Isso explica muita coisa

Isso explica muita coisa

José Renato Nalini*

23 de outubro de 2020 | 08h30

José Renato Nalini. FOTO: ALEX SILVA/ESTADÃO

O Brasil passou a contar com sua primeira Universidade apenas em 1920. Há cem anos, portanto!

Somente 420 anos depois da descoberta foi implementada uma ideia quinhentista, que vicejou na Europa e não desabrochou nesta terra de Santa Cruz.

Enquanto isso, a colonização ibérica e a inglesa criavam Universidades em suas plagas da América. A primeira Universidade no continente, ainda no século XVI, foi a da ilha de Haiti, hoje República Dominicana. Logo em seguida o Peru, com a multicentenária Universidade de São Marcos e o México. Aqui, a majestosa Real e Pontifícia Universidade.

Entre 1600 e 1700, os Estados Unidos – com a nossa idade quanto à descoberta, caçulas quanto à colonização – passaram a contar com Harvard. Argentina deu o passo inicial em Córdoba. A Bolívia gerou em Sucre a Universidade Maior Real e Pontifícia de São Francisco Xavier. Em Guatemala, a Universidade de São Carlos. Simultaneamente, nas Filipinas inaugurava-se a Universidade de São Tomás. Enquanto isso, diz Ernesto de Souza Campos, Ministro da Educação em 1946, continuava o Brasil “contemplativo, indiferente ou cego”.

Entre 1700 e 1800, nenhuma mudança no Brasil. Enquanto isso, os Estados Unidos passaram a contar com Princeton, Yale, Columbia, Pensilvania, Pittisburgo, Brown, Georgetown, Vermont. A Venezuela fundou a Universidade em Caracas, o Chile em Santiago, Cuba em Havana e o México se estendia até Jallisco.

No século seguinte, entre 1800 e 1900, nenhuma Universidade foi criada no Brasil. Não se diga que a criação dos Cursos Jurídicos em 1827, na cidade de Olinda e em São Paulo, equivalha a tal. Uma Universidade tem uma estrutura que não se confunde com agrupamento de instituições de ensino superior. Algo que persiste até hoje, pois diferem as Universidades dos conglomerados sob a denominação de Institutos, ou Fundações, ou Associações.

Só em 1920 surgiu, formalmente, a Universidade do Rio de Janeiro, que depois passou a se chamar Universidade do Brasil. Foi mera congregação de escolas profissionais que já existiam, formalmente vinculadas a uma Reitoria de caráter ornamental. Nenhum entrosamento entre as Faculdades. Disciplinas idênticas ou afins eram ministradas em cadeiras autônomas. Nenhum vestígio de pesquisa científica. Nada em aparelhamento técnico-científico.

Em 1927 aparece a segunda Universidade, em Minas Gerais, reconhecida em 1931. Só em 1934 nascem duas Universidades: a de São Paulo e a de Porto Alegre. A USP já nasceu muito bem: padrão compatível com os melhores modelos então existentes. Contou com o apoio de uma elite financeira e intelectual bandeirante, liderada por Júlio de Mesquita Neto e Armando de Sales Oliveira e atraiu pensadores que fugiam do nazismo e vieram adornar nossa escola com o que de melhor produzia o Velho Mundo.

O paulista Ernesto de Souza Campos (1882-1970), médico e educador, foi Diretor da Faculdade de Medicina, um dos fundadores da USP, serviu à Nação também como Ministro da Educação do governo Eurico Gaspar Dutra. Mas antes disso, em 1938, editou por conta própria um livro de 497 páginas, cujo título era “Problema Universitário”. Apontou a vexaminosa posição do Brasil no ranking das nações quanto ao número de Universidades. Éramos o último entre os países civilizados. Tínhamos uma Universidade para cada grupo de dez milhões de habitantes, quando a média era de meio milhão a dois milhões e meio.

Estranhável que o Brasil tenha chegado ao século XX sem uma Universidade Católica, já que a Igreja era parte do Estado. As primeiras intenções de criação de uma Universidade confessional devem-se a Dom Barreto, bispo de Campinas. O Cardeal Dom Carlos Carmelo de Vasconcelos Motta, então arcebispo de São Paulo, foi à procura do Ministro da Educação para anunciar a ideia de criação da Católica em nosso Estado, para coincidir com o IV Centenário. Logo surgiram duas Católicas: a PUC-SP e a UC de Campinas, que só se tornou Pontifícia, muito depois, por obra e arte de Dom Agnelo Rossi.

A demora que o Brasil sofreu para a criação dessa instância vocacionada à busca da verdade pode explicar a lentidão do ritmo que se imprimiu à educação. É da Universidade que saem os parâmetros para educar o povo de maneira a converter o país que temos, no país com que sonhamos.

Daí a importância de conscientizar a nova geração, para recuperar o tempo perdido, compensar nossa multissecular omissão e enfrentar com garra e determinação o mundo novo, gerado pela Quarta Revolução Industrial, que ainda não mereceu a devida consideração de parte de nossas frágeis lideranças.

*José Renato Nalini é reitor da Uniregistral, docente da pós-graduação da Uninove e presidente da Academia Paulista de Letras – 2019-2020

 

Tudo o que sabemos sobre:

Artigo

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.