‘Fique na sua, isso é maior do que imagina’

Em ação penal que mira R$ 7,7 milhões de desvios na Dersa, testemunha afirma que sua ex-chefe na estatal, Mércia Ferreira Gomes, a teria aconselhado a ficar calada sobre crimes que presenciou

Fabio Leite e Luiz Vassallo

26 Maio 2018 | 05h50

Uma testemunha que diz ter medo de depor em processo sobre desvios de R$ 7,7 milhões da Dersa, afirmou, em depoimento, ter sido coagida por Mércia Ferreira Gomes, ex-funcionária da empresa, para se calar sobre crimes que presenciou. O homem, que não foi filmado em seu relato, chegou a ligar antes da audiência para o Ministério Público e chorar de medo de estar frente a frente com sua ex-superiora na Dersa.

Ele não é o primeiro a se sentir ameaçado nesta ação penal, que também envolve Paulo Vieira de Souza, ex-diretor da Dersa apontado como operador do PSDB.  O próprio Souza chegou a ser preso, no dia 5 de abril, por supostas ameaças a Mércia, que colaborou com as investigações. No dia 11, foi solto por ordem do ministro Gilmar Mendes.

O caso envolve supostos desvios envolvendo reassentamentos para o Rodoanel, Trecho Sul. De acordo com a força-tarefa da Operação Lava Jato em São Paulo, Souza, Mércia e outro ex-diretor da Dersa teriam incluído nome de parentes na lista de beneficiários das indenizações para quem teve casas desapropriadas.

Ex-funcionário, o homem que se diz ameaçado afirmou ter trabalhado por 25 anos na empresa de capital misto, onde foi subordinado a Mércia e diz ter visto as irregularidades. “Eu fazia a checagem de CPFs antes de realizar a sessão de dados de pagamentos. Ao fazer essa checagem, eu percebi que tinha uma divergência estranha. Algo que, enfim, nome que não batia, e alguma semelhança com o nome da pessoa que era minha chefe imediata, a Mércia Ferreira”.

A testemunha diz ter questionado Mércia sobre os desvios e recebido como resposta, tempos depois, um recado para ficar calado.

“Ela veio e eu senti como se fosse um pisão de pé. De uma maneira bem suave, sem ameaça. Ela falou: ‘ó, só te digo uma coisa, isso é bem maior do que você possa imaginar, então fica na sua’. E eu tenho uma tradição de ficar a minha mesmo”, narrou.

Ele afirmou também ter feito saques de até R$ 300 mil a pedido de superiores na Dersa, mas afirmou não saber sobre a suposta irregularidade dos repasses.

Segundo o Ministério Público Federal, antes de depor, o homem ‘fez contato telefônico no dia 17/05/2018 com o Ministério Público Estadual, o qual passou-lhe o contato deste MPF’. Em conversa com um funcionário da procuradoria, teria chorado ‘com medo de ir à audiência pois temia que algo lhe acontecesse e temia encontrar os réus’.

A juíza Maria Isabel do Prado , da 5ª Vara Federal Criminal de São Paulo determinou que a testemunha que ligou chorando, com medo de depor, também fale à Justiça em sala apartada dos acusados.

Operador. Além da ação penal por supostos desvios de R$ 7,7 milhões em reassentamentos para obras do Rodoanel Trecho Sul, Paulo Vieira de Souza é investigado por supostamente operar propinas para o PSDB. Ex-executivos das empreiteiras Odebrecht, OAS e Andrade Gutierrez relataram à Polícia Federal terem feito repasses de 0,75% ao ex-diretor da Dersa no âmbito da construção do Rodoanel. Em cooperação com autoridades Suíças, a Lava Jato descobriu conta atribuída a Souza com R$ 113 milhões não declarados.