Informante avisou Procuradoria sobre ‘container de quadros’ na casa de ex de Sérgio Cabral

Informante avisou Procuradoria sobre ‘container de quadros’ na casa de ex de Sérgio Cabral

Alvo de busca e apreensão, Susana Neves Cabral é investigada pela força-tarefa da Lava Jato; Ministério Público Federal recebeu relatos sobre ‘diversas caixas de papelão, plásticos bolha e embalagens’ em imóvel na cidade histórica de São João Del-Rei, Minas

Julia Affonso

08 de maio de 2017 | 13h34

Susana Cabral em janeiro de 2017. Foto: Fábio Motta/Estadão

Informantes alertaram o Ministério Público Federal sobre ‘movimentação de grande quantidade de obras de arte’ em um imóvel pertencente à Susana Neves Cabral, ex-mulher do ex-governador do Rio Sérgio Cabral (PMDB), em São João Del-Rei, Minas Gerais. Endereços ligados à Susana Cabral no Rio e em Minas foram alvo de busca e apreensão da Polícia Federal em investigação da força-tarefa da Operação Lava Jato.

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O Ministério Público Federal apura se o imóvel em São João Del-Rei está sendo usado para guardar bens de valor adquiridos com recursos ilícitos do esquema atribuído ao ex-governador Sérgio Cabral, como obras de arte.

Segundo a Procuradoria da República, no Rio, os informantes ‘solicitaram sigilo de suas qualificações’ e relataram que, ‘por volta de janeiro e fevereiro de 2017, teriam sido entregues e pendurados diversos quadros no imóvel localizado na Praça Professor José Batista, nº 32, Centro, São João Del Rei/MG’.

“Um dos informantes relatou ter avistado o descarregamento de um “container de quadros” na referida casa, enquanto outro narrou ter visto um quadro grande sendo pendurado em parede do imóvel e ouvido intenso barulho de furadeiras ao longo de vários dias, a indicar a instalação de diversos quadros”, narrou a força-tarefa da Lava Jato ao juiz federal Marcelo Bretas, da 7ª Vara Federal, do Rio, que autorizou as buscas.

“Além disso, um dos informantes observou que, nos dias que se seguiram, foram paulatinamente descartados no lixo diversas caixas de papelão, plásticos bolha e embalagens, situação que perdurou até o momento da diligência (abril/2017).”

Susana Neves Cabral já havia sido alvo da Lava Jato em janeiro deste ano. A Procuradoria afirmou que o endereço de Minas, no entanto, não foi alvo de mandado de busca e apreensão na ocasião, ‘uma vez que o imóvel somente se tornou conhecido a partir da análise dos dados de afastamento de sigilo fiscal da empresa Arara Empreendimentos, em nome da qual foi adquirido’.

A Araras Empreendimentos é controlada por Susana. O imóvel, segundo a força-tarefa, foi comprado por R$ 600 mil ‘sem que, aparentemente, tivesse recursos de origem lícita compatível’.

A Receita detectou que a Araras teve movimentação financeira incompatível com a receita bruta declarada e distribuiu lucros e dividendos incompatíveis com as receitas auferidas, nos exercícios de 2007 a 2009 e de 2011 a 2015. O levantamento demonstra que a sede da empresa é a própria residência de Suzana, no bairro da Lagoa, no Rio de Janeiro, e que não há nenhum empregado registrado.

As investigações também apontam que a ex de Cabral utilizou sua empresa para ocultar a origem ilícita de R$ 1.266.975,00.

Entre 25 de outubro de 2011 e 13 de dezembro de 2013 foram identificadas 31 transferências bancárias de recursos oriundos do grupo de empresas da empreiteira FW Engenharia, por intermédio da empresa Survey Mar e Serviços Ltda, que realizou pagamentos à Araras Empreendimentos a título de serviços de consultoria em valor quase duas vezes maior que a sua renda bruta declarada. Quase 50% dos valores recebidos pela Survey da FW no período analisado pela investigação foram repassados logo em seguida para a empresa de Suzana Neves.

“Toda a movimentação aponta para lavagem de dinheiro pago como propina à organização criminosa em contratos que o Governo do Estado do Rio de Janeiro firmou com a FW Engenharia”, diz a Procuradoria. “Em diligências de busca e apreensão autorizadas durante a Operação Calicute, foram apreendidas diversas anotações que indicam o pagamento de propina pela empreiteira FW Engenharia em benefício da organização criminosa chefiada por Sérgio Cabral. Um dos contratos firmados com a empresa, no valor de R$ 35 milhões, teve por objeto a elaboração de projeto executivo e a execução de obras complementares de urbanização no Complexo de Manguinhos, comunidade beneficiada pelo PAC Favelas. A contratação foi financiada com recursos da União provenientes do Programa de Aceleração do Crescimento.”

As oito denúncias já apresentadas pela força-tarefa da Lava Jato, no Rio, apontam ‘como Sérgio Cabral instituiu, ao assumir o Governo do Rio de Janeiro, em 2007, um esquema de cartelização de empresas e favorecimento em licitações, mediante pagamento de propina de cerca de 5% em todas as grandes obras públicas de construção civil contratadas junto ao ente público, quase sempre custeadas ou financiadas com recursos federais’.

As investigações demonstram que a organização desviou mais de US$ 100 milhões dos cofres públicos mediante engenhoso processo de envio de recursos oriundos de propina para o exterior.

COM A PALAVRA, O ADVOGADO SÉRGIO RIERA, QUE DEFENDE SUSANA CABRAL

NOTA DE ESCLARECIMENTO

Susana Neves Cabral esclarece que nunca ocultou obras de arte ou outro bem de quem quer que seja. Como afirmado em seu depoimento à Polícia Federal e ao Ministério Público Federal em 26 de janeiro último, sempre esteve, e está à disposição das autoridades para prestar quaisquer informações, não sendo necessária a adoção de medida extrema.

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