Incubadora de vírus

Incubadora de vírus

José Renato Nalini*

05 de março de 2021 | 13h30

José Renato Nalini. FOTO: ALEX SILVA/ESTADÃO

O noticiário é lastimável e desanimador. Parece que nos tornamos a terra incubadora de vírus. Múltiplas cepas surgem e logo se disseminam. Parece que elas são muito mais fortes do que a primeira e, para piorar, o nível de contaminação é mais rápido. Pior ainda: crianças e jovens, sem comorbidades, também são vítimas.

O resultado é que o tratamento em crianças e jovens requer prolongada permanência nas Unidades de Terapia Intensiva e a ocupação desses leitos impede a rotatividade da primeira fase da Covid-19.

A rapidez na transmissibilidade impõe uma prudência que a maior parte dos brasileiros não tem demonstrado. Compreende-se que o confinamento seja um castigo. Entende-se a ira dos comerciantes, impedidos de faturar. Mas ainda não há outra resposta para um vírus que se transmuta e mata. Quem consegue dormir tranquilo, sabendo que 1.840 irmãos morreram de ontem para hoje? Precisa ser um celerado, um inimputável, um ser insensível. O pior é que eles existem. Não só entre os iletrados, mas entre os letrados que não assimilaram o conteúdo do que leram. Os que pensam que a economia é mais valiosa do que a vida. Sem vida, nada vale a pena.

Quase trezentas mil famílias enterraram seus entes queridos. Sem poder exercer o longevo culto aos mortos. Velórios de uma hora, sem a presença dos amigos, dos conhecidos, dos admiradores. Todos medrosos, porque o vírus está aí e não respeita ninguém.

Países que tiveram a coragem de uma verdadeira paralisação, mostraram o efeito benéfico dessa restrição. Portugal, que esteve muito próximo ao caos, hoje está em fase favorável.

O ritmo da vacinação é bastante lento, lamentavelmente. As razões, todos conhecem. Os Estados Unidos de Biden vacinam dois milhões de americanos por dia! Ou seja: em três dias, conseguem ultrapassar o número total de brasileiros vacinados.

Falando em ultrapassar, já superamos os Estados Unidos em número de mortos por milhão. Mais um ranking vergonhoso. Enquanto isso, é importante pensar em mais um retrocesso para a lei eleitoral? Alimentar a profusão de partidos que só servem para usufruir dos Fundos Eleitoral e Partidário?

O Brasil, que se orgulhava de ser uma das dez economias mais consistentes do planeta, agora já está em décimo segundo lugar. Os americanos mais influentes fazem candente alerta ao Presidente Biden, para que seja duro e imponha restrições a quem extermina a floresta e parece querer exterminar não apenas índios e miseráveis, mas todos os seres vivos desta Terra que já se chamou de “Vera Cruz”.

Estranhável que tudo fique no lamento, na prostração, numa irresignação que não produz qualquer efeito prático. Não há quem consiga liderar a lucidez restante, que possa exigir reação capaz de mudar o cenário de fracasso em tantas áreas.

Tudo continua como sempre foi, a lembrar a fábula do “tudo bem, sem novidade”, quando se esvaíra o mundo de quem estava ausente e voltou de viagem. Parece que todos estamos a viajar pela fantasia. Abeberando-nos em mensagens edificantes, recorrendo a dizeres benevolentes, invocando esperança e crença em dias melhores.

Estes não virão, se a nação continuar imersa em inércia. Estupefação dos sensíveis, mas zona de conforto para quem tira vantagem de situações ambíguas e propala inverdades com tanto entusiasmo, que até chegam a acreditar nas mentiras produzidas aos borbotões.

Ouvi hoje Gal Costa a cantar o “É preciso estar atento e forte! Não temos tempo para temer a morte!”.

Não estamos atentos, estamos cada vez mais fracos como brasileiros, desalentados com tanto desatino, e, infelizmente, com tempo mais do que suficiente para temer a morte. A morte que não perdoa, que está levando crianças e jovens e que poderia ter sido evitada, houvera o mínimo de responsabilidade ou o clamor de “basta”!

Triste sina a de ser considerado pelos cientistas um celeiro de mutações virais, uma incubadora de vírus, a multiplicar-se de maneira irracional e louca, no território do desvario.

*José Renato Nalini é reitor da Uniregistral, docente da pós-graduação da Uninove e presidente da Academia Paulista de Letras – 2021-2022

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