Investimentos em tecnologias, qualificação de profissionais e estratégias são a chave para empresas combaterem crimes financeiros

Investimentos em tecnologias, qualificação de profissionais e estratégias são a chave para empresas combaterem crimes financeiros

Os impactos da pandemia da Covid-19 trazem novos desafios na prevenção de prevenção de fraudes

Gustavo Lucena*

07 de agosto de 2021 | 06h00

Gustavo Lucena. FOTO: DIVULGAÇÃO

A pandemia da Covid-19 trouxe novos desafios na prevenção aos crimes financeiros, além dos que já tínhamos. Há cerca de um ano e meio, empresas que usam pagamentos eletrônicos e instituições financeiras como bancos, plataformas de investimentos e fintechs, por exemplo, têm precisado estar cada vez mais atentas à mudança do comportamento criminoso, gerada pela mudança de comportamento dos consumidores. Com isso, o ambiente de negócios foi transformado e tem se adaptado ao novo cenário para identificar atividades suspeitas.

Organizações que antes não eram obrigadas a ter processos contra lavagem de dinheiro, agora são. Exemplo disso são os marketplaces – ambientes de comércio eletrônico mediados por grandes empresas em que vários lojistas se inscrevem e comercializam seus produtos e serviços. O e-commerce foi e tem sido muito importante no período de pandemia, principalmente nas fases em que lojas físicas tiveram de ser fechadas por conta de restrições para controle da disseminação do vírus. A partir do momento em que os marketplaces crescem, os criminosos enxergam nesse ambiente uma oportunidade fazendo com que as empresas sejam obrigadas a reforçar o combate às fraudes e crimes financeiros.

Os desafios, no entanto, não são colocados apenas para as organizações. Os órgãos reguladores e fiscalizadores também tiveram que dar alguns passos rumo ao combate da lavagem de dinheiro e ao financiamento do terrorismo. Para isso, entidades como o Banco Central do Brasil (Bacen), a Comissão de Valores Mobiliários (CVM) e o Conselho de Controle de Atividades Financeiras (COAF), editaram e publicaram novas resoluções disciplinando a Lei 9.613 (Lei de Lavagem de Dinheiro), que dispõe sobre os crimes de lavagem ou ocultações de bens.

Nos dois anos anteriores à pandemia, os órgãos reguladores e fiscalizadores já haviam registrado um aumento considerável de autuações. Em sua maioria, as infrações estavam ligadas à identificação e manutenção de cadastro de clientes, ao registro de operações, às adoção de políticas, aos procedimentos e controles internos de prevenção ao crime de lavagem de dinheiro e de financiamento ao terrorismo, à manutenção de cadastro do supervisionado, ao atendimento a requisições do regulador/fiscalizador, à comunicação de operações em espécie, à comunicação de operações suspeitas, e à comunicação de ausência de operações passíveis de comunicação ao COAF.

No ano passado, as empresas reguladas pelo Bacen e pela CVM tiveram que se adequar a uma série de novas regras. Passado um ano das novas regulamentações, alguns processos já começaram a mudar. Algumas das principais plataformas de investimento, por exemplo, passaram a pedir atualização de dados cadastrais de seus clientes. Isso porque, de acordo com atualizações das resoluções da CVM, os distribuidores de investimentos são obrigados a checar as informações básicas de seus clientes com frequência.

Os serviços financeiros são cada vez mais digitais – de acordo com pesquisa realizada pela Deloitte para a Febraban, juntos, os canais digitais concentram 67% de todas as transações (68,7 bilhões) e são responsáveis por 8 em cada 10 pagamentos de contas, e por 9 em cada 10 contratações de crédito. O número de transações feitas pelo celular chegou a 52,9 bilhões, ante 37 bilhões no ano anterior. Com isso, as empresas e os clientes terão que se atentar para o que os cadastros e o acesso às informações sejam feitos de maneira correta, ou seja, as instituições precisam se responsabilizar em checar a veracidade da identidade de quem está acessando e os clientes precisam se comprometer a fazer as atualizações necessárias com mais frequência.

As exigências para se evitar fraudes já existem por parte dos reguladores e as empresas já trabalham para realizar as mudanças necessárias. No entanto, cabe observar que ainda faltam tecnologias e qualificação das pessoas para lidar com os crimes virtuais. Muitas fintechs, que são empresas essencialmente de tecnologias, curiosamente não têm ferramentas tecnológicas adequadas para fazer isso.

As empresas já estão avançando nesse um ano de novas regras, mas elas devem pensar e investir incansavelmente em estratégias, tecnologias e qualificação para combater incisivamente os crimes financeiros em mundo cada vez mais digital. Uma das soluções mais assertivas é a adoção de ferramentas que permitam a automação de análises para monitoramento contínuo de transações, riscos e processos críticos, por meio da coleta de informações do banco de dados das empresas. O uso de machine learning e inteligência artificial nas áreas de auditoria interna e compliance das organizações geram mais segurança, uma vez que os controles manuais e tradicionais são mais demorados, custosos e suscetíveis a falhas do que a automação. Para a blindagem contra fraudes e implementação dessas soluções, é necessária a conscientização de todo o ecossistema – organizações, profissionais e usuários.

*Gustavo Lucena é sócio da área de Risk Advisory da Deloitte, responsável pelos riscos de crimes financeiros

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