Infância mascarada

Infância mascarada

Mariana Marcolin Peringer, Mariana Pedrini Uebel e Rochele Paz Fonseca*

07 de dezembro de 2021 | 11h25

Mariana Marcolin Peringer, Mariana Pedrini Uebel e Rochele Paz Fonseca. FOTOS: DIVULGAÇÃO

“As crianças não são as mais afetadas pelo vírus. No entanto, estão sofrendo danos irreparáveis para o seu desenvolvimento. O uso de máscaras na infância não afeta apenas a aquisição da linguagem, mas também o desenvolvimento das habilidades cognitivas e socioemocionais. Com o uso de máscaras, as crianças têm muita dificuldade na comunicação verbal e não verbal, ou seja, não só dificuldade de falar e entender, mas também em detectar emoções, compreender sentimentos: esses são os principais fatores para que a criança desenvolva empatia, segurança, autoconfiança, e o vínculo entre pessoas. Além disso, muitas crianças estão desenvolvendo medos e traumas – medo de abraçar, de beijar, de ter contatos com pessoas e esses danos serão irreparáveis. Portanto, é necessário avaliar o risco ao que estamos expostos.”

Atualmente, os órgãos que fiscalizam as escolas no Brasil seguem recomendando o uso de máscaras, inclusive em ambientes externos, enquanto a própria OMS salienta que crianças de até 6 anos não devem ser obrigadas a utilizar máscaras, e aquelas abaixo de 12 anos, o uso seja analisado por diferentes fatores. Portanto, é importante questionar a razão pela qual o uso generalizado persiste em muitas escolas.

Tema extremamente importante e complexo, que requer uma análise multidisciplinar para ponderar os riscos – a Dra. Mariana Uebel, médica psiquiatra, especialista em infância e adolescência, e a Dra. Rochele Fonseca, psicóloga e fonoaudióloga, especialista em neuropsicologia, linguagem e motricidade orofacial, têm chamado a atenção de milhares de mães que sofrem a dor de ver seus filhos mascarados. Em uma carta endereçada a governantes e gestores de escolas, elas demonstram, com dados científicos, os graves riscos a que a sociedade está exposta e que o uso de máscaras nas crianças, principalmente ao ar livre, é equivocado.

A primeira infância é um período crucial em que as crianças desenvolvem habilidades cognitivas e socioemocionais relacionadas à comunicação, incluindo a capacidade de detectar emoções no rosto das pessoas. Não há fase mais sensível de desenvolvimento da linguagem oral, comunicação, repertório, habilidades sociais e funções executivas – organização, planejamento, flexibilidade mental e de parte da inteligência – como a primeira infância. As funções executivas, habilidades socioemocionais e linguagem desenvolvem-se muito até o final da segunda infância, ou seja, até os 12 anos de idade.

Todos querem que seus filhos sejam saudáveis e tenham acesso à educação. As interações sociais com pais e cuidadores são essenciais para promover o pleno desenvolvimento e o bem-estar das crianças. Inclusive, a saúde mental tem alicerce no desenvolvimento de resiliência cognitiva e socioemocional, ou seja, no desenvolvimento de habilidades de atenção, memória, funções executivas, linguagem, leitura, escrita e de recursos de interação sociocomunicativa. A alfabetização e a consolidação da leitura e da escrita dependem da base da fala, ou seja, do modelo de fonoarticulação, audição e uso da linguagem oral.

Portanto, as máscaras potencializaram as dificuldades de desenvolvimento das crianças após longo período de escolas fechadas. Como especialistas que ensinam a linguagem infantil e o desenvolvimento da alfabetização explicam isso? As crianças aprendem por meio da observação, olhando para o movimento da boca, dos lábios, da língua e dos órgãos fonoarticulatórios. Quando estão ao ar livre, as crianças com máscaras podem ter limitações em suas atividades, baixa tolerância ao exercício e à socialização. Afinal, quais são os supostos benefícios que superam esses prejuízos?

O desenvolvimento de habilidades para identificar rostos, nuances e emoções, com base na neurologia de discriminação facial, ocorre em uma área específica do cérebro na infância, assim, qual o impacto de as crianças usarem máscaras por mais um ano? Quanto estamos prejudicando uma geração rodeando crianças com rostos mascarados enquanto limitamos a interação social?

