Invisíveis?

Invisíveis?

Andrea Freire e Nazareth Barcellos*

28 de agosto de 2021 | 05h00

Andrea Freire e Nazareth Barcellos. FOTOS: ARQUIVO PESSOAL

O tempo não passa, o tempo voa… Quando menos esperamos, já estamos “quase lá”. Os 60+ foram o foco de um estudo qualitativo realizado pela Mediator Pesquisa. Ainda tentando se manter ativo, esse grupo já luta contra suas limitações e imposições, como a diminuição do ritmo e já começam a enxergar a sua posição na sociedade quando a “velhice” de fato, entrar por sua porta – o que muitos não percebem ter de fato acontecido (“velho só depois dos 80”).

O que nos espera? A invisibilidade, o distanciamento, a negação, as rugas, a solidão, a falta de tempo dos filhos, o pouco respeito nas ruas ou a não consideração do mercado publicitário.

Por que a sociedade levanta tantas bandeiras e  luta para derrubar tantos outros estigmas e preconceitos, defendendo o respeito à diversidade,  mas conduz os seus “mais velhos” a viverem em segundo plano? É verdade que “velha ficava a sua avó”… Os tempos mudaram e  hoje,  não fica-se idoso aos 40 e nem tampouco aos 60. Estamos só ensaiando. De verdade para esses “jovens velhos”, ainda há muita vida que deve e pode ser  vivida plenamente. Para tal,  basta serem enxergados, respeitados e incluídos de forma natural.

A velhice, na concepção que a sociedade nos impõe – “aquilo que não tem mais proveito ou bom funcionamento” –  causa indignação e nem sempre traduz a verdade. O limite parece não ser a idade, mas a enfermidade, a incapacidade, a perda de autonomia contra a qual lutam bravamente.

De resto, quanto mais se exclui e se estereotipa os mais velhos, mais criamos uma geração de idosos que serão inseguros, medrosos e reféns dos outros. Sua estória, bagagem e experiência em um mundo de tecnologia avançada tendem a ser desconsideradas.

Assim, apesar dos avanços da medicina e mentalidade, corremos um sério risco de criar uma geração de idosos “problemáticos”. Eles vêm tentando acompanhar o processo de modernidade, estão lutando para se manter vivos, significativos e não “transparentes”, mas e a sociedade, os vem enxergando de fato?

A publicidade e a mídia em geral parecem ignorar e depreciar os idosos, processo que se acentua ao longo de décadas.  Estes não figuram na propaganda e nem no noticiário, como pessoas de destaque, que interagem e atuam tão bem quanto os jovens, muitas vezes os superando pela bagagem acumulada.

Na verdade, o público de 60+ nem faz questão de aparecer nos anúncios – já sabem que serão apresentados como o “avôzinho frágil , patético, desajeitado e alienado”, a “dona-de-casa em tempo integral, sem expectativas profissionais ou pessoais”,  “o consumidor sempre pronto a ser enganado, com produtos de má qualidade ou com juros extorsivos” ou como indivíduos “desprovidos de qualquer vaidade”, entre outros estereótipos.

Mais ainda, deixaram de ser representados em atividades nas quais antes se encaixavam perfeitamente, como as refeições ligeiras na mesa da cozinha e atividades culinárias compartilhadas com filhos e netos. Idosos não são apresentados dirigindo carros potentes, ou mesmo comprando e passeando em shoppings,  ou experimentando/desejando peças de vestuário, ainda que se sintam joviais e mais requintados, mais mobilizados em comprar e mais aptos a escolher: somente lhes oferecem alternativas como fraldas geriátricas, aparelhos de surdez, etc.

Assim, muitos  nem querem chamar atenção em público, evitam desfrutar de benefícios como filas exclusivas no comércio e serviços e gratuidade no transporte, para não reforçar esta visão preconceituosa de súbita vulnerabilidade a partir dos 60.

