Indulto do povo brasileiro

Indulto do povo brasileiro

Angel Machado*

17 de setembro de 2020 | 09h40

Angel Machado. FOTO: ARQUIVO PESSOAL

No ano em que as expectativas do mercado gera frustrações, o circo eleitoral começa a ser montado. A tradição política no Brasil monetiza os incultos e a cadeia de corrupção com nomes e partidos, encorajando os alienados que se intitulam de direita/esquerda ou centrão – um mimetismo atemporal. Não haverá outra História para contar, senão a do abismo em que os brasileiros se absorveram — alguns conscientes e outros levados pelo discurso enviesado do político sedutor e sem escrúpulos.

A notoriedade política brasileira do Oiapoque ao Chuí é desvelada pelos que usam gravatas e esbravejam com superioridade vil a ganância pelo poder. A generalidade é perigosa, mas, nesse caso se abre uma exceção. Porque o enriquecimento ilícito, as falcatruas remediadas pelo Supremo Tribunal, o ego insuflado dos que querem o poder a qualquer custo será a prerrogativa da indignação coletiva, mas não resolverá o problema endêmico do país.

A vida seca do trabalhador é sempre colocada à prova em ano eleitoral, não obstante, é nela que os falastrões liberam as suas promessas e, ano após ano, o perfil continua o mesmo: do eleitor e dos eleitos. Ser brasileiro e ser digno é um exercício de caráter.

No Brasil se aprende cedo a lutar pelos direitos, e que para se ser livre e independente é preciso muito mais do que acreditar na Justiça do homem e na divina e, ainda, na Constituição. Assim, o povo vai resistindo e enfrentando as intempéries até à exaustão, com as míseras alegrias que a esperança pode dar-lhe.

A questão básica dos Direitos estabelecidos na Constituição (1988) são leis que dispensam argumentação, mas, não estão a outorgar aos indígenas, aos pobres, aos negros e aos homossexuais — minorias e maiorias —, que vivem à margem de um governo obtuso, a salutar esperança de viverem num país justo e sem o medo da exclusão definitiva no sistema.

A legitimidade, a consciência e a responsabilidade do cidadão sempre estiveram em causa, e diante de um ano incerto, há coisas que se mantêm: a precariedade das instituições, a falência do Estado laico, o desmonte da cultura e o falso representante messiânico.

Sem terra a vista, o capitão ordena aos marinheiros que não abandonem o navio antes de naufragá-lo, e nadar não seria a salvação, mas, há os que se iludem ao pensar que ser especialista garantiria o sucesso no mar revolto. O último a ter razão sobre alguma coisa será um sobrevivente – como dizia Millôr Fernandes, “por mais violento que seja o argumento contrário, por mais bem formulado, eu tenho sempre uma resposta que fecha a boca de qualquer um: “você têm toda a razão”.

*Angel Machado, jornalista e escritora

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