Investimento com impacto social já são realidade

Investimento com impacto social já são realidade

Edmond Sakai*

25 de agosto de 2020 | 11h30

Edmond Sakai. FOTO: DIVULGAÇÃO

Um dos aspectos positivos do impacto da pandemia nas organizações sociais foi o crescimento do interesse das empresas em formar parcerias com o terceiro setor. Mas pensando a longo prazo, além desse período marcado pela COVID-19, para um século 21 caracterizado por imensos desafios sociais e ambientais, acredito que o caminho para a superação destes desafios passa por uma compreensão mais ampla da tecnologia e pela conscientização de que estamos todos “no mesmo barco” e até quem ocupa o topo da pirâmide social não está protegido.

Um dos efeitos econômicos das grandes crises é a convergência da riqueza nas mãos de quem já detém a maior parte do patrimônio. O processo de concentração de renda nas últimas quatro décadas é inegável e a evolução tecnológica, embora tenha contribuído para a melhoria de importantes indicadores como expectativa de vida, mortalidade infantil e escolaridade, em muitos casos acentua desigualdades, por exemplo, com a eliminação de postos de trabalho substituídos por máquinas e robôs.

Herdeiros se comprometem a gerar impacto social

A boa notícia é que a atual geração de herdeiros das famílias controladoras de alguns dos maiores grupos empresariais e financeiros do mundo, que somados reúnem trilhões de dólares, parece ter maior consciência de sua responsabilidade e dever ético em usar não só seu próprio patrimônio, mas sua rede de contatos e influência, para provocar impacto positivo na sociedade.

Um exemplo é o Generation Pledge, entidade sem fins lucrativos constituída nos EUA e idealizada pela brasileira Marina Feffer, herdeira de uma das famílias mais ricas do Brasil, controladora da Suzano Papel e Celulose. A entidade busca fazer com que herdeiros de grandes patrimônios se comprometam a doar no mínimo 10% de sua herança para ações de impacto socioambiental, divididas em iniciativas puramente filantrópicas, em investimentos financeiros mais responsáveis, e na condução das suas empresas com um olhar voltado para a mudança.

Há um novo modelo de filantropia implementado pelo Confluentes, fundado por um grupo de instituições que já financiam iniciativas da sociedade civil e liderado pelos Lafer, que “escolhe um conjunto de organizações com comprovada capacidade de atuação e alto potencial de promover mudanças em suas áreas de atividade para receber recursos de pessoas físicas interessadas em fortalecer a capacidade da sociedade civil para realizar transformações positivas no Brasil.”

Interessante também mencionar a chegada ao País de uma rede multissetorial – vinculada ao “International Venture Philanthropy Centre” – sem fins lucrativos, chamada Latimpacto, que reúne investidores sociais, com o objetivo de mobilizar capital (humano, intelectual e financeiro) para apoiar de maneira eficiente organizações sociais que geram impactos sustentáveis, o “venture philanthropy”, para a sociedade.

Outro case inovador no Brasil é o Movimento Bem Maior, que nasceu da filosofia de vida de um dos maiores executivos do setor imobiliário, Elie Horn, da Cyrela, junto a outros quatro executivos, com uma missão altruísta de duplicar, em dez anos, o volume de doações em relação ao PIB brasileiro. E para isso, atuar em rede, estabelecendo novas conexões e debatendo a pauta social do país, é fundamental. Eles também estimulam novas empresas e empresários a abraçarem uma causa, duplicando novas doações com recursos próprios.

O investimento de impacto social está rapidamente deixando de ser apenas filantropia, em que indivíduos com muitos recursos destinam parte deles a doações a entidades sem fins lucrativos para se tornarem investimentos estratégicos, que trazem também retorno financeiro, direta ou indiretamente, aos investidores e as cadeias de valor que movimentam seus negócios.

Investimento com contrapartida social já é realidade

Vivemos um momento de taxas de juros baixíssimas, ampliando a democratização e acesso ao mercado de renda variável, com financeiras e corretoras intermediando a entrada de pequenos investidores aos fundos de investimentos e no mercado de ações.  Os fundos de investimentos voltados para impacto social, que investem em empresas que, por exemplo, promovem inclusão financeira, microcrédito ou tecnologias de baixo custo para populações vulneráveis, ainda estão voltados mais aos chamados “investidores qualificados”, que possuem mais de R$ 1 milhão aplicados e maior apetite a risco.

Investidores pessoa física, com menos recursos disponíveis, que queiram garantir que sua poupança gere impacto real além do retorno financeiro, podem entrar no mercado dos “green bonds”, ou títulos verdes, muito parecidos com títulos de dívida comuns, mas que só podem ser usados para financiar investimentos considerados sustentáveis.

Aqui no Brasil, uma iniciativa muito interessante é o VRB Impacto, formado por gestores de investimentos de algumas das famílias mais influentes do Brasil. Esses gestores emprestam sua expertise para investidores de pequeno porte, interessados na renda variável, que podem começar a aplicar a partir de R$ 5 mil em fundos de Previdência ou Multimercado, e usam parte da taxa de administração para financiar ações de impacto social. Aqui todos ganham, os investidores têm acesso a produtos financeiros atrativos e contribuem indiretamente para a educação e geração de renda do país.

Prevejo um futuro muito promissor para esse campo, que se concretizará em mais recursos para ações que gerem resultados palpáveis e mensuráveis, guiados por uma visão estratégica. O desafio adiante é grande, mas o primeiro passo, a consciência da necessidade do investimento social de impacto, já foi dado.

*Edmond Sakai, diretor de Relações Institucionais e Marketing da Aldeias Infantis SOS Brasil e mestre em Administração de ONGs pela Washington University in Saint Louis (EUA)

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