Independência sem morte

Independência sem morte

Roberto Livianu*

07 Setembro 2018 | 13h52

Roberto Livianu. FOTO: ARQUIVO PESSOAL

Na véspera da comemoração da Independência do Brasil, a um mês das eleições mais importantes de nossa ainda imatura trajetória republicana, um golpe de faca certeiro e quase mortal em plena rua, em Juiz de Fora – Minas Gerais, é o mais novo capítulo da nossa triste história em busca da afirmação democrática.

O alvo foi o candidato direitista, que lidera as pesquisas de intenção de voto, e o indivíduo preso em flagrante apontado como sendo o agressor foi filiado durante sete anos a um partido do polo antagônico, da esquerda. Tais ingredientes foram o suficiente para que, de imediato, os seguidores do candidato vítima criem a versão de que a esquerda teria alimentado o ódio contra ele, tentando minar a esquerda como um todo.

Por outro lado, os adversários do candidato alvejado tentam atribuir a ele parcela de culpa no próprio atentado, por vir adotando discurso armamentista, tido como de intolerância, que teria criado ambiente social mais violento, o que teria se voltado contra si mesmo, colocando ele próprio em situação de risco (inclusive andando no meio da multidão sem a proteção do colete recomendado por seus seguranças).

Já se assistem a cenas de políticos fazendo orações no hospital e apoiadores do candidato atingido em vigílias com velas pelas ruas e as cenas provavelmente se repetirão pois ele permanecerá na UTI, ao que tudo indica, por uma semana, e depois disto ficará hospitalizado e somente deverá retornar à vida normal em vinte dias, ou seja, a uma semana das eleições, o que, obviamente impacta no discurso das campanhas. Os adversários obviamente repensarão a decisão anteriormente tomada de tentar desconstruí-lo.

Teremos em 7 de outubro eleições importantes e não deve pairar nenhuma dúvida acerca do quanto foi abominável o ataque sofrido pelo candidato, que atingiu o próprio sistema democrático e o povo brasileiro, já que os candidatos admitidos pelo TSE têm igual direito de disputar os votos, sendo a facada um gesto de tresloucada violência, ao que tudo indica, decorrente da vontade de um indivíduo, e não, por ordem de um partido ou organização. O crime precisa ser investigado com rapidez e exemplarmente punido para que seja preservada nossa democracia e por respeito ao povo brasileiro.

Por outro lado, também é inadmissível que a campanha e a eleição seja transformada num jogo, utilizando-se o quadro de saúde do candidato como instrumento de ataque ou de mitificação, na tentativa de se manipular o eleitor para que sinta ódio ou misericórdia do candidato, em decorrência dos acontecimentos.

É necessário que se tenha extrema maturidade e discernimento para separar os fatos e tomar a decisão eleitoral que parecer ser a mais adequada em prol do bem comum, dos valores democráticos, da concretização das políticas públicas, do projeto de país que cada candidato ou candidata apresenta assim como a própria análise de cada uma das trajetórias de vida dos treze candidatos.

Hoje se celebra a independência do Brasil – são 196 anos. Uma forma civilizada de fazê-lo é todos nós desejarmos a pronta recuperação do candidato ferido, para que possamos cumprir em paz nossa travessia eleitoral, com o posterior julgamento soberano pelos cidadãos através do voto, pelo bem do Brasil, pela nossa efetiva independência sem morte e pelo fortalecimento de nossos valores republicanos e democráticos.

*Roberto Livianu, promotor de Justiça perante a Procuradoria de Justiça de Direitos Difusos e Coletivos, doutor em Direito pela USP, idealizador e presidente do Instituto Não Aceito Corrupção e ex-presidente do Movimento do Ministério Público Democrático

Mais conteúdo sobre:

Artigo