Ingratidão em dose dupla

Ingratidão em dose dupla

José Renato Nalini*

18 de julho de 2022 | 08h00

José Renato Nalini. FOTO: IARA MORSELLI/ESTADÃO

Aproximando-se a data em que se celebrará o bicentenário da Independência do Brasil, convém revisitar episódios que a história oficial relega ao ostracismo e que bem evidenciam o quão injustos somos com nossos próceres. Sempre lamento a ingratidão do golpe republicano, que apeou do poder um estadista culto e magnânimo. Porém seu pai também foi alvo dessa mesquinharia dos interesseiros, raça da qual o Brasil não consegue se livrar.

O Primeiro Imperador desistiu da Coroa brasileiro, mas esse ato não foi impulsivo, como geralmente se crê. Essa ideia de abdicar estava nos projetos de Pedro I, tanto que o “Moniteur Universel”, de Paris, em 27.7.1827, perguntava aos seus leitores: “Fala-se do retorno de D.Pedro à Europa. O que ele virá fazer?”.

O próprio Imperador escreveu que pretendia voltar à Europa a fim de se casar e arranjar o casamento do Duque de Nemours com D.Maria da Glória e da Princesa D.Januaria com o Duque de Bordéus. Queria contactar os soberanos europeus para sustentar a monarquia brasileira. Só que a abdicação de 1831 foi fruto da traição dos áulicos e de seus soldados mais próximos.

É Alberto Rangel que, no livro “A educação do Príncipe”, narra que Pedro I indagou do major Luis Alves de Lima e Silva, sobrinho do comandante do Batalhão do Imperador, qual o espírito da tropa. A resposta foi a de que os soldados aquartelados no Campo de Sant’Ana estavam contaminados do espírito anárquico. Caxias ofereceu ao Imperador a alternativa de reagir com violência, mas Pedro I não queria que se derramasse uma só gota de sangue brasileiro.

Os três irmãos Lima e Silva estavam alinhados com os rebeldes e esqueceram-se de seus compromissos de seus postos no Exército e da ligação com a Família Imperial, “à qual, aulicamente e bem retribuídos, tinham sempre servido”. Pedro I tomou conhecimento de que a tropa o havia desamparado, menos alguns da Guarda de Honra. Exclamou: “Poucos, mas fiéis e leais! Não são como muitos que enchi de benefícios e estão no Campo a apregoar-se de patriotas!”.

O relato mais fiel é do representante da França, Edouard Pontois que se reunira com o almirante Baker, da esquadra britânica. Haviam resolvido proteger o Imperador e sua família, desde que solicitados pelo Governo brasileiro e o mesmo fazer com os súditos de França e Grã-Bretanha, desde que não mais existisse o Governo Imperial.

Na noite de 7 de abril, os representantes estrangeiros foram chamados a Palácio. Um juiz de paz queria obrigar o Imperador a reintegrar o ministério por ele dissolvido. Ele se propôs a organizar novo ministério. A resposta, por escrito, foi rasgada pelos insurgidos. Pedro I percebeu que sua hora havia chegado. A tropa se decidira desembaraçar-se dele e entendeu que seu filho tinha uma vantagem que ele não possuía: nascera no Brasil. era amado pelos brasileiros. Reinaria sem dificuldade, porque a Constituição garantia seus direitos. “Quanto a mim, ao renunciar ao trono, tenho a glória de terminar como comecei: constitucionalmente”.

Escreveu de próprio punho o ato pelo qual abandonava a Coroa. Entregue o documento ao Campo da Aclamação, o abdicado, chapéu na mão e dando o braço à ex-Imperatriz, deixou de vez a Quinta Imperial.

Imagine-se a cena, relatada por Alberto Rangel: “dilacerante a cena da despedida das crianças imperiais, que dormiam a sono solto”. Salienta a efetiva colaboração da trindade dos Lima e Silva em tão tenebrosos acontecimentos. Pedro II, com seis anos incompletos, escreveu ao pai com a dor de uma criança duplamente órfã: “Meu querido pai e meu Senhor. Quando me levantei e não achei a Vossa Majestade Imperial e a Mamãe para lhe beijar a mão não me podia consolar nem posso meu querido papai. Peço a Vossa Majestade Imperial nunca se esquecer deste filho que sempre haverá de guardar a obediência, respeito e amor ao melhor dos pais, tão cedo perdido para seu filho. Beija, respeitoso, as augustas mãos”.

Cinquenta e oito anos mais tarde, o golpe de 15 de novembro de 1889 repetiria a dose com o filho do primeiro destronado. Diferentes as figuras, mas os crimes semelhantes, com a felonia dos dois generais, o de 1831 e o de 1889, atores da mudança política em seu próprio benefício, urdida astuciosa e matreiramente nos quartéis. Ambos tiraram “na ocasião a máscara da disciplina que atraiçoavam”.

Floriano Peixoto fez mais: quis impedir a posse de Prudente de Morais, seu sucessor. Como a história é escrita pelos vencedores, tais páginas são omitidas dos compêndios oficiais e as crianças brasileiras passam a acreditar que a proclamação da República foi de fato benéfica para o país. A conferir!

*José Renato Nalini é reitor da Uniregistral, docente da pós-graduação da Uninove e presidente da Academia Paulista de Letras – 2021-2022

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