Inventário da ganância

Inventário da ganância

Allan de Abreu*

11 de julho de 2017 | 10h00

Allan de Abreu. FOTO: DIVULGAÇÃO

Vira e mexe me ponho a pensar nas histórias de Lucinéia Capra e de Lucas Bega da Cunha. Ambos jovens, muito bonitos, tiveram um fim trágico ao serem seduzidos pelo lucro fácil do narcotráfico. A primeira, modelo, está desaparecida há 14 anos, assim como o seu filho, um bebê recém-nascido na época, e o marido, gerente de uma grande esquema de exportação colombiana baseado em Rio Claro (SP). Sumiram antes que a polícia invadisse o sítio no município e encontrasse por lá 800 quilos de cocaína pura, pronta para ser exportada pelo “capo” Luciano Geraldo Daniel, o Tio Patinhas, que fez fortuna no comércio atacadista de drogas.

Já Lucas está morto. Para amplificar o drama, sua família em São José do Rio Preto (SP) nunca pôde se despedir dele, nem visitar seu túmulo. O rapaz está enterrado como indigente em um cemitério de Amsterdã, Holanda. Em 2002, Lucas transportou 70 cápsulas de cocaína no estômago até a capital holandesa, a serviço de uma quadrilha de traficantes baseada no interior paulista. Uma cirurgia no intestino, porém, impediu-o de expelir 60 cápsulas. Os traficantes holandeses queriam abrir a barriga de Lucas a qualquer custo, mas o brasileiro que o aliciou, Israel Dias de Oliveira, impediu. O traficante narrou em um diário a agonia de Lucas, com sucessivos delírios causados pela febre e pela dor extrema no ventre. O jovem foi deixado no chão da recepção de um hospital de Amsterdã, onde morreria de overdose horas depois, quando as cápsulas no seu abdômen começaram a estourar.

Reuni essas e muitas outras histórias no livro-reportagem Cocaína: a rota caipira, publicado pela editora Record. Por cinco anos, me pus o desafio de destrinchar as histórias de glória e ruína envolvendo o tráfico da cocaína na rota que rasga o interior paulista e o Triângulo Mineiro em direção aos grandes centros urbanos do Brasil, Rio de Janeiro e São Paulo. Nesse período, perdi as contas das viagens que fiz para entrevistar policiais, promotores, juízes e traficantes e reunir documentos, sobretudo inquéritos e ações penais, boa parte deles cobertos pelo segredo de Justiça. Fui à violenta fronteira do Brasil com o Paraguai, cenário onde operam as grandes organizações criminosas do narcotráfico na América do Sul, entrevistei cocaleiros no interior da Bolívia. Custa acreditar que daquele arbusto mirrado nascem uma das grandes desgraças do mundo moderno.

Apurava as informações e as redigia em capítulos. O livro crescia mês a mês, obedecendo à máxima do amigo jornalista Domingos Meirelles de que livro bom precisa parar em pé. Eram tantos enredos que cheguei a pensar estar viciado, não no pó propriamente, mas na tarefa de reunir informações e escrever sobre o pó.

Chegou um momento, no entanto, em que o livro me falou: “Estou pronto”. Assim mesmo. Um livro é capaz de conversar com o autor, como um botânico com suas flores. Era hora de prepará-lo para virar papel, com capa, com fotos, com cheiro. Está lá dentro: o rapaz pobre que fez fortuna produzindo cocaína de alta qualidade e em certo momento decidiu que era hora de “renascer” na pele de outra pessoa, assim como um mexicano que largou a violência dos cartéis na sua terra natal para desfrutar dos seus milhões de dólares no interior do Brasil; o descendente de japonês que levava duas vidas, a do advogado respeitado e a do gerente de um grande esquema de exportação de cocaína, inclusive em latas de pêssego em calda com o sugestivo nome “Delícias da Vovó”; o empresário de Ribeirão Preto que pilotou aviões abarrotados com cocaína de Pablo Escobar e certo dia ousou construir um submarino para transportar até cinco toneladas de cocaína para a Europa; a ascensão da facção criminosa PCC pelo capital gerado no narcotráfico; a criatividade da máfia italiana para acoplar caixas com cocaína nos cascos de navios transatlânticos; a saga de policiais que trocam de lado e se tornam tão ou mais criminosos do que aqueles que deveriam combater; o drama das “mulas” do tráfico, seres humanos animalizados pelo crime.

Por fim, Cocaína: a rota caipira ficou com 800 páginas. Ser assim tão grande é parte integrante da mensagem do livro: o narcotráfico é uma história longa, complexa e sem fim aparente. Só depois de publicado é que cheguei à seguinte conclusão: mais do que narcotráfico, a obra trata da ganância do ser humano, já que nenhuma outra mercadoria no planeta possibilita um lucro tão fabuloso quanto o cloridrato de cocaína – entre a produção e a distribuição final nos grandes mercados consumidores, Estados Unidos e Europa, o preço do quilo da droga aumenta impressionantes 2.000%.

Com a ganância, surgem os piores demônios do homem: quantos quilos de maldade satisfazem a busca pela vida fácil do crime? Jornalisticamente, difícil mensurar. Compete a mim, repórter, narrar o drama de personagens como Lucinéia e Lucas, vítimas e ao mesmo tempo algozes de um enredo intrincado, repleto de momentos de glória e de ruína, e que tem no negócio da cocaína seu principal vetor. Uma narrativa dramática, com perguntas subliminares que historicamente a sociedade parece incapaz de responder.

*Repórter especial do jornal Diário da Região, em S. José do Rio Preto (SP), professor universitário, mestre em teoria da literatura, autor de Cocaína: a rota caipira

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