Impossível não lastimar

Impossível não lastimar

José Renato Nalini*

09 de julho de 2021 | 09h00

A tentativa de abordar assuntos leves é frustrada pela sucessão de péssimas notícias vinculadas à destruição da natureza brasileira.

José Renato Nalini. FOTO: ALEX SILVA/ESTADÃO

Constata-se que, além da Amazônia, também a Mata Atlântica perde significativo espaço, na área de cobertura vegetal que já é mero resíduo do que um dia foi.

10 cidades são responsáveis por quase um quarto do desmatamento. Pela ordem: Bonito, no Mato Grosso do Sul, que é considerado um refúgio ecológico, roteiro de turistas interessados em assistir a maravilhosos espetáculos envolvendo a água, peixes e floresta. Isso parece condenado a desaparecer. Um pecado e uma considerável perda econômica, matar “a galinha dos ovos de ouro”.

Em seguida, Águas Vermelhas em Minas Gerais, Vanderley na Bahia, Montalvânia e Pedra Azul, ambas em Minas, Cotegipe na Bahia, Ponto dos Volantes em Minas, Miranda no Mato Grosso do Sul, Encruzilhada na Bahia e Francisco Sá em Minas Gerais. São, lamentavelmente, as cidades que mais exterminaram a preciosa cobertura vegetal desse pobre bioma.

Tudo isso foi apurado pela SOS Mata Atlântica, responsável pelo Atlas dos municípios dessa área, em conjunto com o Inpe – Instituto nacional de pesquisas espaciais.

A Mata Atlântica é o bioma que foi o mais devastado no Brasil. Só possui 12% da cobertura original. Os interessados podem consultar os resultados da pesquisa no site “Aqui tem mata?”.

Apurou-se também, que a eliminação da cobertura vegetal recrudesce em anos eleitorais. Parece fazer sentido adotar uma política manifestamente contrária à ecologia, para atender a uma aliança nefasta: aquela que se faz entre a ganância e a ignorância.

Não se apercebem os dendroclastas, que eliminar a natureza afeta profundamente a já combalida economia brasileira. A famigerada lei geral do licenciamento ambiental, aprovada na Câmara dos deputados, se vier a ser aprovada no Senado, fechará as portas da OCDE para o Brasil. A poderosa organização para a cooperação e desenvolvimento econômico é muito prudente na admissão de novos agregados. Considera um absurdo a destruição ecológica, a continuar com intensa rapidez, cotejada com as vãs promessas feitas para a comunidade Internacional, como arrependimento pela antipolítica ecológica recente. Nenhuma providência concreta a evidência correção dos ruinosas rumos tomados a partir de 2019.

O Brasil havia construído uma poderosa blindagem normativa para impedir a continuidade da destruição das florestas. Mas o talento para elaborar normas tão sofisticadas como o artigo 225 da Constituição Cidadã, é incompatível com a teimosa persistência em não observar as leis que elabora. O Brasil chegou ao ridículo de pedir verba aos Estados Unidos, para cumprir lei que o parlamento brasileiro produziu quando havia sensatez nesta República.

Todavia, o mundo civilizado presta atenção nisso e castigará o Brasil. Com toda a razão. Cerca de 60 organizações da sociedade civil encaminharam ao novo secretário geral da OCDE, Mathias Cormann, um apelo e um alerta sobre os riscos da participação do Brasil no grupo dos países ricos. Pois o Brasil é acusado de promover um dos maiores ataques institucionais às medidas de proteção ao meio ambiente, ao clima e aos povos tradicionais do país.

Pese embora a boa vontade da OCDE, o Brasil não tem se portado com seriedade. A proteção ambiental entrou na agenda global e motivou o Primeiro Mundo a adotar medidas sérias, consistentes e indiscutíveis, para mitigar as consequências do perverso uso dos recursos naturais em relação ao aquecimento global.

É preciso muito mais do que retórica falastrona, em que a liderança mundial já não acredita, para tentar salvar o capital reputacional desta nação. Para iniciar a recuperação do conceito brasileiro, é preciso investir no retorno da participação dos governos subnacionais e da sociedade civil no Conama- Conselho Nacional do Meio Ambiente e revigorar o Cofa – Comitê Orientador do Fundo Amazônia. Este foi extinto assim como o CTFA – Comitê Técnico do Fundo Amazônia. Fazer com que o Ibama possa multar e fiscalizar. Repor os quadros funcionais cuja vacância persiste e se desculpar com os servidores fiéis à natureza, que foram defenestrados e perseguidos durante mais de dois anos de terror no Ministério do Meio Ambiente.

Isso sem falar na imediata adoção do desmatamento zero e, mais importante ainda, reflorestar as áreas que hoje são chagas abertas no verde nacional.

Alguém acredita que isso seja viável nestes tempos? É por esse motivo e por muitos outros mais, que se torna impossível deixar de lastimar o que o Brasil está fazendo em relação ao seu maior patrimônio. A história julgará os exterminadores do futuro.

*José Renato Nalini é Reitor da Uniregistral, docente da Pós-graduação da Uninove e Presidente da Academia Paulista de Letras, gestão – 2021 – 2022.  

 

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