Invert

Invert

Cassio Grinberg*

16 de julho de 2020 | 09h00

Cassio Grinberg. FOTO: DIVULGAÇÃO

O invert é uma manobra do skate que me marcou muito, desde quando aprendi a executá-la, pelos idos de 1987. Trata-se de um movimento onde o skatista planta uma espécie de parada de uma só mão e, com a outra, segura o skate sob as solas dos pés; de modo que, se você tirar uma fotografia e girá-la 180o, verá um skatista pisando um skate no ar e segurando um mundo invertido num intervalo entre duas rajadas de som — com apenas uma das mãos.

A primeira coisa que percebi quando comecei a evoluir no invert foi que, para realizá-lo, você precisa mais de equilíbrio do que de força. Equilíbrio como o que estamos precisando agora, num intervalo de mundo em que estamos isolados nos virando com uma só mão e com os pés no ar com nossos trabalhos, nossos filhos, nossas finanças, nossa solidão, nossa esperança e nossas roupas para lavar.

Também aprendi com o invert que é preciso estar por inteiro, assumindo a responsabilidade. Certa vez um invert exagerado me rendeu uma fratura exposta no dedão da mão, fiquei sem ir à escola (por menos tempo que os adolescentes estão agora) mas também aprendi que colocar a pele no jogo é o suficiente para que a vontade de dar certo seja maior que o medo de dar errado.

Agora, e se pudéssemos nos inspirar no significado da palavra para nos permitir inverter certas lógicas? No livro Tudo o que você pensa, pense o contrário, Paul Arden nos sugere que façamos, e depois consertemos ao seguir em frente. Existem, segundo ele, pessoas demais gastando tempo demais tentando aperfeiçoar alguma coisa antes de sequer fazê-la. Acho que deveríamos pensar um pouco nisso.

No skate, como em qualquer movimento empresarial ou político, a sucessão de tentativas e erros é que vai nos conduzindo enquanto criamos a estrada, e é possível, em tempos de interrogação, andar no caminho certo mesmo fazendo algumas escolhas erradas. Haruki Murakami costuma dizer que, se damos um giro e regressamos à beira de um rio, o rio estará diferente também porque nós mesmos mudamos. No invert, como na vida, já não existe voltar atrás. Muito menos a ser como era.

*Cassio Grinberg, sócio da Grinberg Consulting e autor do livro Desaprenda – como se abrir para o novo pode nos levar mais longe

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