Inovação em Psicologia: muito além do atendimento online 

Inovação em Psicologia: muito além do atendimento online 

Ana Carolina Peuker*

06 de janeiro de 2021 | 04h30

Ana Carolina Peuker. FOTO: DIVULGAÇÃO

A inovação em psicologia já está acontecendo e pode se expandir ainda mais, assim como ocorre em outras áreas da economia. Temos testemunhado, dia após dia, o avanço das tecnologias da informação e comunicação (TICs) nos tratamentos em saúde. Apesar disso, não devemos restringir a digitalização da psicologia ao atendimento online. O conceito de inovação é amplo e transcende a tecnologia, podendo abranger a inovação incremental em processos, serviços e métodos. Portanto, há um rico universo para ser explorado em termos de inovação na área.

A inovação e a transformação digital mudaram completamente inúmeras áreas, como finanças, logística, mobilidade urbana, saúde, entre outros. Apesar disso,  na psicologia ainda existem barreiras para inovar. A área, em muitos contextos de trabalho, permanece muito analógica e pouco prática para o psicólogo. Um exemplo disso, é a área de avaliação psicológica. O processo avaliativo é burocrático e baseado em tecnologia. Hoje, apesar de toda a revolução digital, que foi catalisada pela crise pandêmica, as avaliações psicológicas ainda contam com pouca inovação: o profissional realiza avaliações com caneta e papel, levantamento manual de testes, consome tempo na formatação do laudo, o procedimento de integração de resultados de diferentes testes é “artesanal”. O que não ocorre em outros campos do conhecimento, como a Medicina, que já trabalha com a robótica e métodos diagnósticos avançados por computador para otimizar processos e tornar a tomada de decisão clínica mais assertiva.

Não se trata simplesmente de automatizar toda a atividade profissional. De forma alguma. O trabalho da psicologia nunca poderá prescindir do olhar humano. Mas o que se percebe é que há oportunidades de melhoria que estão sendo perdidas. A Psicologia deve trabalhar de forma eficiente e precisa. O psicólogo deveria ter este grande pedaço do seu tempo para se dedicar ao raciocínio clínico, algo que avaliações psicológicas exigem, por serem rigorosas e complexas. A tecnologia é um meio de qualificar os processos técnicos, não deve ser vista como uma ameaça.

Em um estudo feito em Harvard, Calestous Juma explorou este fenômeno de resistência à inovação e publicou a obra “Inovação e seus inimigos: por que as pessoas resistem a novas tecnologias”. As pessoas não temem a inovação simplesmente por se tratar de novas ideias, mas pelo receio de perder parte de sua identidade ou estilo de vida, podendo separá-las de seu senso de “self”. Mesmo que a inovação traga impactos positivos: “Há momentos em que novas tecnologias que poderiam ser benéficas à humanidade (…) acabam frequentemente sendo objeto de oposição pelos mesmos grupos que poderiam se beneficiar delas”.

A inovação na Psicologia ainda pode ser vista com ceticismo e de difícil aplicação à realidade, mas isso não é verdadeiro. Podemos inovar em qualquer área, produto ou processo – propondo soluções novas, formas criativas e inteligentes para implementar melhorias e romper com padrões já ultrapassados. Por isso, a inovação em Psicologia, pode ir muito além do atendimento online. As inovações tecnológicas agregam valor ao trabalho, pois tornam os processos mais eficientes e precisos. Por exemplo, com armazenamento de dados na nuvem (cloud), o profissional pode acessar o histórico de informações instantaneamente. Além disso, a possibilidade de armazenamento remoto reduz os investimentos pesados com infraestrutura que haviam no passado, pois sua implementação não requer muitos equipamentos para guardar dados.

A intensa transformação digital tem favorecido também o crescimento de áreas como o Data Science e Big Data. Em virtude da ampliação deste conhecimento, a forma como as decisões são tomadas têm se modificado. Por meio de uma cultura Data-driven pode-se agir de forma preditiva em relação ao risco psicológico. Por exemplo, através de análise de estatística, técnicas de programação e Machine Learning é possível obter uma visão holística e estratégica dos dados, identificar e priorizar problemas a partir de diagnósticos mais precisos. Desta forma, é possível antecipar cenários e gerir os indicadores de saúde mental de forma custo-efetiva, ultrapassando uma lógica já defasada, hegemonicamente, centrada na assistência curativa.

*Ana Carolina Peuker, psicóloga e CEO da BeeTouch. Membro da Comissão de Avaliação Psicológica (CAP) do Conselho Regional de Psicologia do Rio Grande do Sul (CRP/RS) e integra o Grupo de Trabalho de enfrentamento à Covid-19 da Sociedade Brasileira de Psicologia (SBP)

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