Incapaz de se defender, Temer segue Lula e tenta criar cortina de fumaça, diz procurador da Lava Jato

Incapaz de se defender, Temer segue Lula e tenta criar cortina de fumaça, diz procurador da Lava Jato

Carlos Fernando dos Santos Lima e Deltan Dallagnol saem em defesa de Janot, em rede social: 'Temer foi leviano, inconsequente e calunioso ao insinuar recebimento de valores por parte do PGR'

Ricardo Brandt, Fausto Macedo e Julia Affonso

28 de junho de 2017 | 11h58

Carlos Fernando do Santos Lima. Foto: Rodolfo Buhrer/Estadão

Dois dos procuradores da força-tarefa da Operação Lava Jato, em Curitiba, saíram em defesa do procurador-geral da República, Rodrigo Janot, que foi atacado nesta terça-feira, 27, pelo presidente Michel Temer, após denúncia criminal apresentada ao Supremo Tribunal Federal (STF) – em decorrência da delação premiada da J&F.

“Temer foi leviano, inconsequente e calunioso ao insinuar recebimento de valores por parte do PGR”, afirmou Carlos Fernando dos Santos Lima, procurador regional da República, em sua página no Facebook. Mais experiente dos 13 membros da equipe que iniciou a Lava Jato, em 2014, ele afirmou que Temer “não tem qualificação para continuar no cargo”.

“Já vi muitas vezes a tática de ‘acusar o acusador’. Lula faz isso direto conosco. Entretanto, nunca vi falta de coragem tamanha, usando de subterfúgios para dizer que não queria dizer o que quis dizer efetivamente. Isso é covardia e só mostra que não tem qualificação para continuar no cargo.”

O procurador escreveu que é possível que Temer e seus aliados “consigam apoio da sociedade para voltar para a Presidência”. “É só lembrar que o governo incompetente de José Sarney levou ao desastre do governo Collor.”

Carlos Fernando resssaltou que “a força-tarefa Lava Jato em Curitiba trabalha em conjunto com o grupo de trabalho da PGR”. “Há confiança no trabalho recíproco e na honestidade pessoal de todos, especialmente na integridade e espírito público de Rodrigo Janot.”

Ataques. Os procuradores da Lava Jato avaliaram que a tática de ataques a Janot, adotada por Temer, repete a estratégia de defesa do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva, que está prestes a ser sentenciado pelo juiz federal Sérgio Moro, dos processos em primeira instância, em Curitiba.

Para Carlos Fernando, “o ataque de Temer foi da mesma desqualificação dos ataques que temos recebido de Lula”.

“Incapaz de se defenderem dos fatos, tentam criar uma cortina de fumaça sobre eles. Pretendem acusar os acusadores, na esperança vã de enganar a população.”

Silêncio. O procurador da República Deltan Dallagnol, coordenador da força-tarefa, também saiu em defesa de Janot e questionou o silêncio de Temer em relação às acusações contra seu braço direito, o ex-assessir da Presidência Rodrigo Rocha Loures, o homem da mala.

“Por que o presidente Temer não falou uma palavra sobre Rocha Loures ou sobre as imagens incontestáveis de seu assessor recebendo dinheiro? Se Rocha Loures o traiu, o que o presidente fez para buscar a sua responsabilização pessoal, ou perante o partido, ou mesmo perante a comissão de ética enquanto ainda era Deputado?”, questionou Dallagnol, em publicação em sua página no facebook.

“Por que o presidente não fala sobre a relação que ele próprio mantinha com a JBS, por exemplo, sobre os apontados pagamentos prévios ou sobre a viagem sua e da família em avião da empresa?”

O procurador fez uma avalaição das declarações de Temer, feitas em cadeia nacional de rádio e TV, nesta terça-feira, 27. Em cinco pontos questionados pelo presidente, Dallagnol rebate um a um.

“O governo balança e não tem condições de concentrar suas atenções num projeto para o País. O foco é salvar a própria pele. Se queremos ter condições para o desenvolvimento da economia, o que precisamos é de um presidente revestido de condições morais para governar”, afirma Dallagnol.

Carlos Fernando desafia o presidente. “Se Temer confia tanto na ausência de provas, que se deixe julgar pelo STF. Que a Câmara dos Deputados não se torne um sepulcro caiado.”

VEJA A ÍNTEGRA DOS ARGUMENTOS DE DELTAN DALLAGNOL

UMA RÁPIDA AVALIAÇÃO DAS DECLARAÇÕES DO PRESIDENTE TEMER

O procurador-geral da República denunciou ontem à noite o presidente da República Michel Temer com base em provas consistentes de corrupção. O presidente Temer é acusado de receber 500 mil reais em propinas, assim como de aceitar uma promessa de 38 milhões de reais. A entrega dos recursos em uma mala foi acompanhada pela Polícia Federal e objeto de filmagens. A mala foi entregue pela JBS ao assessor de estrita confiança de Temer, Rodrigo Rocha Loures, após o presidente tê-lo referendado pessoalmente junto a Joesley Batista. O pagamento objetivava conseguir e manter decisões favoráveis à JBS no âmbito do CADE e da Petrobras. O assessor de Temer não tinha poder direto sobre esses órgãos. Rocha Loures só tinha algum tipo de influência enquanto agisse em nome do próprio presidente. Essas provas e várias outras apontam para a responsabilidade do presidente. Para quem não quiser ler a acusação criminal inteira, que tem 60 páginas, recomendo que leiam as páginas 40 a 47.

