Inacreditável retrocesso

Inacreditável retrocesso

José Renato Nalini*

12 de dezembro de 2020 | 12h00

José Renato Nalini. FOTO: ALEX SILVA/ESTADÃO

Quando chegaram ao Brasil, os portugueses acharam que poderiam ter descoberto o Éden. Assim como havia crença na Atlântida, o continente perdido, existia quem acreditasse que o Paraíso fosse um lugar físico, instalado no planeta Terra. E talvez fosse este imenso território, coberto de mata exuberante, com a fauna exótica e colorida, em contraponto com a flora tropical desconhecida na Europa.

Tinham razão os lusos. Imagine-se a baía de Todos os Santos, a mata atlântica, os pássaros, as orquídeas, a maravilha preservada pelas inúmeras etnias indígenas que estavam aqui havia quantos séculos?

Pois bem. Iniciou-se a empreitada extrativa e o pau-brasil foi sendo levado para uso como tintura. Depois vem o ciclo da cana e os engenhos fazem do nordeste uma zona árida. E nunca mais se respeitou a natureza, hoje tão dilacerada, apesar dos desmentidos de quem faz cálculos sobrepondo áreas indígenas, quilombolas, reservas florestais, áreas de proteção ambiental, área de proteção permanente, para tentar convencer quem está preocupado, de que o Brasil tem mais natureza preservada do que a sua dimensão territorial.

O que diria José Bonifácio que, em 1821, já tinha uma consciência ambiental que homens públicos do século 21 ignoram? Indignado com a degradação ecológica, também registrada em Portugal, escrevia: “Destruir matos virgens, como até agora se tem praticado no Brasil, é extravagância insofrível, crime horrendo e grande insulto feito à natureza”.

Ao estudar na Europa junto a Universidades consolidadas, assimilou a noção de “sistema da natureza” e tinha convicção de que o progresso econômico não poderia se alicerçar na devastação do verde. Melhor do que alguns “desenvolvimentistas” inimigos da floresta, ele sabia que a eliminação da cobertura vegetal nativa prejudicaria a produção rural. Reduziria as chuvas, degradaria os solos e provocaria – como já provoca – a desertificação.

Muito antes de que se falasse em “ecologia” e em “desenvolvimento sustentável”, o Patriarca da Independência se preocupava com a insanidade reinante no Brasil. Um raro exemplo de preocupação com o maior patrimônio pátrio foi o reflorestamento da floresta da Tijuca, entre 1861 e 1874, período em que foram plantadas mais de cem mil espécies nativas.

De acordo com Bruno de Pierro, na revista Pesquisa FAPESP de dezembro, o livro “Primavera Silenciosa”, de Rachel Carson, repercutiu no trabalho de Paulo Nogueira Neto, que foi o primeiro Secretário do Meio Ambiente, quando ainda não havia o Ministério para o assunto. Entre 1973 e 1985, foi um dos responsáveis pelo despertar da consciência ambiental brasileira, acompanhado de legislação preservacionista. Diplomata e extremamente polido, conseguiu implementar uma política ecológica digna de nações civilizadas. Contribuiu para a elaboração do conceito de desenvolvimento sustentável, em plena vigência do desenvolvimentismo do período militar.

Multiplicou as unidades de proteção gerando o SNUC, Sistema Nacional de Unidades de Conservação, as quais visitava e estimulava para que o ambientalismo fosse uma política nacional, mais do que uma política pública, ainda que estatal.

Tudo parecia caminhar bem, com a promulgação da Constituição Cidadã, cujo artigo 225 foi considerado uma das mais belas normas editadas no século 20. A ECO-92 reunião quase duas centenas de chefes de Estado no Rio, oportunidade em que Mikhail Gorbatchev afirmou: “a humanidade tem mais 30 anos para mudar seus hábitos de consumo. Depois disso, a Terra poderá continuar a existir, mas vai prescindir da humanidade para isso”.

Vamos iniciar em breve o 29º ano dessa profecia. Ninguém imaginava que o Brasil regredisse tanto, com o desmanche das estruturas de fiscalização, com o descontrole regulatório inédito, com os incêndios incentivados, provocados ou criminosamente perpetrados na Amazônia. Com o flagelo de todos os biomas nacionais, a ponto de haver fogo no pantanal, uma das áreas mais úmidas do globo. Com redução da Mata Atlântica e projetos imobiliários que não hesitam na destruição de fragmentos derradeiros daquilo que os portugueses pensavam ser o Paraíso Terrestre.

Inacreditável o retrocesso do Brasil em termos de preservação da natureza. O signo de terra devastada custará muito caro para os inocentes. Aqueles que não disporão desse tesouro pelo qual nós não soubemos zelar. O que dirá a História, se ela houver e não tiver chegado ao fim, como vaticinou Francis Fukuyama, destes exterminadores do amanhã?

*José Renato Nalini é reitor da Uniregistral, docente da pós-graduação da Uninove e presidente da Academia Paulista de Letras – 2019-2020

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