Incunábulo do mito

Incunábulo do mito

José Renato Nalini*

04 de agosto de 2021 | 12h00

José Renato Nalini. FOTO: DANIEL TEIXEIRA/ESTADÃO

O escritor Caetano Lagrasta escreveu “Príncipe Nerso – Incunábulo do mito do nascimento do herói”, que acabo de ler. Ele cuida de esclarecer o que significa “incunábulo”: livro anterior ao descobrimento da imprensa, anterior ao século XVI. Representa um estágio anterior, infantil, da arte tipográfica. Do latim, se vincula também a um conceito infantil, próprio a quem está ainda no berço. Figuradamente: a quem não tem noção da complexidade do mundo.

Complexidade que Caetano explora com o seu talento irônico. Pincei os trechos que mais me tocaram. Ele divide a obra em 5 documentos. Logo na apresentação, afirma que sua pretensão é de, “humildemente, lançar algumas luzes sobre o mito do nascimento deste herói, deste Diógenes Paulistano. E deixemos claro, desde logo, que nem uma única vez o vimos esmor0ecer ou, que seus olhos perdessem aquele brilho particular, característico dos grandes Profetas ou Esquizofrênicos”.

O Príncipe, que se tornou mito, é de ascendência peninsular, “o que nos faz compreender que o bravo gentio carcamano igualmente serviu (e serve) de fermento a estas plagas, decantadas por sua fauna, flora e abundante matéria-prima, todas destruídas e tão bem desperdiçadas e espoliadas, desde o tempo da Colônia, de início com o ouro e, após, nos quadriláteros florestais, auríferos, ferríficos e estanhíferos de nossa sempiterna Hileia Amazonensis, aos dias de hoje”.

O livro é “dedicado ao homem “heterodirigido” que, na definição de Umberto Eco, é “um homem que vive numa comunidade de alto nível tecnológico e particular estrutura social e econômica (nesse caso, baseada numa economia de consumo), e a quem, constantemente, se sugere (através da publicidade, das transmissões de TV, das campanhas de persuasão que agem em todos os aspectos da vida cotidiana) o que deve desejar e como obtê-lo, segundo certos canais pré-fabricados que a isentam de projetar perigosa e responsavelmente”.

O primeiro documento faz referência à Santa Inquisição e tem início com citação de José de Almada Negreiros: “A Eternidade existe sim, mas não tão devagar. E teve o Homem a ilusão de que criando com a Inteligência a insensibilidade cotidiana, talvez se morfinizasse no hábito da indiferença”. Termina com Mario Cesariny de Vasconcelos: “ora, deixai-me dizer que vejo tudo ao contrário do que era lícito ver”.

A vivência de Lagrasta no território do Judiciário por muitas décadas – foi um dos mais eruditos Desembargadores do Tribunal de Justiça de São Paulo – o leva a enxergar com amargura a situação tupiniquim de nossos dias. Em lugar de artigos ensaísticos, hoje tão abundantes, ele prefere ousar e imaginar uma ficção sarcástica, a recordar o “ridendo castigat mores”.

Assim, na página “Branco-Sujo”, insere notícia da BBC News de 29 de maio de 2021: “Uma vala comum com os restos mortais de 215 crianças foi encontrada no Canadá em uma antiga escola residencial criada (pelo colonialismo) para estudantes indígenas”. Impossível não vincular à persistência do genocídio dos verdadeiros donos da terra, que eram os indígenas deste continente que veio a se chamar Brasil. Ainda hoje, dizimadas milhões de criaturas que aqui viviam e conservaram a exuberância de nossa biodiversidade, permite-se que a exploração de ouro e de outros minérios torne ficção a demarcação de terras assegurada no texto constitucional.

O livro prossegue com uma fotonovela e na “confissão autobiográfica”, Lagrasta observa que “a propaganda ajuda, nossa família ajuda, nossa infância ajuda, nossa juventude, nossa maneira de ser, nosso próprio amor ajudam a gente a se tornar calculista, frio, canalha, às vezes, santo, mas sempre pretendendo a glória, por mais inglório que seja o fim. Existe um constante apodrecer e feder de carniça, ao qual mostramos indiferença, porque ainda vamos realizar muita coisa antes de sermos feios e velhos”. Quanta verdade, extraída dos ambientes descritos em teoria como nichos de excelência e repositório de virtudes.

Há páginas preciosas com reminiscências infantis, seguidas de “Sarabanda”, no Documento 3. Crítica à intelectualidade, que chama de “caterva literária”. Ironiza: “Oh! Como é bela a Democracia! Dela qualquer energúmeno pode ter o sábio ao seu alcance (seja na sala para saboreá-lo seja na latrina para função menos nobre); lembrem-se; o que a cultura faz, ninguém faz, ainda que virtualmente”.

Fala da propaganda subliminar, “do mascaramento sutil (capaz de iludir a sisudos censores)” que leva todos a assumirem “posições responsáveis e conscientes, diante daquilo que nos oprime”. Critica o escritor que escapa à realidade e frauda seus leitores, “através de estados oníricos, de fundo eminentemente neurótico, posto que, também mascarados em “sense of humour”. Invoca Stanislaw Ponte Preta, que voltaria a abordar o festival de cretinices que assola o Brasil.

Enfim, não quero estragar o prazer de quem se deleitará com a leitura de mais um livro de Caetano Lagrasta Neto, um sutil cronista do Brasil surreal deste fatídico 2021.

*José Renato Nalini é reitor da Uniregistral, docente da pós-graduação da Uninove e presidente da Academia Paulista de Letras – 2021-2022

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