Inovação em metodologias ativas do ensino básico: menos ‘pirotecnias’ e mais protagonismo estudantil

Inovação em metodologias ativas do ensino básico: menos ‘pirotecnias’ e mais protagonismo estudantil

Vinicius Beltrão*

26 de maio de 2022 | 03h00

Vinicius Beltrão. FOTO: DIVULGAÇÃO

Com o retorno às aulas presenciais depois de um longo período de distanciamento social, surge uma reflexão importante em torno das mudanças necessárias nos modelos de ensino que praticamos no Brasil, para fazer com que acompanhem também as transformações que estão acontecendo em seu entorno. O debate a respeito das metodologias ativas de ensino pode não parecer novo, mas se ainda precisamos falar sobre isso é porque não executamos com eficiência. Começo essa reflexão mencionando que a nossa sociedade vem passando por grandes alternâncias, nos apresentando um mundo cada vez mais complexo, volátil, instável e ambíguo – ou, líquido, se usarmos o conceito criado por Zygmunt Bauman -, mas a sala de aula permanece a mesma desde o século passado, com mesas e cadeiras para que os alunos escutem sentados aos ensinamentos do professor e anotem o conteúdo escrito no quadro negro. Portanto, a problematização é: por que estamos trabalhando as mesmas desgastadas abordagens de ensino com essa geração de jovens que, hoje, é tão múltipla e plural?

Metodologia ativa nada mais é do que colocar o aluno como protagonista de seu processo de aprendizagem e o professor como mediador desse desenvolvimento, ajudando o estudante a aplicar o conhecimento que adquiriu. Temos na literatura pedagógica uma série de linhas de pesquisa que mostram que a nossa capacidade de entender, fazer uso das informações na prática e pensar de forma crítica e reflexiva é muito maior quando há participação ativa no processo. Diversos autores, filósofos e psicólogos (Jean-Jacques Rousseau, Lev Vygotsky, Paulo Freire, para citar alguns) defendem há anos a importância da experiência, interação, aprendizagem significativa com assuntos de seu interesse e autonomia. Pesquisas, como a Pirâmide de Aprendizagem de William Glasser, indicam que a capacidade de absorção do conteúdo com modelos passivos é de 10-20% e, quando debatemos, interpretamos, perguntamos e ensinamos, esse índice pode passar de 70%.

Nós já sabemos como utilizar as metodologias ativas e, inclusive já fazemos isso, mas o que precisamos agora é adaptar o nosso modelo à realidade atual. Isso significa estruturar o nosso planejamento a partir de atividades que provoquem o aluno a sair do lugar comum e estático para assumir a responsabilidade de aprender e construir, por si mesmo, com o docente e com os pares – considerar os assuntos que ele tem condições de desenvolver naquele momento e lhe dar autonomia no processo de aprendizagem. O professor, por outro lado, precisa assumir a posição de facilitador, mediador e ativador do conhecimento – deve promover a reflexão e ajudar o aluno a problematizar a realidade. A inovação também é fundamental neste momento, mas precisa ser debatida de forma muito coerente e responsável, pois não existe a necessidade de transformações radicais ou muito distantes da realidade da escola, basta olharmos de uma forma diferente para o que já estamos fazendo com foco em potencializar resultados. Por exemplo, os espaços escolares podem ser usados de forma a incentivar o aluno a explorar e identificar onde se aplicam os conteúdos que ele acabou de ver na sala de aula – aprendeu sobre nutrição? Faça uma análise do cardápio da cantina e crie linhas para estudantes com intolerância ou dietas restritivas.

Já a forma de avaliação pode considerar o engajamento dos estudantes em resolver situações-problema, criar projetos e conceitos para além do certo ou errado. Por fim, mas não menos importante, a cultura da escola precisa representar a sua proposta de projeto político pedagógico de ponta a ponta – adotou tecnologias, a cultura deve ser mais digital; propõe dinâmicas focadas no desenvolvimento de habilidades socioemocionais, deve transparecer isso desde às primeiras abordagens e tratamento com os pais.

Tudo isso para dizer que atualizar as metodologias de ensino não é só sobre adotar tecnologia. Essa é uma das várias ferramentas que podem nos auxiliar a superar as lacunas geracionais, pois dá ao aluno a possibilidade de fazer as coisas no tempo dele, de qualquer lugar, com mais autonomia, mas ele precisa ter recursos para aprender, saber o que procurar, onde encontrar e como aplicar na prática o que aprendeu, e o professor e a cultura escolar são peças fundamentais nesse processo. Adotar uma linguagem informacional é outro ponto importante, ou seja, guiar o estudante a selecionar suas fontes de informação, ter uma escuta ativa e ajudá-lo a lidar com os erros como parte do processo de aprendizagem e não como falha. Os dados também precisam ser vistos de forma analítica e aplicada, com as adaptações necessárias a partir das informações coletadas. Portanto, trabalhar com metodologias ativas na atualidade significa relacionar a educação com o nosso papel enquanto escola, considerando também a cultura, a sociedade, os desafios da nossa era, sempre com foco no aluno.

Nós podemos e devemos utilizar metodologias ativas (seja a aula invertida, rotação por estações, grupos de verbalização e observação, gameficação, desenvolvimento de projetos etc.), mas com o cuidado de não superdimensionar uma única proposta, como fizemos com a aula expositiva. Quando vemos que cada vez mais temos iniciativas do MEC (Ministério da Educação) olhando para laboratórios de criatividade; práticas digitais como auxiliadoras de aprendizagem invisível; e até mesmo empresas promovendo treinamento e metodologias ativas, percebemos a importância de as escolas adotarem tais propostas o mais cedo possível.

A BNCC (Base Nacional Comum Curricular) é um, senão o principal, documento responsável pelas mudanças na educação nos últimos anos e há nele muitas reflexões importantes. Primeiro, estabelece que, para o aluno enquanto sujeito da aprendizagem, nós temos que promover um desenvolvimento integral, mas respeitando a singularidade de cada um. Depois, a importância de considerarmos, principalmente, os desafios do mundo atual, independentemente da sua área de atuação. A proposta de toda essa reforma é superar a fragmentação e abstração que se tornou o ensino no Brasil lembrando que, o que está sendo feito em Países com propostas curriculares disruptivas e diferenciadas, com alto nível de aprendizagem validado por exames como o PISA, precisou de um longo processo. Sendo assim, não é pirotecnia e não é de hoje para amanhã, é trabalho consistente, contínuo, gerando dados para uma análise crítica para, então, fazermos melhor a cada ciclo.

*Vinicius Beltrão, coordenador de Ensino e Inovações do SAS Plataforma de Educação

Tudo o que sabemos sobre:

Artigo

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.