‘Inimigo’ Onix, relator do projeto da Lava Jato contra corrupção, pegou R$ 175 mil da Odebrecht via caixa 2

‘Inimigo’ Onix, relator do projeto da Lava Jato contra corrupção, pegou R$ 175 mil da Odebrecht via caixa 2

Na campanha de 2006, segundo executivo delator, empreiteira repassou o dinheiro para o deputado Onyx Lorezoni (Democratas/RS) porque o considerava 'jovem impulsivo' e queria mantê-lo 'próximo'

Fausto Macedo, Julia Affonso, Ricardo Brandt, Fábio Serapião, Fábio Fabrini e Breno Pires

14 de abril de 2017 | 13h05

Onyx Lorenzoni. Foto: Dida Sampaio/Estadão

Onyx Lorenzoni. Foto: Dida Sampaio/Estadão

O deputado Onyx Lorenzoni (DEM/RS) recebeu R$ 175 mil via caixa 2 da Odebrecht, revelou o executivo da empreiteira Alexandrino Alencar em delação premiada à força-tarefa da Operação Lava Jato. Na planilha ‘Drousys’ – programa de controle dos desembolsos ilícitos do grupo -, o parlamentar é identificado pela alcunha ‘Inimigo’.

Onyx Lorenzoni é o relator na Câmara do mais importante projeto da história do Ministério Público Federal, o 10 Medidas contra a Corrupção.

O projeto nasceu da Operação Lava Jato. Inspirados no combate sem tréguas à corrupção, mas céticos com a impunidade que beneficia essa delinquência organizada, os procuradores produziram o 10 Medidas, com apoio do chefe da Instituição, Rodrigo Janot, o procurador-geral da República.

Na Câmara, o 10 Medidas caiu nas mãos do ‘Inimigo’.

Alexandrino depôs dia 14 de dezembro na sede da Procuradoria da República em Campinas (SP). Como todos os quase mil depoimentos dos 77 executivos delatores da Odebrecht, o de Alexandrino também foi gravado em áudio e vídeo pelos investigadores.

Em 2006, Alexandrino dirigia a Braskem, braço petroquímico da empreiteira no Rio Grande do Sul, estado de origem de Onyx.

“Na minha atividade, o relacionamento político é fundamental e sempre focado no crescimento do grupo como um todo, trazendo benefícios para a organização. Dentro desse foco meu sempre estiveram os partidos, os políticos, os agentes públicos, sempre preservando uma sistemática de contribuições financeiras”, narrou o executivo.

Segundo Alexandrino, ‘dentro desse direcionamento tinha que observar, intuir e perceber potenciais candidatos que poderiam crescer e ter um lugar de destaque’.

“Um lugar de liderança no quadro político”, disse.

“Dentro das minhas funções na Braskem, estamos falando de 2006, eu percebi que dentro do escopo político, uma linha política, o sr. Onyx Lorenzoni era uma pessoa importante, um jovem impulsivo, um lutador que nós precisávamos mantê-lo próximo. Especialmente por causa do volume de investimentos que tínhamos no Rio Grande do Sul.”

O delator disse aos investigadores que foi ele quem procurou o parlamentar que, na época, concorria à reeleição para a cadeira na Câmara. “Procurei o candidato, à época ele era deputado federal pelo PFL. Eu o procurei dizendo do interesse nosso de nos aproximarmos e que seria importante fazer doações para a campanha dele. E assim foi feito.”

Um procurador indagou de Alexandrino. “Foi iniciativa do sr.?”

“Foi iniciativa nossa”, respondeu o delator.

Ele contou que o encontro com o parlamentar ocorreu em um restaurante. “Marquei pessoalmente com ele. Disse do potencial dele e que dentro das nossas atividades, o trabalho nosso é perceber novas forças políticas que possam surgir e que ele era, sem dúvida nenhuma, uma força política emergente.”

Como foi a conversa?, insistiu o procurador.

“Eu disse: ‘olha, estamos percebendo aí seu desempenho, sua conduta, e gostaríamos de termos aí como um parceiro futuro nas suas atividades de deputado federal’.”

Alexandrino foi questionado sobre o valor desembolsado para a campanha de Onyx Lorenzoni. “A doação foi feita via caixa , montante de R$ 175 mil. Ele está no nosso sistema ‘Drousy’ com o codinome ‘inimigo’.”

Alexandrino reiterou que a doção foi feita via caixa 2.

A pedido do deputado?, perguntou o procurador. “Não, não, das empresas. Como nessa época nós ainda minimizávamos a doação legal, então a maioria das nossas doações era via caixa 2. A empresa doava abaixo do teto legal prá não chamar a atenção futura da imprensa, a nível do TRE ou TSE.”

“O sr. Onyx Lorenzoni sabia que ia receber caixa 2?”

“Sim.”

“Ele anuiu com isso?”

“Anuiu, não houve nenhuma rejeição, nenhum senão.”

“Como foi efetivada a entrega desses recursos?”

“Não sei, sei que foi feita no Rio Grande do Sul, mas não sei como foi feita.”

“Nesse trabalho o sr. teve que se reportar a alguém para fazer essa doação? Comunicou superiores que queria fazer doação a Onyx Lorenzoni?”

“Eu tinha alçada na região e, digamos, um orçamento para o Rio Grande do Sul e onde eu percebia quais eram as forças.”

“O sr. prestava contas disso para alguém?”

“No final havia uma consolidação, onde todo mundo sabia quem recebeu.”

“Na planilha do sistema ‘Drousys’, de outubro de 2006, que o sr. apresentou, consta repasse para ‘Inimigo’. Alguma razão específica para essa alcunha? Sabe a origem dela?”

“Hoje intuo que foi porque nessa época, estamos falando dessas disputas no Rio Grande do Sul, são disputas políticas bem fortes entre PT e não PT e ele devia ser alguma figura, como ele era uma figura expoente, devia ter algum codinome ‘Inimigo’.”

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