Inovação: mais do que uma palavra da moda

Inovação: mais do que uma palavra da moda

Alex Ferraresi*

11 de fevereiro de 2021 | 05h30

Alex Ferraresi. FOTO: DIVULGAÇÃO

Na área de gestão podemos observar a evidência de temas mudando de tempos em tempos, como ocorre com a moda. Já tivemos a reengenharia, benchmarking, qualidade total, sustentabilidade, Balance Scorecard, entre outras. Agora, a palavra da vez é “Inovação”. Não quero dizer com isto que esses temas não sejam importantes, mas a crítica é quanto à forma como os executivos tratam e implementam técnicas relativas a eles. Também não vejo como inadequado seguir alguns desses modismos, até porque podem resultar em experiências ricas e aprendizado para as empresas e executivos. Porém, tudo isto deve ser visto com parcimônia, pois em muitos casos, os efeitos colaterais e consequências no médio e longo prazo não são considerados, e muitas vezes também, a expectativa de resultados é supervalorizada. Esses conceitos são vendidos a partir de seus pontos fortes, e quase nunca são discutidas as suas limitações ou diferentes situações de aplicações.

Numa visita às livrarias em aeroportos encontramos uma grande quantidade de títulos como “A empresa inovadora”; “Inovação e o sucesso da empresa”; “2000 formas de inovar”; “Inovar ou morrer”, entre vários outros. Podem ser observados ainda os temas adjacentes, que são relativos às técnicas de criatividade. Design thinking, squads, hands on, e outros estrangeirismos são destaques de técnicas com funções específicas que fazem parte da promessa para alcançar a inovação. Nunca se vendeu tanto Post It para ser usado em eventos com equipes de executivos reunidas utilizando design thinking, formando squads para prototipação rápida, ou participando de um hands on ou qualquer outra coisa para inovar.

Hoje a inovação é vista como o Santo Graal, algo a ser alcançado para o sucesso em qualquer organização, e elas gastam muito tempo e dinheiro nessa busca. E nessa esteira temos consultores e escritórios que oferecem soluções para levar a inovação até a sua empresa. E não são poucos. Em boa parte das vezes o investimento solicitado é questionável.

É verdade sobre a importância da inovação nas organizações. Peter Drucker, o mais conhecido guru da administração, já disse que as empresas possuem duas funções fundamentais: inovação e marketing. Mas o conceito de inovação não é algo complicado. Pode-se dizer que inovação é a criação, desenvolvimento e adoção de algo novo, que resulta na criação de valor. Criação de ideias, de tecnologias, de técnicas, de qualquer coisa. Desenvolvimento quer dizer: viabilidade financeira, soluções técnicas, viabilidade de mercado, produção e comercialização, enfim, a atividade de empreender. A adoção depende da percepção de vantagens, de suprir necessidades e desejos e a disposição de adotar por parte daqueles a quem a inovação se destina. O novo pode ser novo para uma empresa, para um segmento de mercado, para uma região, ou ainda, ser novo para todos, o que é mais difícil. Criar valor significa criar algo que seja desejado, que supra necessidades e desejos de pessoas ou grupos de pessoas, e que seja, portanto, demandado. E o valor criado precisa ser sustentável, e não efêmero.

Embora muitas empresas tendam a ignorar, alcançar a inovação é um processo, e como tal, algo contínuo e não espasmódico, que ocorre quando eu faço um encontro para alcançar a inovação, usando design thinking e colando Post It pelas paredes, sempre na dependência de alguém de fora para conduzir as pessoas. Este pode ser um dos momentos, mas uma empresa não tem um dia para inovar. A empresa inovativa é aquela que possui estratégia e que os seus trabalhadores a conheçam, afinal, se não existir uma estratégia ou objetivo claro para inovar,  o que há é dispersão de energia “Se não sei para onde vou, qualquer lugar que eu chegar está valendo”. Existem várias dimensões para inovar. O Manual de Oslo defende 4 tipos de inovação: de produto, de processo, de marketing e organizacional. Já Sawhney, Wolcott e Arroniz apresentam 12 dimensões da inovação: na oferta de produtos e serviços, na plataforma da oferta e produção, nas soluções integradas, em diferentes grupos de consumidores ou clientes, na experiência do cliente, na captura de valor, nos processos, na organização, na cadeia de fornecedores, na presença, na marca e na rede de relacionamento. Portanto, cada uma dessas dimensões quando trabalhadas, agem de forma sistêmica nas empresas e dão suporte a estratégias de curto, médio e longo prazos.

Ainda, a empresa inovativa disponibiliza informações e busca fontes de informação para conhecer o mercado, seus consumidores e clientes, novas tecnologias, tendências, enfim. Transformam essas informações em conhecimento e inteligência internamente. Empresas inovativas investem em pessoas, pois este é o seu capital intelectual, fonte de criação de ideias e capacidade de implementação. Nesse aspecto, o relacionamento com o mercado, com fornecedores, com universidades, com a sociedade, além de fontes de informação, são a fonte do capital intelectual.

Porém, se a organização não possui uma cultura interna favorável à aprendizagem e não seja aberta a novas ideias, todo o esforço e investimento em pessoas pode resultar em nada. É também necessária uma liderança inspiradora, que desperte a confiança de todos e aponte um caminho. É sabido que modelos de gestão mais orgânicos, mais adhocráticos e menos níveis hierárquicos são facilitadores da criação de conhecimento e criatividade no trabalho.

Estes aspectos já estão pacificados na literatura de administração, comprovados por inúmeras pesquisas de campo e análise daquelas empresas que se destacam como inovadores e competitivas nos vários setores da economia. Uma empresa inovativa não se constrói de uma hora para outra. É necessário institucionalizar processos internos e alinhar os demais fatores já citados e fazer a gestão desses processos. Lembrando que processos são contínuos e ocorrem de maneira sistêmica e integrada. Não são espasmos e Post Its que irão mudar a empresa e levá-la a ser inovadora. Pode ser um exercício, mas não a solução.

*Alex Ferraresi é doutor em Administração pela FEA/USP, mestre em Administração pelo PPAD/PUCPR. Foi empresário por 20 anos e hoje é consultor e professor da Escola de Negócios da Pontifícia Universidade Católica do Paraná (PUCPR), além de coordenador do Mestrado em Gestão de Cooperativas – PPGCOOP/PUCPR

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