‘Isso não vai dar certo, vai acabar com o governo da minha mãe’, disse filho a Garotinho

Investigada da Operação Chequinho revelou à Polícia Federal ter ouvido discussão entre Wladimir Garotinho, presidente do PR em Campos, e o ex-governador do Rio preso quarta-feira, 16

Julia Affonso, Mateus Coutinho e Fausto Macedo

21 de novembro de 2016 | 14h09

Garotinho deixa o Hospital Souza Aguiar, no centro do Rio, para Bangu. Foto: Alexandre Cassiano/Agência O Globo

Garotinho deixa o Hospital Souza Aguiar, no centro do Rio, para Bangu. Foto: Alexandre Cassiano/Agência O Globo

Uma investigada da Operação Chequinho disse à Polícia Federal que ouviu ‘uma discussão’ entre o ex-governador do Rio Anthony Garotinho – preso quarta-feira, 16 – e um filho dele, Wladimir, de 29 anos, presidente do PR no município de Campos dos Goytacazes, norte fluminense. “Isso não vai dar certo, isso vai acabar com o governo da minha mãe”, disse Wladimir, segundo o relato de Elizabeth Gonçalves dos Santos.

A mãe de Wladimir é Rosinha Garotinho, mulher do ex-governador. Ela é prefeita de Campos e o marido seu secretário de Governo e mentor do programa social de repasses de cheques de R$ 200 à população carente da cidade.

Atendente de lideranças e parlamentares na Secretaria Municipal de Desenvolvimento Humano e Social – foco do suposto esquema de compra de votos montado por Garotinho por meio dos cheques de R$ 200 -, Elizabeth Gonçalves, além de investigada, passou informações que a PF reputa importantes para o inquérito.

“De extrema relevância e elucidativas as declarações de Elizabeth Gonçalves dos Santos”, destacou o juiz Glaucenir Oliveira, da 100.ª Zona Eleitoral de Campos, que mandou prender Garotinho – o ex-governador está internado em um hospital particular do Rio, com ‘problemas cardíacos’.

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Os investigadores ainda não sabem exatamente o motivo da discussão entre pai e filho, mas suspeitam que a causa pode ter sido a ampliação do esquema desmontado na Operação Chequinho. Em sua gestão como secretário de Governo da mulher, Garotinho incluiu mais 18 mil cidadãos na lista dos ‘chequinhos’ para assegurar a reeleição de vereadores da base aliada no último pleito.

“Em tal termo de reinquirição, a mesma (Elizabeth) tece diversos esclarecimentos a respeito da fraude eleitoral que se abateu sob este município a fim de eleger ou reeleger vereadores apoiados pelo réu, esclarecendo-se inclusive a dinâmica de como se realizava reuniões com o fito de distribuir os cartões de Cheque Cidadão de forma ilícita e alheia aos ditames do programa oficial do governo, ou seja, sem o devido cadastramento e estudos técnicos realizados pelas assistentes sociais, as quais inclusive, conforme consta dos autos, se rebelaram por descobrirem a ilicitude da trama eleitoreira.”

Elizabeth declarou. “Que sabe não ser legal a inclusão de beneficiários no programa Cheque Cidadão sem prévia análise técnica da assistência social ou de ordem judicial ou do Ministério Público.”
Ela admitiu que ‘tem conhecimento de que foram realizados cadastro de pessoas para inclusão no programa Cheque Cidadão fora da via do Cras (Centro de Referência de Assistência Social)’.

“Que esses cadastros de pessoas para inclusão de novos benefícios por fora do Cras eram realizados por iniciativa de candidatos a vereador, por intermédio de lideranças comunitárias”, revelou a testemunha.
Segundo ela, ‘essa decisão foi tomada pelo secretário municipal de Governo Anthony Garotinho’.

Ela afirma ter testemunhado que ‘a partir do meio do ano vereadores e seus assessores frequentando a secretaria responsável pelo Cheque Cidadão, no setor do próprio benefício, os quais eram recebidos por Gisele Koch, então coordenadora do programa’.

Segundo Elizabeth, ‘tudo era feito com muita discrição e muito segredo, sempre após o encerramento do expediente e no início da noite, a fim de não chamar a atenção’.

Ela disse que ‘os cartões do benefício obtidos evidentemente de forma ilícita eram entregues na mesma sala onde Gisele recebia os vereadores e seus assessores, por ela própria. Importa destacar ainda outros trechos das declarações em apreço’.

“Que embora Gisele cobrasse a devolução desses comprovantes assinados pelos beneficiários, a reinquirida sabia que todos os cartões já estavam desbloqueados por ordem de Anthony Garotinho.”

Elizabeth confessou que ao saber da prisão de Gisele ‘ateou fogo em todos os comprovantes de recebimento de cartões do Cheque Cidadão que ainda não haviam sido entregues’. Pôs fogo, também, em listas com nomes de beneficiário.

Ela revelou que ‘ao saber do plano de Garotinho, seu filho Wladimir vazou a informação para outros candidatos de sua predileção, Jorge Rangel,Carlinhos Canaã, Duda de Ururai, Thiago Virgílio, Albertinho, Leo do Turf, Roberto Pinto e Vinicius Madureira’.

“A ideia de Wladimir era que o plano de Garotinho alcançasse também esses outros candidatos, de forma que a distribuição do Cheque Cidadão os beneficiasse’.

“Esses candidatos procuraram por Garotinho para pressioná-lo a receber eles também os cheques prometidos a Kellinho, Linda Mara e Thiago Ferrugem’.

“Então, Garotinho realizou uma reunião com Kellinho, Linda Mara, Thiago Ferrugem e os candidatos de interesse de Wladimir para tratar da distribuição de Cheque Cidadão.”

“Sabe de todas essas coisas porque o próprio Garotinho contou num encontro que teve um dia após as últimas eleições.”

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