Investigado no caso Queiroz, advogado defendeu Bolsonaro em causas contra imprensa e quilombolas

Investigado no caso Queiroz, advogado defendeu Bolsonaro em causas contra imprensa e quilombolas

Relação dos Bolsonaro com Victor Granado Alves, um dos acusados por Paulo Marinho de presenciar vazamento da Furna da Onça, envolve cargo em gabinete e atuação na Justiça

Caio Sartori/RIO

21 de maio de 2020 | 16h49

*Atualizado às 18h30 para inclusão de manifestação da Kopenhagen

O presidente Jair Bolsonaro e ex-assessor parlamentar de Flávio Bolsonaro, Fabrício Queiroz. Fotos: Eraldo Peres / AFP Photo e Reprodução/SBT

Apontado pelo empresário Paulo Marinho como uma das pessoas que presenciaram o suposto vazamento da operação Furna da Onça, o advogado Victor Granado Alves tem um longo histórico de relação com a família Bolsonaro – no Judiciário e no Legislativo. Investigado no Caso Queiroz, no âmbito do qual teve sigilos fiscal e bancário quebrados, Granado defendeu Jair Bolsonaro e os filhos em casos que envolvem ofensas aos quilombolas, pedidos de reparação à imprensa e uma suposta incitação à morte do deputado Marcelo Freixo nas redes sociais de Flávio Bolsonaro.

Verdadeiro ou não, o relato cinematográfico de Marinho, que abarca encontro na porta da Polícia Federal e reuniões em restaurante e hotel, escancara essa proximidade com o clã presidencial. Granado é um dos quatro advogados que, como mostrou o Estadão em janeiro em 2019, atuaram ou ainda atuam para a família enquanto ocupavam cargos em seus gabinetes. Outro a integrar essa lista é Miguel Angelo Braga Grillo – que, segundo Marinho, também estava no momento do suposto vazamento da operação.

Um dos casos mais emblemáticos em que Granado atuou na defesa de Bolsonaro é aquele em que o então deputado federal foi acusado de racismo por ofender quilombolas. O episódio ocorreu em abril de 2017, durante discurso no Clube Hebraica, no Rio. “Fui num quilombo. O afrodescendente mais leve lá pesava sete arrobas. Não fazem nada. Eu acho que nem para procriador ele serve mais. Mais de R$ 1 bilhão por ano é gastado com eles”, disse o presidente.

Em outubro daquele mesmo ano, a Justiça Federal chegou a impor uma multa de R$ 50 mil a Bolsonaro, mas, em setembro de 2018, o Tribunal Regional Federal da 2ª Região (TRF-2) o inocentou – e depois, com ele já na Presidência, considerou o processo transitado em julgado, ou seja, encerrou a tramitação do caso. A banca de Granado, a Granado Advogados Associados, foi responsável pela defesa de Bolsonaro.

Victor Granado Alves era assessor do gabinete de Flávio na Assembleia Legislativa do Rio, a Alerj, e é investigado pelo Ministério Público do Rio no âmbito do Caso Queiroz, que apura se o então deputado estadual e seus aliados praticaram os crimes de peculato, lavagem de dinheiro e organização criminosa. O advogado teve os sigilos bancário e fiscal quebrados em abril do ano passado.

O fato de trabalhar para Flávio no Legislativo não impediu que Granado também atuasse como advogado dele. O aliado defendeu o filho do presidente em ação movida pelo deputado Marcelo Freixo (PSOL-RJ) durante a eleição municipal de 2016, quando ambos concorreram à Prefeitura do Rio. Na ocasião, Flávio compartilhou uma mensagem nas redes sociais em que afirmava que “bandido bom é bandido morto” para, depois, perguntar: “Que tal começar por Marcelo Freixo?” O psolista perdeu o caso na primeira e na segunda instância.

Os advogados do escritório de Victor, que incluem Mariana Teixeira Frassetto Granado, atualmente empregada no gabinete de Flávio no Senado, também representam o presidente em ação movida contra o PCdoB. Em 2016, o partido publicou nas redes sociais que o autor do ataque a uma boate LGBT em Orlando, nos Estados Unidos, seria eleitor de Bolsonaro caso fosse brasileiro. O atentado deixou 50 pessoas mortas.

O caso tramita na 21ª Câmara Cível do Rio. Bolsonaro chegou a ganhar uma decisão que obrigava o partido a pagar R$ 30 mil a ele, mas a sentença foi anulada.

Outros processos incluem pedidos de reparação por conteúdos publicados pela imprensa. Veículos como o jornal carioca O Dia e o site Revista Fórum estão na lista.

Segundo reportagem da Folha de S. Paulo publicada no último dia 19, o PSL, ex-partido da família Bolsonaro, repassou R$ 500 mil do Fundo Partidário ao escritório de Granado em fevereiro de 2019 – a pedido de Flávio.

Assim como o senador, Granado também é investigado por supostamente usar franquias da rede de lojas de chocolate Kopenhagen como forma de lavar dinheiro. O Estadão não conseguiu contato com o advogado.

Paulo Marinho afirma que Granado, na companhia de Miguel Angelo Braga Grillo e Val Meliga, compareceu à porta da superintendência da Polícia Federal no Rio durante a eleição de 2018 para receber informações privilegiadas sobre a operação Furna da Onça. Um suposto delegado teria dito a eles que a operação seria atrasada para não prejudicar a família Bolsonaro nas eleições.

A Furna da Onça foi às ruas no dia 8 de novembro e cumpriu 19 mandados de prisão temporária, três de prisão preventiva e 47 de busca e apreensão, expedidos pelo Tribunal Regional Federal da 2ª Região (TRF-2). O foco eram deputados da Alerj.

Flávio não era alvo, mas relatórios de inteligência financeira produzidos pelo antigo Coaf já apontavam desde janeiro daquele ano movimentações suspeitas nas contas de Fabrício Queiroz, seu suposto operador financeiro no esquema de “rachadinha”. Os relatórios tinham como escopo deputados e assessores da Assembleia, e o caso específico de Flávio foi revelado pelo Estadão no início de dezembro, quando o procedimento investigativo já havia sido aberto pelo Ministério Público do Rio.

Dias após a entrevista de Marinho à Folha, o deputado estadual Anderson Moraes (PSL) decidiu nomear Granado para seu gabinete na Alerj. Lá, ele fará companhia a uma das ex-mulheres do presidente Jair Bolsonaro, Rogéria, que trabalha para o parlamentar. O deputado é próximo a Flávio e à família como um todo – tanto que, quando o Estadão ligou para o sócio do senador em dezembro do ano passado, quem atendeu foi Anderson. Alexandre Santini, o sócio, foi acusado de participar do suposto esquema de lavagem de dinheiro de Flávio por meio de uma franquia da Kopenhagen.

Segundo o gabinete do deputado, o convite a Granado foi feito porque a ala bolsonarista perdeu a liderança do PSL na Casa, onde Granado trabalhava. O advogado, disse Anderson, é “alguém de confiança, com convivência no Legislativo e altamente capacitado para assessoria. Com a experiência jurídica que ele tem, vai somar muito no nosso trabalho.”

COM A PALAVRA, A KOPENHAGEN

“A marca afirma que colabora com as investigações e não compactua com qualquer meio de corrupção ou práticas ilegais. Esclarecemos, ainda, que como franqueadores não  podemos interferir em projetos, movimentações de compra e venda, e/ou atividades profissionais dos nossos franqueados – como pessoas jurídicas totalmente independentes. Somos uma empresa idônea que preza pela nossa história de 92 anos e pela excelência de nossos produtos e atendimento aos nossos consumidores.”

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