Internet para todos é caso de urgência

Internet para todos é caso de urgência

Zacharias Calil*

02 de julho de 2020 | 13h49

Zacharias Calil. Foto: Divulgação

Ficou bastante conhecido o caso do guerreiro menino William que usava o Wi-Fi de um açougue para acompanhar suas aulas on-line em uma praça do distrito de Nova Fátima, aqui em Goiás. A foto do garoto estudando rodou o país e o seu esforço para seguir estudando mobilizou o espírito solidário de muitos brasileiros para que o garoto pudesse ter uma estrutura melhor em casa para seguir estudando no isolamento social em tempos de pandemia. Assim como William, a imprensa mostrou outro garoto cujo pai construiu uma casa nos galhos de uma árvore para alcançar acesso à rede de computadores. Um outro garoto no interior goiano, atravessa longo trecho a pé, no meio do cerrado, em busca do mesmo fim. O fato concreto é que, como esses, milhões de brasileiros encontraram uma nova margem social, que é a falta total de acesso à internet e à infraestrutura digital.

A pandemia da Covid-19 nos pegou a todos de surpresa e causa uma das maiores crises humanitárias do último século em todo o mundo. A imposição do isolamento social para resguardar a saúde pública impôs novas formas de relações sociais dos mais variados tipos e o meio digital tem sido o recurso que melhor permite seguir remotamente atividades da vida cotidiana. Seja no trabalho em home office, nos encontros familiares por  meio online, na hora do lazer com as novidades das lives que acontecem mundo afora, nas consultas médicas por meio da telemedicina, nas transações comerciais por meios digitais, ou seja, na hora de seguir estudando, todas as atividades em tempos tão excepcionais como o que vivemos agora dependem de um infraestrutura básica de internet e equipamentos para que a população siga desempenhando suas atividades cotidianas.

Agora, a triste realidade é que cerca de 45,9 milhões de brasileiros ainda hoje não têm acesso à internet, segundo os dados mais recentes do IBGE (de 2018). Ou seja, são 45 milhões de brasileiros excluídos da possibilidade de seguir estudando, trabalhando, vendo seus entes queridos, entre inúmeras atividades, durante a pandemia. O que significa dizer que estas pessoas ou rompem com a recomendação de isolamento social para seguirem suas vidas, ou estarão completamente isoladas de qualquer recurso mínimo da vida social. Nos tempos atuais, ter acesso garantido à internet significa ter acesso à educação, à saúde, física e mental, ao convívio social e a todos os requisitos mínimos para garantir à população uma vida digna. O que isso quer dizer? Quer garantir acesso à internet para
todos os brasileiros é um dever urgente do poder público. A vida digital deixou de ser apenas uma tendência e uma possibilidade, virou uma necessidade básica por força da pandemia.

Em uma audiência da Comissão Externa de Ações Preventivas ao Coronavírus no Brasil, da qual sou titular, com o Ministro da Ciência, Tecnologia e Inovação, Marcos Pontes, o questionei sobre os planos do governo federal de médio e longo prazos para que a grande maioria do povo brasileiro tenha acesso gratuito à internet e ele me respondeu que há um plano capitaneado pelo Ministério da Comunicação que investirá 40 bilhões de reais para que esse acesso seja uma realidade. É preciso acelerar o plano nos tempos atuais, para garantir que nenhuma criança, como o garoto William, o futuro do Brasil, fique sem estudar
e sem ter acesso aos recursos mínimos para uma vida digna. A pandemia vai acelerar esse projeto e forçar avanços em ciência e tecnologia.

*Zacharias Calil é médico cirurgião pediátrico, pesquisador e deputado federal por Goiás

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