A relação com a tecnologia merece especial consideração, ainda que não seja a questão mais importante – por ser um ícone desta separação entre mais velhos e mais jovens. Os  idosos reconhecem que são naturalmente menos familiarizados com o uso de produtos, equipamentos, softwares  e demais recursos de última geração, que parecem destinados a um público que “já nasceu com computador e celular na mão”.  A tecnologia é o segmento no qual os jovens geralmente se projetam, se afirmam e se distanciam,  reforçando sua  atitude de desconsiderar/não enxergar os mais velhos. Estes, por sua vez, declaram não ter “nada a aprender” com os de menor idade, já que não existe diálogo sobre estes assuntos.

Há diversos comentários sobre a falta de compreensão e a impaciência com aqueles que já não possuem tanta velocidade para assimilar informações, que começam a viver em um ritmo mais lento, inclusive em atividades como dirigir, caminhar, passear.

O  ponto mais crítico é a forma com que são tratados pelo marketing e pela comunicação dos fabricantes: rejeitam as soluções apresentadas para a terceira idade, que os discriminam e até ridicularizam, a exemplo de “celulares de teclas grandes”.

É importante observar que estes consumidores, assim como os demais públicos, têm pouca  disposição para ler manuais ou correr atrás de informações que possam facilitar o contato com a tecnologia. Assim, a principal expectativa é de serem contextualizados com aquilo que perderam, ou seja, receber um “passo a passo” que os auxilie a obter maior familiaridade no uso de destes produtos (smartphone, Smartv etc.), sem depreciá-los ou desestimulá-los como vem ocorrendo.

Como estes idosos se posicionam hoje em relação à vida? Ao relacionamento social, afetivo, familiar? Quais são os cuidados pessoais, atividades, sonhos e expectativas que vivenciam agora? Foram aspectos que a pesquisa visou conhecer.

É certo que existem duas velhices: a da classe média/alta e a da baixa renda, que desfrutam de diferentes padrões de conforto e expectativas para vivenciar a terceira idade. Por exemplo, detecta-se entre os mais favorecidos um temor acentuado de adoecer, já que o estado de saúde é o que vai definir seu grau de velhice, sendo a  fronteira entre idosos ou não idosos – há uma constante comparação entre as condições físicas e mentais de pessoas da mesma idade, com as quais convivem.

O público de baixa renda, diversamente, parece aceitar melhor o envelhecimento sem mistérios, mostrando certa resignação, ao terem que peregrinar pelos hospitais e postos de saúde para obter atendimento. Detecta-se até um sentimento maior de “orgulho” no enfrentamento da velhice nestas condições mais adversas: consideram-se bem sucedidos em cuidar de si próprios e também dos familiares, em relação aos quais depositam seu empenho e seus planos.

Porém, embora haja comparativamente menor foco na perda de saúde, este segmento apresenta um temor maior  em relação ao futuro, à incerteza em relação à sobrevivência, à manutenção de uma renda mínima (muitos não conseguirão sequer se aposentar) e, principalmente, da dependência total de terceiros.

A falta de mobilidade ou de autonomia  é o principal fantasma desta +idade, o que praticamente impede a realização de planos para o futuro. Mais do que nunca, vivem o “agora”, o dia de hoje, procurando não pensar nas próximas décadas, na possibilidade de dependerem totalmente do cuidado de terceiros, inclusive de familiares. Mesmo aqueles que dispõem de recursos para contratar profissionais especializados, sentem um grande desconforto em pensar que estarão à mercê de desconhecidos.

A relação com os filhos é um aspecto que se destaca em quase todas as entrevistas e que também está ligada a este “fantasma da dependência”. Ainda que a família seja o foco principal, uma fonte de realizações – e  que alguns desfrutem de um relacionamento bastante harmonioso, com a  presença e o apoio constante dos familiares em suas vidas –  há também certa ansiedade e conflito.

Assim, é  preciso “aprender a levar uma vida independente”, não se imiscuir nos assuntos dos filhos ou mesmo impor-lhes sua companhia. Este exercício de independência é considerado um dos principais desafios e aprendizados da velhice. Muitos já sentiram o desconforto de serem ignorados quanto às suas carências emocionais, necessidades afetivas, o que parece ter se acentuado também na pandemia, que trouxe certa “justificativa” para o afastamento ainda que temporário dos filhos.

