Inquérito apura documentos sobre compra de caças, diz procurador da Zelotes

Inquérito apura documentos sobre compra de caças, diz procurador da Zelotes

Frederico Paiva diz que investigação em curso apura operação de lobista para emplacar compra dos Gripen; documentos citam Lula

Fábio Fabrini, Andreza Matais e Beatriz Bulla, de Brasília

25 de janeiro de 2016 | 14h14

Frederico Paiva. Foto: Luis Macedo/Câmara

Frederico Paiva. Foto: Luis Macedo/Câmara

O procurador da República Frederico Paiva, da força-tarefa responsável pela Operação Zelotes, disse nesta segunda-feira, 25, que documentos que tratam da possível atuação do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva na compra dos caças suecos Gripen, da Saab, pelo governo federal estão sendo analisados em uma investigação da Polícia Federal e do Ministério Público Federal. “Isso faz parte do novo inquérito, que está em curso”, explicou.

Segundo Paiva, apesar de o fato estar sendo apurado, Lula não consta como investigado na Operação Zelotes. O procurador disse estranhar o fato de o ex-presidente ter sido intimado a depor pela PF no último dia 6 de janeiro. “Não entendi o motivo de o delegado ter ouvido Lula nesse caso”, declarou, acrescentando que o policial deve ter suas razões. O petista falou na condição de “informante”.

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A Zelotes denunciou 16 pessoas, entre lobistas e empresários, por suposto envolvimento na “compra” de medidas provisórias editadas no governo federal e aprovadas mais tarde pelo Congresso. Investigações sobre outros fatos, contudo, continuam correndo.

Em um inquérito que ainda tramita, a PF apura se houve algum ilícito em pagamentos de R$ 2,5 milhões feitos pelo lobista Mauro Marcondes Machado, um dos presos na Zelotes, à empresa de um dos filhos do ex-presidente, o empresário Luís Cláudio Lula da Silva. Marcondes representava montadoras e também o grupo que controla a Saab.

Como revelou o estadao.com.br na sexta-feira, 22, a PF suspeita de que os pagamentos a Luís Cláudio tenham relação não só com a edição de medidas provisórias, mas também com o negócio dos caças suecos, que começou no governo de Lula e foi concluído no primeiro mandato da presidente Dilma Rousseff.

Um arquivo apreendido na empresa do lobista citava uma “solicitação da empresa sueca para que o ex-presidente levasse seu apoio à contratação da Saab para a presidente Dilma”. No depoimento do dia 6, a PF perguntou a Lula se os pagamentos ao filho foram alguma “contraprestação” por serviços prestados pelo petista à Saab para que viesse a vencer a concorrência dos caças. Lula negou veementemente e disse que a hipótese é um absurdo.

No sábado, 26, a revista “Veja” divulgou carta apreendida na Zelotes, na qual Mauro Marcondes pede uma reunião com Lula para tratar dos caças.

Lobby. O procurador rebateu nesta segunda afirmação de testemunhas de defesa, ouvidas na Justiça federal, de que o processo de negociação das medidas provisórias envolveu apenas ações lícitas de lobby, e não corrupção. Segundo ele, a chamada “compra” das normas , que concederam incentivos fiscais a montadoras de veículos, envolveu favores e vantagens para que servidores públicos “lubrificassem” o processo de edição das MPs. “Lubrificar”, explicou, era o mesmo que pagar propina para facilitar a tramitação.

O procurador disse que só o lobista Mauro Marcondes recebeu, por meio de sua empresa, R$ 70 milhões de uma das montadoras. “Ninguém paga R$ 70 milhões para alguém fazer reunião com o segundo, terceiro escalão”, declarou. No caso do Ministério da Fazenda, ele exemplificou, não há nem registro de reunião.

O investigador criticou ainda a tese das defesas de que os valores pagos na atividade de lobby são altos para fidelizar os clientes: “O argumento não tem base empírica, até porque (os lobistas) buscavam empresas concorrentes”.

Paiva ponderou que em nenhum momento a denúncia procurou criminalizar o lobby. Segundo ele, foram usadas empresas de fachada e parte do dinheiro foi repassada para agentes públicos. “A busca dos advogados é tentar tumultuar, divergir da linha que estamos adotando”, criticou, acrescentando: “É triste ver que advogados caros, bem remunerados, até agora não conseguiram nenhuma testemunha de defesa que trouxesse algo aos autos. E nem vão trazer. Esses são crimes cometidos entre quatro paredes. A prova é documental”.

Na avaliação dos procurador, as provas apresentadas nos autos são suficientes para condenação.

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