Há inúmeras evidências de baixa transmissibilidade de SARS-COV-2 e suas derivadas nas crianças. Enquanto isso, há alteração de 20% a 60% no desenvolvimento e saúde mental segundo a literatura internacional, tendo sido alvo de alerta pela Associação Americana de Pediatria. Nunca foram impostas máscaras em crianças por tanto tempo, e não há estudos para confirmar seus desfechos. Adicionalmente, os poucos estudos que existem não evidenciaram as máscaras nas crianças como protetoras de transmissão entre adultos, ou seja, para a equipe escolar. O uso de máscaras fez parte de um protocolo global que já não encontra mais respaldo científico e prático no contexto escolar. Muitos adultos afirmam que as crianças estão acostumadas a usar máscara, mas isso não justifica o seu uso. O uso de máscaras só pode ser justificado quando os benefícios auferidos forem significativamente superiores aos malefícios. O bem-estar individual das crianças deve sempre ter precedência sobre os interesses coletivos na sociedade.

O uso poderia ser justificado no início da pandemia, quando se acreditava que as crianças poderiam ser vetores – o que não se comprovou estatisticamente – ou mesmo quando estávamos com altas taxas de infecção e ocupação hospitalar, na época de medidas preventivas rigorosas. Hoje, o questionamento levantado é – o que a privação do contato visual de dois terços do rosto das pessoas pode gerar no pleno desenvolvimento educacional e socioemocional das crianças? A análise não pode ficar limitada aos efeitos de curto prazo, mas também considerar os efeitos de médio e longo prazos, principalmente das crianças mais vulneráveis. Crianças com necessidades especiais, por exemplo Transtorno do Espectro do Autismo – TEA, transtornos do comportamento, Transtorno do Déficit de Atenção e da Hiperatividade – TDAH, Dislexia – transtorno específico da aprendizagem com prejuízo da leitura – ou algum tipo de deficiência, incluindo auditiva e visual, têm o aprendizado e socialização ainda mais prejudicados com o uso de máscara.

A ciência deve observar não só os efeitos imediatos ou de curto prazo de uma decisão governamental – aqueles que se veem, como diria Bastiat – mas também e principalmente deve fazer uma análise acurada e de longo prazo sobre as consequências dessas decisões, os efeitos que não vemos imediatamente. É imprescindível avaliar os impactos do uso obrigatório de máscaras em crianças em termos de aumento da desigualdade social, por exemplo. O uso obrigatório reforça o pânico que afasta muitas famílias da escola, principalmente aquelas com acesso limitado à informação ou à rede de apoio. Com isso, geralmente, mulheres ou meninas, por exemplo irmãs mais velhas, precisam abandonar o emprego formal ou os estudos para cuidar das crianças mais novas que estão em casa.

Concluindo, a carta questiona se tendo flexibilização de regras de contingência para vários setores da economia, por que seguir impondo o uso de máscaras nas escolas? Festas de final de ano e de Carnaval estão sendo planejadas com menos restrições do que as crianças enfrentam em sala de aula. Será que essas crianças estão desenvolvendo todo o potencial das suas capacidades físicas, cognitivas, sociais e emocionais? O uso de máscaras, nesse momento, não traz mais prejuízos que benefícios para as crianças? A própria saúde mental das crianças, com traumas e medo de se relacionar, dificuldades de expressão e de leitura de expressões emocionais, prejudicam habilidades fundamentais para a interação social e seu futuro acadêmico, social e profissional.

Toda política pública deve ser baseada em dados e evidências, principalmente quando estão em jogo decisões de impacto para o desenvolvimento das próximas gerações. Neste momento em que os indicadores de vacinação, contaminação e principalmente de ocupação dos leitos são favoráveis e permitem uma abordagem menos restritiva, as especialistas defendem que o uso de máscaras por crianças deve ser uma decisão de cada família.

*Mariana Marcolin Peringer é associada do IFL-SP, economista, empresária e psicanalista, entusiasta das idéias liberais, tem consultório de psicanálise clínica e é vice-presidente do Conselho da Fundação Fenômenos, uma instituição sem fins lucrativos voltada ao desenvolvimento social

*Mariana Pedrini Uebel é médica psiquiatra, especialista em psiquiatria da infância e adolescência pela ABP, possui mestrado e doutorado pela UFRGS, tem bolsa de Doutorado Sanduíche pela Columbia University em NY e pós-doutorado em psiquiatria pela Unifesp

*Rochele Paz Fonseca é psicóloga e fonoaudióloga, especialista em neuropsicologia, linguagem e motricidade orofacial, possui mestrado e doutorado em psicologia do desenvolvimento pela UFRGS e Université de Montreal (Canadá). Professora universitária e pesquisadora há mais de 14 anos, presidente da Sociedade Brasileira de Neuropsicologia (SBNp) e autora de mais de 500 estudos na área de neuropsicologia, fonoaudiologia com interface com a educação e desenvolvimento

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