Já os netos surgem como uma “coroação afetiva do idoso”: este novo papel de avós lhes resgata a importância  perante a família, trazendo uma gratificação especial e incomparável, muitas vezes atenuando estas questões de relacionamento ou deixando-as em segundo plano.

O relacionamento afetivo é também um ponto importante a ser observado e que traz considerações sobre duas categorias de idosos. A primeira é de indivíduos que se sentem ainda plenos física e mentalmente,  dispostos a viver sua afetividade sem barreiras, ir em busca de novos relacionamentos, de  novos (as) companheiros (as), inclusive por se sentirem hoje mais sábios e maduros para as escolhas. Não há mais pressão social em ficar junto, formar família, são livres para definir novos padrões.

Há, porém, um segundo segmento que percebe que envelheceu de verdade, que acredita não corresponder mais a um padrão de beleza, que se sente agora constrangido em se relacionar ou interagir, principalmente com pessoas mais jovens. Esta atitude é um reflexo da pressão social e midiática sobre aqueles que chegam ou se aproximam dos 60 anos.

Alguns lançam mão de “arranjos” para contornar estas dificuldades, como “morar perto da ex-mulher” (um relacionamento de amizade, sem outro tipo de cobrança), recorrer com mais frequência aos “amigos do bar” ou pessoas da mesma faixa etária, com quem podem trocar experiências e contar suas histórias, serem enxergados como realmente são, acima da questão do envelhecimento.

Observa-se que as mulheres têm mais facilidade em vivenciar a terceira idade sem se sentirem solitárias: costumam se encontrar mais, conversar mais sobre assuntos pessoais ou íntimos, realizar atividades em conjunto como compras e passeios a shoppings, criando um círculo reconfortante de amigas. Diversamente os homens costumam se isolar, estão condicionados a “ir para o trabalho e voltar para a casa”, o que complica bastante a vida dos que já não atuam profissionalmente no mesmo ritmo. Em uma visão comparativa, passam mais tempo no sofá e em frente à TV.

Deste modo, a principal constatação da pesquisa é a necessidade de inclusão, especialmente que o idoso seja tratado com equanimidade e respeito, sem cuidados exagerados de proteção (“é muito mi-mi-mi”).

É muito importante que qualquer comunicação não se dirija especificamente ao idoso, mas aos jovens, ao espírito jovem que habita o coração da terceira idade.  Que seja encontrada uma linguagem comum, pautada em desejos e aspirações coletivas, para que este seja naturalmente inserido na sociedade e mais valorizado.

Percebe-se que há atividades proibitivas ou mais restritas para os que passaram dos 60, como correr maratonas, dirigir carros esportivos em alta velocidade, praticar esportes radicais, ou mesmo atravessar ruas com mais pressa e desenvoltura. Porém, os idosos não veem problemas em reconhecer essas limitações e substituir naturalmente estas modalidades por outras, como caminhada,  ginástica em academias, pilotar automóveis modernos e mais simples (“sem muitos botões”) com desenvoltura e confiança, mesmo que em um ritmo mais lento.

Da mesma forma, desejam se sentir  tão bonitos e sedutores como os jovens, que lhes sejam oferecidos roupas e acessórios mais de acordo com seu estilo, que sejam confortáveis e ao mesmo tempo atraentes (sem a escravidão das roupas curtas e “coladinhas” no corpo).

Apontam também que há poucas personalidades de 60+  que recebam um efetivo destaque na mídia por suas ideias arejadas, sua modernidade e suas realizações que ainda impactam bastante na sociedade, no planeta. Em resumo: é preciso ressignificar o idoso o quanto antes, como alguém produtivo e importante.

*Andrea Freire e Nazareth Barcellos são, respectivamente, diretora e analista da Mediator Pesquisa

Tudo o que sabemos sobre:

Artigo

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.