Investigadores apontam a necessidade de bloquear comunicação entre lideranças da FDN

Investigadores apontam a necessidade de bloquear comunicação entre lideranças da FDN

Autoridades ouvidas pelo Estado afirmam que somente a transferência para presídios federais não resolve o problema e principais lideranças deveriam ir para o Regime Disciplinar Diferenciado, o RDD

Fabio Serapião e Fausto Macedo

04 de janeiro de 2017 | 05h31

Apontado como a solução para a disputa entre as facções Família do Norte e Primeiro Comando da Capital (PCC), o envio das lideranças para o sistema prisional federal não resolve inteiramente a situação de tensão no Amazonas. Para investigadores amazonenses ouvidos pelo Estado, a transferência deve estar atrelada a manutenção de todas as lideranças no Regime Disciplinar Diferenciado (RDD) para evitar qualquer tipo de comunicação que possa resultar na organização de novas ações. Como argumento para a ineficiência da transferência sem o RDD, com comunicação limitada e sem contato com outros presos, os investigadores lembram que tanto o surgimento da FDN, como a aliança firmada entre ela e o Comando Vermelho (CV), ocorreram dentro de presídios federais.

No entendimento dos investigadores, a organização da FDN atingiu um patamar em que apenas a transferência para outras penitenciárias não seria suficiente. É preciso, segundo eles, acabar com qualquer tipo de comunicação entre os líderes e seus subordinados de modo a criar um vácuo de poder na organização. Os assassinatos no Complexo Penitenciário Anísio Jobim ocorreram após algumas lideranças terem deixado o RDD – para onde foram enviados após a operação La Muralla, no final de 2015.

A FDN é apontada pela Polícia Federal como a terceira maior facção do Brasil – atrás apenas do PCC e do CV. A organização criminosa surgiu por volta do ano de 2006 após a união de dois grandes traficantes amazonenses que cumpriam suas penas em presídios federais. Gelson Lima Carnaúba, o G, e José Roberto Fernandes Barbosa, o Pertuba, saíram do sistema prisional federal com destino ao Amazonas “determinados ou orientados”, segundo a PF, a estruturarem uma facção criminosa nos moldes do PCC e CV. O primeiro passo foi a criação de um estatuto com “regras e pilares de hierarquia e disciplina” cuja primeira regra é que “nada é feito ou definido sem a ordem ou aprovação” do “Conselho” formado por Carnaúba, Pertuba, Geomison Lira, o Roque, Cleomar Freitas, o Copinho, Alan Castimário, o nanico, e João Carioca, o João Branco ou Potência Máxima.

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Essa estrutura organizacional, aponta a PF, “permitiu à FDN obter o controle absoluto dos presídios amazonenses, e consequentemente, o domínio de todos aqueles que trabalham em uma das maiores rotas de escoamento de drogas do mundo, a chamada “Rota Solimões” – percurso entre Tabatinga/AM, na região da tríplice fronteira entre Brasil, Colômbia e Peru, até Manaus/AM. Além da organização, esse poder para conseguir dominar uma região tão importante para o tráfico internacional, segundo os investigadores, foi possível graças a aliança entre a FDN e os cariocas do CV.

No relatório final da operação La Muralla, os investigadores elencam uma série de mensagens nas quais integrantes da FDN explicam que a aliança entre os dois grupos foi sacramentada no presídio federal de Campo Grande, no Mato Grosso do Sul. A PF não explica se as tratativas foram presenciais ou por meio de advogados e celulares, mas aponta que pela FDN o responsável pelo acordo seria Gelson Carnaúba e pelo CV um representante que atuava sob o apelido de “Caçula”. Um investigador da La Muralla confirmou ao Estado que “Caçula” é Márcio dos Santos Nepomuceno, o Marcinho VP – uma das maiores lideranças do CV e chefe do tráfico no Complexo do Alemão, no Rio de Janeiro.

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Embora seja aliada do CV, a FDN nunca aceitou ser subordinada a nenhuma outra organização. Ao longo do inquérito que deu origem à La Muralla, os investigadores perceberam que o PCC estava “batizando” criminosos amazonenses de modo a aumentar sua presença no Estado. Essa ação desagradou as lideranças da FDN, que ordenaram a morte de três traficantes ligados à facção paulista. Cerca de um ano após iniciar a disputa com o PCC, a FDN colocou em prática o plano de tentar acabar com a facção adversária no Amazonas.

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Liderança. Desde o início da investigação sobre a FDN, os investigadores ficaram impressionados com o poder de suas principais lideranças. Logo no início da investigação chegou ao conhecimento dos delegados e procuradores um vídeo do aniversário de José Roberto Barbosa, o Pertuba, no qual ele é tratado como os antigos “capos” da máfia italiana retratados no filme “O Poderoso Chefão”. No vídeo, Pertuba recebe convidados em um buffet de luxo e enquanto é entoado o “parabéns” acontece o beija-mão seguido da entrega de presentes como colar, anel e relógio de ouro.

Pertuba ou Messi, como José Roberto é conhecido, é o principal líder da FDN. Antes mesmo da facção já era apontado como uma grande traficante do Amazonas. Segundo a PF, de dentro da prisão, o traficante determina assassinatos, roubos, sequestros, torturas e coordena o tráfico de drogas no Estado. Ao seu lado e não menos poderoso, a PF coloca Gelson Carnaúba, o G. Além de um dos fundadores da facção, Carnaúba foi responsável pela costura do acordo com o Comando Vermelho e, desde então, é um dos interlocutores responsáveis pela comunicação entre os comandos dos grupos criminosos

Veja o Estatuto da FDN:

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