Nesta tarde, o presidente fez um pronunciamento oficial com cinco eixos, que analiso rapidamente abaixo:

PRIMEIRO EIXO: Não há provas (não deveria haver denúncia sem provas; a denúncia é uma ficção; trata-se de uma “denúncia por ilação”). É a mesma alegação de vários outros políticos acusados por corrupção. Vejam esta sequência de eventos comprovados, como colocados pelo colega Carlos Fernando dos Santos Lima:
“1. Joesley combina com Rodrigo Rocha Loures a conversa com Temer.
2. Rodrigo Rocha Loures orienta Joesley a ir no Palácio do Jaburu no final da noite e apresentar-se na guarita sob nome falso.
3. Joesley é admitido no Palácio do Jaburu, residência de Temer, altas horas da noite, sem que a segurança tenha se preocupado em confirmar a sua identidade (o que indica que foi autorizado por alguém internamente – seja por usar um nome falso, seja pela placa do carro que usaria).
4. Joesley narra para Temer diversos crimes, que nada faz a respeito, e ainda assim Temer indica que Rodrigo Rocha Loures é seu homem de confiança para resolver problemas.
5. Joesley conversa com Rodrigo Rocha Loures sobre problemas no CADE, dentre outros.
6. Rodrigo Rocha Loures combina o pagamento de 500 mil a 1 milhão de reais semanais de propina durante 9 meses, falando agir em nome de Temer.
7. Rodrigo Rocha Loures viaja em avião da FAB para São Paulo para receber a propina combinada
8. Rodrigo Rocha Loures é filmado recebendo a mala onde estava o dinheiro, saindo correndo pela rua para pegar um taxi que já o esperava no local.
9. Rodrigo Rocha Loures deixa a mala no apartamento de sua mãe, não sem antes dela retirar o valor de 35 mil reais (possivelmente a sua comissão – 7% do valor da propina).
10. Rodrigo Rocha Loures devolve após a colaboração de Joesley a mala onde estava o dinheiro, com apenas 465 mil reais.
11. Rodrigo Rocha Loures faz um depósito para o STF dos valor que tinha retirado da mala.”
Some-se que Rocha Loures ligou para o CADE na frente de Joesley e se apresentou ao interlocutor como um mero “soldado” (do presidente). O pagamento da propina aconteceu dia 17, pouco depois do dia 13, quando o contrato entre a empresa vinculada ao grupo J&F e a Petrobras passou a ter efeitos.

SEGUNDO EIXO: Para o presidente, as provas existentes são inaptas ou ilícitas. Aqui o argumento se desdobra. Primeiro, diz que a gravação teve 120 interrupções. Pois bem, o que o laudo da Polícia Federal concluiu foi que a gravação é íntegra e não há indícios de montagem. As interrupções são próprias do tipo de aparelho de gravação usado, que pausa a gravação no silêncio. Em segundo lugar, o presidente diz que a prova seria ilícita, pois foi gravada unilateralmente. Isso não tem qualquer fundamento. A ação controlada tem previsão legal e foi deferida pelo Poder Judiciário. Além disso, a gravação unilateral é plenamente lícita, conforme entendimento do próprio Supremo Tribunal Federal. Neste ponto, recomendo a leitura das notas de rodapé da denúncia de nº 6 e 32, que são bastante esclarecedoras.

TERCEIRO EIXO: O presidente Temer disse também que a denúncia é uma perseguição pelos avanços promovidos por seu governo. Essa linha de defesa soa familiar? Esse tipo de defesa, contra um órgão técnico, imparcial e apartidário, acaba parecendo mais uma manifestação de desespero, que retira sim credibilidade, mas não de quem é atacado, e sim de quem a usa.

QUARTO EIXO: Ressaltou ainda que o verdadeiro criminoso é o empresário Joesley, que está impune. Joesley, realmente, é criminoso confesso. Contudo, isso não alivia em nada a acusação contra o próprio presidente Temer. Uma coisa não afasta a outra. Esse é um recurso de comunicação para desviar a atenção. Assim como é a acusação implicitamente feita pelo presidente contra o procurador-geral da República, buscando criar fantasmas e suspeitas especulativas e sem qualquer fundamento sobre a sua atuação.

QUINTO EIXO: A presidência continuará promovendo reformas e o desenvolvimento do país. Estabilidade é importante para o crescimento econômico. A estabilidade sobre alicerces corruptos é falsa. Está prestes a desmoronar no próximo escândalo. Qual será o próximo escândalo que virá à tona envolvendo a cúpula do governo? Hoje mesmo, o governo balança e não tem condições de concentrar suas atenções num projeto para o país. O foco é salvar a própria pele. Se queremos ter condições para o desenvolvimento da economia, o que precisamos é de um presidente revestido de condições morais para governar.

Termino com o silêncio que fala, com aquilo que não foi dito. Por que o presidente Temer não falou uma palavra sobre Rocha Loures ou sobre as imagens incontestáveis de seu assessor recebendo dinheiro? Se Rocha Loures o traiu, o que o presidente fez para buscar a sua responsabilização pessoal, ou perante o partido, ou mesmo perante a comissão de ética enquanto ainda era Deputado? Por que o presidente não fala sobre a relação que ele próprio mantinha com a JBS, por exemplo, sobre os apontados pagamentos prévios ou sobre a viagem sua e da família em avião da empresa?

 

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