Indícios de renascimento

Indícios de renascimento

José Renato Nalini*

11 de maio de 2022 | 17h00

José Renato Nalini. FOTO: IARA MORSELLI/ESTADÃO

Os sintomas de decadência dos costumes, notadamente os políticos, não devem desanimar os homens de boa vontade. Aqueles que receberam o aviso de que uma nova era havia chegado e que os prenúncios seriam de paz na Terra. Pois há pessoas e grupos resistindo à insensibilidade de quem patrocina a destruição da natureza.

É confortador verificar que algumas empresas – sempre elas, as campeãs da sobrevivência no mundo hostil criado pelo Estado – adotam condutas salvíficas, ou seja, não só pensam na catástrofe ambiental, mas agem para debelá-la.

Acho que todos viram estes dias a publicação de uma delas, cuja marca obteve certificação Empresa B, que distingue companhias que, além da excelência do produto, adotam práticas sustentáveis em toda a cadeia produtiva. São apenas 4.384 empresas no mundo, 233 delas no Brasil. É uma empresa que está atenta ao futuro do planeta.

Os três pilares sobre os quais sua política se apoia são importantes: Primeiro: carbono zero e proteção de nascentes. Ela já consegue neutralizar a pegada de carbono de sua operação, tanto nas fábricas, nas lojas e escritórios. Para isso, investiu em soluções para todas as etapas da cadeia produtiva. Cuida do solo na plantação, troca o combustível usado pelos veículos da empresa. Tem o programa Arboriza, em parceria com a SOS Mata Atlântica, em projeto de revitalização da bacia do rio Pardo, no interior paulista. Já plantou 70 mil árvores de mais de 60 espécies nativas, em 30 hectares e o objetivo é restaurar 277 hectares com 700 mil árvores, o que protegerá 154 nascentes.

O segundo é o respeito ao solo e aos trabalhadores, que ajuda a promover a sustentabilidade socioeconômica dos pequenos produtores. Estes são informados e capacitados sobre práticas de cultivo sustentável, preservação de flora e fauna nativas, cuidado com as nascentes. O terceiro é o aproveitamento de tudo aquilo que ela produz. A reciclagem fecha o ciclo, numa verdadeira economia circular. Um programa “Hortas” oferece adubo e consultoria técnica para pequenos agricultores cultivarem alimentos orgânicos de forma regenerativa.

É um exemplo a ser seguido por todos, não apenas por empresas. Afinal, somos o maior produtor de resíduos sólidos da Terra. E desperdiçamos um conteúdo muito valioso, que chamamos “lixo”, quando ele poderia gerar economia, riqueza e melhorar o ambiente poluído em que vivemos, por irresponsabilidade de todos. Governo e sociedade.

O segundo exemplo vem da indústria têxtil. A busca de moda circular e sustentável contribui para a preservação do ambiente e para ensinar a todos um comportamento mais ecológico. Uma grande empresa se empenhou no movimento de sustentabilidade que engloba todas as suas iniciativas no pilar de responsabilidade socioeconômica da cadeia de fornecimento.

É uma questão cultural, de educação do consumidor, que é conscientizado para a reciclagem e incentivado a entregar roupas que já não são usadas para que elas sejam reutilizadas. Com esse procedimento, 86% dessas vestes são reutilizadas, 12% recicladas e apenas 2% descartadas.

A produção de jeans já dispõe de energia limpa e menos consumo de água. Investe-se na utilização de fibras mais sustentáveis, em parceria com uma organização global que licencia produtores de algodão a partir de princípios e critérios de produção sustentáveis.

Uma parceria com o IPT – Instituto de Pesquisas Tecnológicas de São Paulo transforma restos da indústria têxtil e de roupas usadas doadas em um novo fio, a ser usado na confecção de novas peças. Isso reduz ou até pode eliminar os descartes e desperdícios.

Uma iniciativa interessante é a “Loja do amanhã”, construção de pontos de venda que utilizam soluções sustentáveis, com menor impacto no meio ambiente, redução de 60% no consumo de energia, embora toda ela provenha de fonte renovável e 40% de água. O resíduo das construções é totalmente reciclado ou reutilizado.

Para se ter uma ideia, 170 mil toneladas de resíduos têxteis são geradas por ano, só em sobras de cortes para a confecção de roupas. Disso, 60% vão para o lixo comum e 40% vão para as empresas recicladoras. É preciso melhorar tal percentagem.

A mensagem que essa empresa dirige à sociedade brasileira é a democratização da sustentabilidade. Afinal, proteger o Planeta, o único habitat com que podemos contar, é responsabilidade de todos.

Há outros modelos de consciência ecológica em plena efervescência. É importante sejam disseminados, para inspirar a juventude, ávida por criar novos esquemas, encontrar soluções para problemas aparentemente insolúveis e sentir-se partícipe de uma cruzada que é de todos. Ainda é possível salvar a Terra. São indícios de um verdadeiro renascimento ecológico. Que ele contamine todos os viventes.

*José Renato Nalini é reitor da Uniregistral, docente da pós-graduação da Uninove e presidente da Academia Paulista de Letras – 2021-2022

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