Intermediário de Kassab girou R$ 12,6 mi, diz PF

Intermediário de Kassab girou R$ 12,6 mi, diz PF

Procurador das empresas do ministro e ex-tesoureiro do PSD, Flávio Castelli Chuery foi citado em relatório no âmbito de investigações com base na delação da JBS

Fabio Leite e Luiz Vassallo

08 Janeiro 2019 | 05h02

Gilberto Kassab. Foto: Evelson de Freitas/Estadão

Um relatório da Polícia Federal revela que Flávio Castelli Chuery, apontado como intermediário do ex-ministro da Ciência, Tecnologia, Inovações e Comunicações Gilberto Kassab, movimentou R$ 12,6 milhões em um período de 8 anos. O mesmo documento detalha pagamentos milionários considerados suspeitos da JBS a empresas do ex-ministro.

Flávio Chuery é sócio e procurador da Yape Transportes e da Yapê Engenharia, pertencentes ao ex-ministro, além de ex-tesoureiro do Partido Social Democrático, fundado por Kassab. Delatores da Odebrecht e da JBS o apontam como suposto intermediário para o recebimento de propinas.

Kassab afirma ‘estar à disposição para quaisquer esclarecimentos que se façam necessários e ressalta, mais uma vez, que todos os seus atos seguiram a legislação e foram pautados pelo interesse público’. Já a defesa de Chuery diz que ‘patrimônio é compatível com seus rendimentos e esclarece que a maior parte da movimentação apontada refere-se a transações relacionadas ao espólio do seu pai’.

O delator Wesley Batista afirmou que Kassab recebeu um mensalão de R$ 350 mil da empresa entre 2010 e 2016, totalizando R$ 30 milhões, “em troca de eventual influência política futura em demandas de interesse da JBS”. Já o executivo Ricardo Saud disse que a empresa repassou outros R$ 28 milhões ao PSD pela compra de apoio político acertada com o PT na campanha presidencial de 2014. Segundo o acordo de colaboração da JBS, Chuery teria sido responsável por viabilizar as doações eleitorais ao partido.

A Polícia Federal identificou que a hold fez pagamentos de R$ 23,1 milhões a empresas de Kassab. Em relatório, a PF diz ver indícios de lavagem de dinheiro. O documento foi elaborado com base em informações do Conselho de Controle de Atividades Financeiras (Coaf), responsável pelo apontamento de transações financeiras atípicas e suspeitas.

Segundo o relatório da PF, há ‘registros de movimentação relacionados a conta titularizada por Flávio Castelli Chuery, relativos ao período de 01/01/2009 até 30/04/2017, no montante de R$ 12.610.376,00’.

A Polícia Federal, no entanto, afirma que as ‘transferências em comento podem eventualmente ter alguma relação com a delação de Benedicto Júnior, do Grupo Odebrecht, que apontou
pagamento de propina para Gilberto Kassab, da ordem de R$ 17.900.000,00, a qual teria sido operacionalizada por intermédio de Flavio Castelli’. No total, os delatores da Odebrecht dizem ter repassado R$ 21 milhões ao ex-ministro.

Kassab foi alvo de buscas e apreensões em 19 de dezembro, autorizadas pelo ministro Alexandre de Moraes, do Supremo Tribunal Federal. Na ocasião, foram encontrados R$ 301 mil em espécie no apartamento de Kassab, no bairro dos Jardins, zona sul paulistana.

Após a operação, no dia 28, Kassab pediu a Doria licença antecipada do cargo de chefe da Casa Civil, que assumiria no dia 1º de janeiro. Ele assinou a posse, mas não foi ao evento para preservar o tucano. A licença só foi publicada nesta sexta-feira, 4, no Diário Oficial do Estado.

COM A PALAVRA, A DEFESA DE FLÁVIO CHUERY

“A defesa de Flávio reitera que seu patrimônio é compatível com seus rendimentos e esclarece que a maior parte da movimentação apontada refere-se a transações relacionadas ao espólio do seu pai, em conta conjunta com familiares e utilizada no inventário, que incluiu a alienação de uma propriedade em Guarulhos concluída há cerca de oito anos (arrolamento n. 2002.187481-6, 2ª Vara de Família e Sucessões) e devidamente declarada aos órgãos competentes”

COM A PALAVRA, GILBERTO KASSAB

O relatório da Polícia Federal é conclusivo ao afirmar (página 213): ” Em relação ao primeiro desses contratos, que trata do arrendamento de caminhões da empresa YAPÊ TRANSPORTES, não se verifica, a priori, qualquer controvérsia do ponto de vista probatório, visto que, em relação ao mesmo, segundo o colaborador, teria havido contraprestação efetiva a todos os pagamentos realizados e que os valores eram compatíveis com o preço de mercado.”
Sobre as consultorias, a partir das provas apresentadas, o relatório afirma (página 265): “Em relação a essa primeira situação, embora considerando-se a apresentação parcial dos documentos comprobatórios dos pagamentos realizados pela JBS, relativos ao período de agosto de 2013 até julho de 2016, ainda pairam sérias dúvidas quanto a veracidade das informações fornecidas pelo colaborador, principalmente quando se leva em conta as manifestações escritas apresentadas” pela defesa, “com os indicativos de provas nelas apontados. Em suas versões acerca dos fatos investigados, os citados, além de afirmarem ter havido efetiva contraprestação de serviços aos pagamentos realizados pela JBS, apontam elementos concretos de convicção que corroboram suas alegações, tais como comprovantes de troca de e-mails com funcionários da JBS e plano de trabalho que teria sido executado.”
É importante destacar que Wesley Batista, depois afirmar inicialmente em depoimento que esses contratos de consultoria eram fictícios, de notas frias para pagamento de “over price”, admitiu em adendo, por escrito, ao depoimento prestado em 20 de março de 2018 (página 292 do volume 1), que “A documentação que daria suporte a tais pagamentos, e que pretendiam legitimar prestação de serviço inexistente, se encontram na empresa JBS, e estão acondicionadas em aproximadamente vinte caixas, conforme fotografias ora anexadas.”
O relatório prossegue (página 265): “Registre-se ainda em corroboração ao alegado pelos mesmos, o depoimento da secretária de WESLEY, ERIKA HENNA, às tis. ‘327/328, e o extrato de conversa via aplicativo de mensagens apresentado, pela mesma, juntado às fls. 329/332. Tanto na sua fala quanto na conversa mencionada, despontam fortes indicativos no sentido de que um dos sócios da Yapê estava de fato ministrando treinamento naquela empresa, entre os anos de 2015 e 2016.”
Desta forma, Gilberto Kassab reafirma que as empresas prestaram os serviços, a preços de mercado, que estão documentados de forma robusta e consistente, em relação comercial iniciada ainda com empresa que foi posteriormente adquirida pela JBS. Tais informações já foram apresentadas à investigação. Kassab reitera sua confiança na Justiça brasileira, no Ministério Público e na imprensa, e entende que quem está na vida pública deve estar sujeito à especial atenção do Judiciário. Reforça estar à disposição para quaisquer esclarecimentos que se façam necessários e ressalta, mais uma vez, que todos os seus atos seguiram a legislação e foram pautados pelo interesse público. Em relação a Flávio, ele destaca ter total confiança em sua conduta e correção.