Impermanente

Impermanente

Cassio Grinberg*

02 de janeiro de 2022 | 08h00

Cassio Grinberg. FOTO: DIVULGAÇÃO

As mudanças estão mais rápidas do que você percebe, mas não é apenas disso que estou falando: a aceleração, de repente, tem base estrutural. É como se não apenas estivéssemos trafegando em carros bem mais velozes, mas a própria estrada também rolasse como esteira supersônica.

Nessa via da impermanência, tudo o que for oferecido aos clientes deverá ser exponencialmente simples. Todo aspecto complicado de nossos negócios será reinventado em partes e, se nosso negócio for complicado no todo, ele será reinventado por inteiro.

Certa vez, perguntaram ao pintor Joan Miró se não eram fáceis demais os traços que ele pincelava na tela: ou é terrivelmente fácil, respondeu ele, ou é impossível. Exatamente agora, há alguém criando uma forma mais rápida, mais barata e mais divertida de oferecer justamente uma parte ou o todo daquilo que você oferece.

Já vem sendo assim: toda indústria tem sido reinventada por alguém que decodificou o algoritmo da simplicidade: o Canva simplificou o design, o Airbnb simplificou a hospedagem, o Tinder simplificou a atração, o Uber simplificou o transporte, Steve Jobs simplificou o mundo, e logo teremos alguns “problem solvers” simplificando a saúde, a aviação, a política, a alimentação, o dinheiro — que estou dizendo, tudo isso já está para lá de impermanente.

A impermanência tem a textura de um Michelangelo tirando cada vez mais cavalos da pedra, o som de vários Aloks melhorando a experiência de escutar músicas que já existem.

A impermanência requer aprendizado rápido, mas é quase um clichê escrever isto: ela requer, na verdade, é desaprendizagem veloz, e inclusive capacidade de desinventar qualquer coisa que esteja recém criada. Ela requer, mais do que isso, que sejamos nós mesmos os agentes de nossa auto-disrupção: se nosso negócio, no fim das contas, será reinventado, melhor que seja por nós mesmos.

Não é mais apenas uma questão de nos reposicionarmos, deixando de ser Golias, e passando a ser Davi. É uma questão de entendermos que, na impermanência, quanto mais a gente abraça a mudança, mais tempo a gente dura.

*Cassio Grinberg, sócio da Grinberg Consulting e autor do livro Desaprenda – como se abrir para o novo pode nos levar mais longe

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