Investir em educação é investir na vida

Investir em educação é investir na vida

Ricardo Viveiros*

20 de fevereiro de 2021 | 11h30

Ricardo Viveiros. FOTO: DIVULGAÇÃO

Todo início de ano é a mesma coisa: estatísticas fortalecem o noticiário da imprensa que informa graves acidentes de trânsito, principalmente no período de festas entre Natal e Ano Novo, bem como no Carnaval. A falta de educação, reforçada pela imprudência e sensação de impunidade, rouba muitas vidas e deixa um rastro de sangue nas estradas, cicatrizes nos corações e mentes.

Essa dura realidade continua cada vez pior, embora tenha diminuído apenas em razão do confinamento pela pandemia. Mesmo assim, o Brasil está na quarta posição entre os países com mais mortes em acidentes de trânsito no mundo, de acordo com estudo de 2019 da Organização Mundial da Saúde (OMS), ficando atrás apenas da China, Índia e Nigéria.

Em 2018, por exemplo, o índice brasileiro atingiu a triste marca de 23,4 mortes por 100 mil habitantes, considerada muito alta. No Brasil, uma pessoa morre a cada 15 minutos vítima de acidente de trânsito. A cada dois minutos um ser humano sofre sequelas por ferimentos em desastres nas ruas e estradas, segundo dados do Observatório Nacional de Segurança Viária (ONSV).

Tivemos no final do ano passado grave acidente de trânsito, envolvendo um jogador de futebol que atropelou e matou um casal no Rio de Janeiro e, na mesma cidade, um soldado do Corpo de Bombeiros, alcoolizado, atropelou e matou um ciclista. Segundo números oficiais da Polícia Rodoviária Federal, do Natal ao Carnaval morreram 235 pessoas em acidentes nas estradas brasileiras.

Há 25 anos perdi um filho e uma neta em desastre de carro na cidade de São Paulo. Ele, 26 anos, ela seis meses. Ricardo, artista gráfico e cartunista, era casado e tinha três filhos. Mariana, que morreu com ele, a caçula. Uma família jovem e feliz. Naquela madrugada de 1996, um lacônico telefonema anunciou: morreu Ricardo Filho, morreu Mariana. O motorista que avançou o semáforo vermelho e os matou fugiu, desapareceu. Enterrei filho e neta juntos, algo difícil de entender porque contraria a lei da natureza. Longos 15 anos depois, após uma luta sem trégua marcada apenas pela busca de justiça – jamais de vingança ou reparação financeira –, o criminoso foi encontrado e julgado. Respondeu em liberdade à condenação de apenas um ano e nove meses, por dirigir irresponsavelmente e matar duas pessoas.

Jamais aceitei a condição de vítima. Sofri tudo o que era possível, cheguei ao fundo do poço e voltei, sobrevivente, para seguir o meu destino criar filhos e netos. Como eu e minha família, outras muitas pessoas sofrem o mesmo todos os dias. Cabe mudar a realidade que vivemos no País: o investimento em Educação precisa ser, no mínimo, 10% do PIB; as leis de trânsito precisam ser mais rigorosas; as penas maiores e realmente cumpridas.

O número oficial de mortos no Brasil, vítimas de acidentes de trânsito, é de 35.000 por ano; porém, sabe-se que são contabilizados apenas aqueles que morrem no local do acidente. Especialistas acreditam que esse número passe dos 50.000 mortos anuais. A irresponsabilidade dos motoristas não deve/pode ser tratada pela lei como simples acidente, quando na verdade é crime.

Muitos perguntam-me o porquê de relembrar a tragédia que vitimou a nossa família. A resposta é simples: para não acontecer de novo com outras pessoas. Cabe à sociedade, em sua legítima defesa, lutar por mais educação e pela aprovação de leis que estabeleçam novos meios de provar a culpa dos motoristas alcoolizados, dos que dirigem de maneira insana. Também é preciso que as leis sejam mais rigorosas, tenham penas maiores e de fato cumpridas. Faltam aos governantes consciência e vontade política para combater o problema.

A Educação é uma poderosa vacina contra a ignorância – a maior causa de mortes em todo o Planeta. Investir em Educação é investir na vida.

*Ricardo Viveiros, jornalista, professor e escritor, é doutor em Educação, Arte e História da Cultura pela Universidade Presbiteriana Mackenzie. Autor, entre vários livros, de “A vila que descobriu o Brasil”, “O poeta e o passarinho” e “Pelos Caminhos da Educação”

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