IPO é um grande passo para o crescimento das empresas

IPO é um grande passo para o crescimento das empresas

Carlos Zanotta*

12 de outubro de 2020 | 05h30

Carlos Zanotta. FOTO: DIVULGAÇÃO

O caminho até uma oferta inicial de ações envolve uma grande mudança na cultura organizacional. A ida ao mercado de capitais pode significar que a empresa conquistou um tipo especial de sucesso. Ao mesmo tempo, essa iniciativa pode ser fundamental para a manutenção do crescimento da empresa, a perpetuidade dos negócios e até mesmo uma opção caso outras fontes de recursos já tenham sido utilizadas anteriormente para viabilizar o incremento das operações.

Atualmente, o mercado de capitais no Brasil passa por uma fase de reaquecimento. Mesmo com a pandemia de Covid-19, um momento desafiador da economia no mundo todo, foram realizadas, em 2020 no Brasil, mais de 30 ofertas públicas de ações, entre IPOs (ofertas iniciais) e follow-ons (ofertas subsequentes); além disso, cerca de 50 IPOs estão atualmente protocolados junto à Comissão de Valores Mobiliários (CVM) e em processo de análise pelo regulador. Se todos os IPOs que estão para acontecer de fato forem realizados, 2020 poderá ter um recorde. E as companhias que tiverem investido em uma preparação de longo prazo serão as menos impactadas pelos custos relativos à abertura de capital.

Com as perspectivas de manutenção de juros baixos e o processo de migração de investimentos, especialmente de renda fixa, para o mercado de capitais e para a bolsa, cria-se um ecossistema favorável para novas ofertas. Em se mantendo esse cenário, a expectativa é que veremos cada vez mais companhias abrindo capital na bolsa e utilizando instrumentos disponíveis no mercado de capitais.

As companhias interessadas em passar por esses processos precisam entender detalhadamente o caminho de preparação até a oferta de ações e os custos envolvidos em toda a jornada. O estudo “Preparação e custos para abertura de capital no Brasil”, realizado pela Deloitte em parceria com a B3, traz dados que mostram claramente quanto custa para uma organização abrir capital. O levantamento tem como base dados públicos disponíveis nos prospectos definitivos de ofertas públicas realizadas no Brasil, de janeiro de 2004 a maio de 2020, sendo ofertas iniciais (IPOs) ou subsequentes (follow‑ons), realizados pela Instrução CVM 400, além de informações referentes às ofertas subsequentes com esforços restritos pela Instrução 476, fornecidas pela B3.

Ao compreender a necessidade de cada componente na abertura de capital, é possível entender quanto cada um deles representará de custos durante e após a oferta de ações. A média dos custos relacionados com IPOs sobre os valores distribuídos ficou em 4,9% para o período entre 2004 e 2020. Separando as comissões dos bancos e as despesas da oferta, as médias ficaram 3,9% para as comissões e 1% para as despesas.

A média dos custos com follow-on ficou em 3,4% sobre o total dos valores distribuídos. Desse percentual, 2,8% são relacionados às comissões e 0,6% referentes às despesas. Ofertas subsequentes, usualmente, envolvem custos menores pelo fato de a companhia já ser pública e de os custos estarem relacionados à atualização de documentos que a companhia já periodicamente divulga ao mercado.

A média dos custos relacionados a ofertas através da CVM 476 ficou em 3,5%, sendo 2,5% relacionado às comissões e 1,0% às despesas sobre os valores distribuídos. Os follow-ons de acordo com a Instrução CVM 476, que são restritos a investidores profissionais, começaram no mercado brasileiro a partir de 2015. Nessa modalidade não há despesas com publicidade e nem com taxa de registro – logo, ela tende a ter um custo menor do que o das ofertas públicas.

Outra conclusão do estudo é que quanto mais a companhia capta na abertura, menor é seu custo. Desde 2004, o custo médio com ofertas públicas foi de 6,4% no caso de IPOs de empresas que captaram até R$ 200 milhões, 5,4% para companhias que levantaram entre R$ 201 milhões e R$ 500 milhões, 4,7% entre R$ 501 milhões e R$1 bilhão. As organizações que captaram entre R$ 1 bilhão e R$ 10 bilhões, o custo médio foi de 4,2%. Já no caso dos follow-ons os percentuais foram: 4,1% (até R$ 200 milhões), 4,2% (entre R$ 201 milhões e R$ 500 milhões, 3,8% (R$ 501 milhões a R$ 1 bilhão) e 3,1% (entre R$ 1 bilhão e R$ 10 bilhões).

Estes custos são relativamente baixos quando comparados, por exemplo, com os Estados Unidos. Lá o custo sobre o valor distribuído é usualmente o dobro do que no Brasil – até cerca de 10%, existindo ainda diversos outros custos legais e de consultorias de form recorrente para continuar atendendo a legislação societária americana, em adição aos requerimentos societários brasileiros. Além disso, uma empresa de capital aberto ganha outros tipos de valores imensuráveis. Com o IPO, a empresa deve elevar suas práticas de governança corporativa a um padrão altamente diferenciado. Esse padrão de governança e controles internos exigido de uma companhia aberta influencia positivamente na valorização da empresa e na sua operação. Desde 2004, as empresas que operam em padrões mais elevados de governança têm uma rentabilidade muito mais expressiva do que as demais.

As empresas que fazem a sua oferta inicial em segmentos mais elevados de governança corporativa e que, portanto, criam uma estrutura de transparência, controles e governança, possuem impacto positivo na atratividade de investidores, na valorização do negócio e na imagem da empresa. Por isso, é fácil concluir que valor em confiança e reputação que esse processo traz faz com que os custos com a abertura de capital sejam ainda mais baixos, se comparado ao ganho para a história de qualquer companhia aberta.

*Carlos Zanotta é sócio do Global Capital Markets Group da Deloitte

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