Impacto no mercado de luxo

Impacto no mercado de luxo

Arthur Siqueira*

03 de dezembro de 2019 | 04h00

Arthur Siqueira. FOTO: DIVULGAÇÃO

O anúncio da compra da Tiffany pela LVMH é o desfecho de uma negociação que se tornou pública há um mês, quando o grupo do Bernard Arnault fez a primeira oferta pela empresa americana. O interesse do Arnault na Tiffany é bem mais antigo, desde o início da década, época quando adquiriu a Bulgari. Esse movimento recente deve causar um grande impacto no mercado de luxo, pois o grupo LVMH, que já é líder em outros setores do mercado de luxo, agora se consolida como líder mundial em jóias, acumulando duas das maiores referências no setor – Bulgari e Tiffany. O grupo de Bernard Arnault sai fortalecido e vai, certamente, aumentar o valor da famosa marca de jóias.

O grupo foi pioneiro no modelo de negócio de conglomerado de marcas de luxo e atualmente é a maior empresa do setor, com receita anual superior a 50 bilhões de euros, valor de mercado de aproximadamente 200 bilhões de euros e escala relevante em diversos segmentos, como vestuário, couro, joias, relógios, bebidas (cognac e champagne), perfumes e cosméticos.

A LVMH tem um longo histórico de aquisições no setor e a aquisição da Tiffany é bastante aderente a estratégia de alocação de capital do grupo. O grupo tem como prática manter um alto grau de independência das marcas adquiridas justamente para preservar suas identidades, ao mesmo tempo que oferece uma série de benefícios oriundos da escala de um grande conglomerado.

As últimas aquisições relevantes do grupo foram a Dior Couture (que já era controlada por Bernard Arnault, acionista controlador da LVMH), a Rimowa (fabricante de malas de viagem de luxo) e os Hotéis Belmond (rede de hotéis de luxo que inclui o Copabana Palace e o Hotel das Cataratas, em Foz do Iguaçu).

A Tiffany, por sua vez, é uma das marcas de jóias mais icônicas do mundo e uma empresa que acompanhamos desde 2014 na GEO. Foi fundada em 1837 e, das três principais marcas de branded jewelry do mundo – sendo Cartier e Bulgari as outras duas –, a única que ainda não fazia parte de um conglomerado.

Na GEO, que cobre um universo restrito de 60 empresas no mundo, a tese de investimento em Tiffany é baseada no poder da marca e sua versatilidade. O poder da marca é sustentado por uma cadeia integrada de ponta a ponta, permitindo à Tiffany controlar a qualidade e procedência da sua matéria-prima, transformá-la em produto e entregá-la diretamente ao cliente final, controlando a experiência do cliente e a estratégia de preço, que no setor de luxo é um aspecto fundamental.

A empresa, que opera cerca de 300 lojas ao redor do mundo, reportou no ano passado receita recorde de 4.4 bilhões de dólares. Por outro lado, há alguns anos a empresa vem enfrentando dificuldades de crescer vendas nas lojas (same store sales), principalmente nos Estados Unidos. Nos últimos anos houve mudanças relevantes na base de acionistas e na gestão da empresa, incluindo o CEO, CFO e diretor artístico. O novo time de gestão desenhou um plano de ação baseado em iniciativas estratégicas que passam pela comunicação, repaginação das lojas, expansão geográfica e aumento na cadência de lançamentos de coleções

O grupo LVMH pode ajudar a Tiffany no crescimento de receita em função de sua expertise em distribuição direta e capacidade financeira de investimento. A Louis Vuitton, principal marca do grupo, também tem um modelo de negócio totalmente integrado e que vem crescendo a taxas bem mais altas que o setor nos últimos anos. Apesar de não divulgar números específicos, estimamos que a marca tenha mais do que dobrado de tamanho em termos de receita na última década sustentando margens operacionais na casa dos 40%.

A aquisição da LVMH que mais se assemelha à Tiffany, em termos de linha de negócio, é a Bulgari, que foi adquirida em 2011 por 3.7 bilhões de euros (5.2 bilhões de dólares) e dobrou o tamanho do business de joias e relógios do grupo na época. A Bulgari foi adquirida da família fundadora, que permaneceu à frente da operação por muitos anos. Curiosamente, o atual CEO da Tiffany, Alessandro Bogliolo, foi COO da Bulgari, tendo trabalhado na empresa por 16 anos. Desde a aquisição, a LVMH conseguiu expandir significativamente o negócio, crescendo próximo de 10% nos últimos anos e mais do que dobrando a margem operacional. Além da Bulgari, o grupo LVMH é dono da Tag Heuer e da Hublot.

A expectativa é de que o negócio seja concluído em meados de 2020, após o aval das entidades regulatórias e dos acionistas da Tiffany. Com isso, a Tiffany será uma das marcas mais icônicas entre as mais de 70 que fazem parte do conglomerado de luxo francês. Agora é só aguardar para ver a gigante do luxo brilhar ainda mais forte.

*Arthur Siqueira, sócio e analista de investimentos da GEO Capital, gestora de investimentos em ações globais

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