Inadimplência e educação financeira

Inadimplência e educação financeira

Carlos Melles*

22 de novembro de 2020 | 08h00

Carlos Melles. FOTO: DIVULGAÇÃO

Os efeitos econômicos da pandemia do coronavírus colocaram na ordem do dia a vulnerabilidade dos pequenos negócios na hora do aperto financeiro, quando os compromissos assumidos batem à porta, inapelavelmente, e não encontram dinheiro em caixa para saldá-los a tempo. Pesquisa nacional do Sebrae, realizada entre 29 de maio e 2 de junho de 2020, no auge dos efeitos da Covid-19, mostrou que 41% dos pequenos negócios no país tinham dívidas ou empréstimos em atraso.

Para enfrentar os males econômicos do coronavírus, micro e pequenas empresas e microempreendedores individuais buscaram empréstimos nos bancos, mas grande parte não obteve sucesso. Quando indagados sobre a principal razão por não conseguir o crédito pretendido, 19% dos entrevistados disseram que o CPF estava negativado ou com restrição, e 11% afirmaram que a própria empresa estava negativada no Cadin, nome dado ao cadastro informativo de créditos não quitados em órgãos públicos de arrecadação, ou no Serasa.

Nestes casos, não há o que fazer – dirão os bancos, em atitude que chega a ser caracterizada de desumana por muitos, particularmente em situações de emergência nacional, como a que o Brasil ainda está vivendo agora. A implantação de políticas públicas de crédito aos pequenos negócios é um passo necessário, como o bem-sucedido Programa Nacional de Apoio às Microempresas e Empresas de Pequeno Porte (Pronampe). Entretanto, isso não alivia a situação de quem teve o cadastro bloqueado. Para eles, é fundamental receber orientação para que coloquem as contas da empresa em dia saiam da inadimplência.

Numa perspectiva mais ampla, pode ser de grande utilidade a educação financeira. Trata-se de um conjunto de práticas e ações que permitem ao empresário desenvolver um negócio sólido e saudável. Por meio dela, aprende-se a planejar tudo que diz respeito ao dinheiro, das compras de fornecedores às vendas aos clientes, de como cortar gastos, sobreviver e crescer no mercado; bem como ter acesso a crédito enfrentar uma dificuldade momentânea ou fazer investimentos.

Inúmeros empreendedores se queixam das dificuldades até mesmo de garantir uma contabilidade básica em dia, já que não dispõem de recursos para manter um profissional, um departamento ou um escritório terceirizado para essas tarefas. Quando falta conhecimento, de fato torna-se muito difícil gerir e expandir a empresa de maneira consistente e sustentável. Aos empreendedores deve ser franqueado o acesso a webinários, lives, capacitação individual, palestras, encontros coletivos e consultorias. A recente multiplicação de aplicativos para a área pode servir como facilitador, mas vários também requerem um mínimo de treinamento.

O tema é também de grande relevância para a economia do país. Há dez anos, o Brasil dispõe de uma Estratégia Nacional de Educação Financeira, voltada para a eficiência e solidez do sistema financeiro nacional e a tomada de decisões conscientes por parte dos consumidores e empresários.

Para enfrentar os problemas da inadimplência, um ótimo aliado da educação financeira é o crédito assistido do Sebrae. Com ele, os empreendedores são acompanhados em todas as fases da operação: o diagnóstico da empresa, a definição sobre a tomada do empréstimo, as opções no mercado, a negociação com os gerentes, a aplicação dos recursos e como pagar em dia.

A educação financeira pode pavimentar o caminho de uma empresa para o sucesso e evitar uma trajetória cheia de solavancos ou que não leve a lugar algum.

*Carlos Melles, presidente do Sebrae

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