Inteligência artificial pode ajudar Talibã a perseguir opositores

Inteligência artificial pode ajudar Talibã a perseguir opositores

Cristina Diez*

17 de setembro de 2021 | 10h35

Cristina Diez. FOTO: ÍCARO AIAN

O mês de agosto de 2021 ficou marcado pela volta do Talibã ao governo do Afeganistão. Os extremistas islâmicos retomaram o poder no país após o governo dos Estados Unidos anunciar a retirada das tropas do local. O grupo foi expulso da capital Cabul poucos dias depois dos ataques de 11 de setembro de 2001.

Além de todos os problemas e incertezas que surgem na vida da população afegã com a volta do Talibã, um questionamento está fazendo parte da vida dos seus opositores: é possível ser descoberto por meio dos dados biométricos recolhidos pelo Estado afegão por mais de uma década?

A resposta é sim. Além de terem acesso às impressões digitais, íris e reconhecimento facial da população, dois terços dos habitantes do Afeganistão têm menos de 25 anos e estão habituados a criticar os talibãs nas redes sociais.

É interessante e paradoxal analisar que um programa de recolhimento de dados criado em 2009 para impedir que talibãs se infiltrassem no exército americano agora possa ser usado contra a população que criticou o regime durante esses anos.

O grupo extremista confiscou scanners de biometria utilizados pelos militares americanos, um equipamento conhecido como HIIDE (Handheld Interagency Identity Detection Equipmet). O sistema utiliza um leitor biométrico para catalogar a íris e outro para as digitais, armazena informações biográficas e é usado para acessar uma grande base de dados.

Cabul. FOTO: AAMIR QURESHI/AFP

O HIIDE foi implantado pelos Estados Unidos para monitorar diariamente milhares de afegãos. “Eu não acho que alguém tenha pensado em privacidade dos dados ou na ocasião do sistema cair nas mãos erradas”, diz Welton Chang, diretor-executivo de Tecnologia da ONG Human Rights First e ex-oficial de inteligência do exército americano.

Para tentar reverter o quadro, a organização Human Rights First sugeriu às pessoas que estão em zonas monitoradas por câmeras de segurança a desviar o olhar para o chão para impossibilitar a identificação.

É interessante analisar no exemplo da volta do Talibã sobre como a Inteligência Artificial (IA) já é uma realidade em culturas que nunca imaginaríamos, como é o caso do Afeganistão. No caso do HIIDE, o sistema gerou um problema de ordem diplomática. Entretanto, o mundo em que vivemos não pode mais ignorar a IA e a sua importância para os cidadãos, governos e iniciativa privada.

No ano de 2020, o reconhecimento facial impediu cerca de 370 mil fraudes e, por estar provando sua eficiência, tem ganhado cada vez mais espaço em diversos setores da sociedade.

*Cristina Diez, diretora comercial e de Marketing da Most Specialist Technologies

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