Investimento para crescer em tempos de mudança

Investimento para crescer em tempos de mudança

Marco França*

14 de maio de 2021 | 04h00

Marco França. FOTO: DIVULGAÇÃO

Por muito tempo, vivemos a intermitência entre o apetite de fundos de VC (venture capital) com investimentos de maior risco e de PE (private equity) em empresas mais consolidadas e maduras no Brasil. Desde os anos 2000, os gaps de acesso ao capital eram claros, os sócios anjo quase inexistentes e pouca competição entre os fundos. O que isto representava na prática? O ciclo de crescimento da empresa convivia com hiatos intermináveis de acesso ao dinheiro, além da pouca barganha negocial quando se referia a valuation e a autonomia política para tocar a gestão do negócio. O middle market, composto por companhias de médio porte com faturamento entre R $100 e R $ 500 milhões, era praticamente inexistente no radar dos fundos, muito pela falta de visibilidade de liquidez do investidor e pelos juros altos. A bolsa de valores era focada em empresas de grande porte, tradicionais e maduras.

A sequência clássica: investidor anjo, VC, PE e IPO (inicial public offering) evoluiu muito nos últimos anos. Existem mais atores nas fases do investimento e cheques mais robustos em todas as etapas do ciclo, além de uma concorrência maior com o investidor estratégico que surgiu mais recentemente com a aceitação de processo de listagem de empresas menores na bolsa B3. Estas últimas, ávidas por alvos que horizontalizam ou verticalizam suas atuações e dominância trouxeram novo momentum ao processo. Particularmente aí, temos uma discussão interessante e pragmática. Enquanto os fundos visam alvos que possam dar o retorno anualizado aos acionistas acima de 20% ao ano no ciclo de sete anos, o investidor estratégico listado ou em vias de, está mais preocupado com arbitragem de múltiplo e tem se mostrado mais rápido na compra e agressivo no preço.

Os cheques dedicados ao middle market, entre R$200 e R$500 milhões, aparecem com mais frequência, dentro de um ambiente com maior tolerância ao risco, permitindo fechar alguns gaps importantes no Brasil. É óbvio que os desafios de investir e empreender permanecem. Entretanto, muitos fundos já tiveram sucesso e aprenderam a apostar na economia, respeitando a dificuldade política da região, mas sem se prender a ela. Tudo somado e evitando um tom de ufanismo, temos uma bela oportunidade de crescimento real pela frente. Permitindo assim, a qualificação dos empreendedores e a profissionalização das empresas através do suporte intelectual e financeiro de consultorias e fundos focados em transformação e crescimento, em que pese o ambiente macroeconômico e o inconstante humor político no Brasil.

*Marco França é engenheiro pela PUC, com MBA pela Coppead e Sócio da Auddas

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