Interferência do governo Bolsonaro com liberação de verbas domina debates para definição da cúpula do Congresso

Interferência do governo Bolsonaro com liberação de verbas domina debates para definição da cúpula do Congresso

Conforme revelou o Estadão, o governo abriu o cofre e destinou R$ 3 bilhões para 250 deputados e 35 senadores aplicarem em obras em seus redutos eleitorais. Parlamentares atacaram 'compra de votos'

Rafael Moraes Moura/ BRASÍLIA

01 de fevereiro de 2021 | 22h11

O senador Flávio Bolsonaro entrega a Rodrigo Pacheco celular com o presidente Jair Bolsonaro na linha

O senador Flávio Bolsonaro entrega a Rodrigo Pacheco celular com o presidente Jair Bolsonaro na linha. Foto: Gabriela Biló/ Estadão

A interferência do governo do presidente Jair Bolsonaro na disputa pelo comando da Câmara dos Deputados e do Senado, com a liberação de verbas milionárias, dominou os debates nas sessões sobre a definição da nova cúpula do Congresso. Conforme revelou o Estadão, o governo abriu o cofre e destinou R$ 3 bilhões para 250 deputados e 35 senadores aplicarem em obras em seus redutos eleitorais. O dinheiro saiu do Ministério do Desenvolvimento Regional. O Estadão teve acesso a uma planilha interna de controle de verbas, até então sigilosa, com os nomes dos parlamentares contemplados com os recursos “extras”, que vão além dos que já têm direito de direcionar.

A oferta de recursos foi feita no gabinete do ministro Luiz Eduardo Ramos. A Secretaria de Governo, que o general comanda, virou o QG das candidaturas dos governistas Arthur Lira (Progressistas-AL), que disputa o comando da Câmara, e de Rodrigo Pacheco (DEM-MG), do Senado. Além de verbas, o governo também ofereceu cargos a quem aceite votar nos dois nomes do governo, segundo relatos de parlamentares. 

“Eu não vi nada disso. Mas como eu falei, pouco importa essas questões, eu quero saber de eleger um presidente (Câmara) que não vai deixar caducar as medidas provisórias. Um presidente que vai pautar as matérias que estiveram no centro das eleições de 2018. Isso é o que eu quero saber”, afirmou nesta segunda-feira o deputado Eduardo Bolsonaro (PSL-SP), filho de Bolsonaro.

Confira abaixo as críticas de parlamentares à estratégia traçada pelo Palácio do Planalto para interferir diretamente nos rumos do Congresso:

Deputado Baleia Baleia Rossi (MDB-SP), candidato à presidência da Câmara:
“O Estadão publicou uma matéria esta semana onde detalha que o relator do Orçamento colocou para sua base 160 milhões para uma cidade. O outro lider enviou R$ 80 milhões para atender a sua base. Outros 78 milhões, mais um R$ 50 milhões, enquanto os parlamentares lutam para buscar recursos para Apaes, pras Santas Casas, pro desenvolvimento dos seus municípios, com pires na mão.”

Deputado Marcel van Hattem (Novo-RS), candidato à presidência da Câmara:
“Hoje, que vergonha do que vejo acontecer nestas eleições. O mesmo que o presidente criticava lá atrás, e os próprios colegas deputados têm me relatado, não precisamos ir para as manchetes da imprensa, tão vergonhosas. O mesmo que ele criticava lá atrás está acontecendo hoje. Tenho certeza que muitos votos serão por convicção, mas outros tantos talvez sigam aquilo que a manchete do Estadão diz, ‘mais de 3 bilhões liberados em obras a quase 300 parlamentares em meio à eleição do Congresso’.

Deputado Kim Kataguiri (DEM-SP), candidato à presidência da Câmara:
“Temer conseguiu bater o recorde de emendas parlamentares no seu governo. E o seu governo teve reforma trabalhista, reforma do ensino médico, PEC do Teto. Nem o Temer que teve de enfrentar 2 denúncias no plenário pagou tanta emenda quanto Jair Bolsonaro, aquele que ia acabar com a mamata, o toma lá, dá, cá. De fato, ele acabou. Agora o que a gente tem é o toma lá, toma lá. Entrega os cargos, os ministérios, as emendas, mas não tem nenhuma privatização aprovada em plenário. Jair Bolsonaro é um traidor e esta não é a primeira vez que ele trai a população brasileira.”

Deputada Luiza Erundina (PSOL-SP), candidata à presidência da Câmara:
“Estarrecidos, acabamos de saber da enxurrada de bilhões de reais para regar as hostes dos deputados eleitores dos dois candidatos declaradamente governistas, o que não significa que os outros não o sejam, com exceção da nossa candidatura, obviamente. São recursos ‘extras’ que se somam às vultosas verbas das emendas parlamentares que se destinam a bancar as próximas campanhas eleitorais dos candidatos à reeleição a deputado e a senador. É revoltante ver que essa sangria desatada de dinheiro público custa a vida de milhares de brasileiros e brasileiras a quem está sendo negado o direito sagrado à vida; por falta de oxigênio, a população morre por asfixia.”

Deputado Fábio Ramalho (MDB-MG), candidato à presidência da Câmara:
“Não podemos permitir que certas situações continuem a ocorrer. Temos aqui na casa deputados que levam R$ 100, R$ 200, R$ 300 milhões e outros que só levam R$ 3 milhões em emendas às vezes”

Deputado Alexandre Frota (PSDB-SP):
“Eu poderia vender meu voto para o Arthur Lira, assim como mais de 200 deputados aqui dentro fizeram. Mas estaria votando em Bolsonaro e contra a democracia. Estamos com uma eleição definida pela compra de votos, pela ingerência do Palácio e isso aqui, para que o povo saiba e a imprensa toda publique, é um jogo de cartas marcadas.”

Senadora Simone Tebet (MDB-MS), candidata à presidência do Senado:
“Não tenho cargos externos a oferecer. Não tenho emendas extraordinárias a oferecer aos senhores, não tenho apoios políticos oficiais de quem quer que seja, a não ser os apoios mais espontâneos e legítimos vindos dos diversos segmentos da sociedade. Repito: o que tenho a oferecer é um trabalho conjunto a favor do Brasil.”

Senador Lasier Martins (Podemos-RS):
“É verdade que ninguém botou dinheiro no bolso; mas é verdade também que essa verba derramada nos últimos dias, R$3 bilhões, que estão fazendo falta lá para o Bolsa Família, para o auxílio emergencial, nesta época minguada de recursos do Governo Federal, com o maior rombo da história do Brasil, de 743 bilhões de déficit primário, houve dinheiro para contemplar seletivamente vários Senadores. Isso é compra de votos! Descaradamente é compra de votos!”

Senador Jorge Kajuru (Cidadania-GO):
“Mas que houve distribuição de dinheiro, tem que ter havido, ou o jornal O Estado de S. Paulo, com toda a sua história, é mentiroso. Então, vamos processá-lo. Ele informou que 35 Senadores negociaram e 241 Deputados negociaram. O que acontece com quem negociou? Eu não falei com nenhum candidato; nenhum candidato teve coragem de ligar para mim, pedindo voto, porque sabe que a minha caneta grava, o meu telefone grava e, se me oferecesse cargo, eu colocaria no ar na hora, evidentemente. Então, por que todo mundo é colocado na mesma vala?”

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