Igualdade feminina: o que o mundo e Aghaia têm em comum?

Igualdade feminina: o que o mundo e Aghaia têm em comum?

Ana Cristina Melo*

21 de agosto de 2020 | 05h30

Ana Cristina Melo. Foto: Divulgação

Agosto. Dia 26. Uma data relevante para mim. Aniversário da minha mãe, nascimento do meu romance distópico “A Rainha Perdida” (Ed. Opala). Mas é também Dia Internacional da Igualdade Feminina e Dia Internacional dos Direitos do Homem e do Cidadão.

Diferente dos aniversários, por que precisamos de um dia que lembre tantos direitos?

Há mais de 2000 anos, o mundo era um lugar horrível. O bicho “homem”, do sexo masculino, agia de forma irracional, sem medidas, respeito pelo próximo ou ética. Mulheres, crianças, pobres, empregados eram vistos como objetos, seres inferiores. Todos “escravos” deste “ser horrendo”. 

Mas o mundo evoluiu. Mulheres mostraram força. Algumas se destacaram. Então, durante a Revolução Francesa, em 26 de agosto de 1789, é anunciada a Declaração Universal do Homem e do Cidadão. O Dia Internacional da Igualdade Feminina nasce em 26 de agosto de 1920, quando os EUA permitem o voto feminino.

O artigo 1º da declaração diz que os homens são livres e iguais em direitos. Mas ainda existiam muitos “bichos homens” que fingiam que o texto não se referia a “seres humanos”. Ainda era preciso lutar. No Brasil, por exemplo, apesar de algumas mulheres terem conseguido votar e eleger, no Rio Grande do Norte, em 1928, a 1ª prefeita brasileira, a mulher só teve o voto reconhecido em 1932, com um adendo: mulheres casadas precisavam ter a “permissão” dos maridos. A obrigatoriedade do voto feminino se deu, apenas, em 1965. Na Arábia Saudita, este direito só foi liberado há 9 anos. 

Bom, voltemos à declaração que deveria ser de qualquer ser humano. Aprovada pela ONU, em 1948, a Declaração Universal dos Direitos Humanos deixou isso bem claro. Todo ser humano é igual e livre, sem distinção de espécie, raça, cor, sexo, idioma, religião, opinião política etc.  Caso você nunca tenha lido a Declaração da ONU, sugiro que o faça. 

Mas, no Brasil, ainda precisava mais. Em 1990, precisou do ECA. Sobre as mulheres, antes e depois de 1948, novas lutas garantiram ao público feminino o direito de estudar; trabalhar fora; não ser tratada como “propaganda enganosa” no casamento; não sofrer violência doméstica. Sem contar outras leis contra o racismo e homofobia. 

Olhando para o mundo atual, tive a ideia de uma sociedade distópica onde a liberdade tivesse sido tirada não só fisicamente, mas também moralmente, pois foi excluída até do dicionário. Há no livro uma frase marcante: “Você não pode desejar o que não conhece”. E nisto se baseia o governo autoritário de Aghaia. Mas é um governo que, metaforicamente, poderia ser nossa sociedade. Todos seguem a Grande Lei e o povo acha que está correto trabalhar 14 horas por dia, idosos serem levados pela Guarda da Assistência porque estão doentes demais para continuar trabalhando, que basta a cada família receber a dose de comida e educação que a Capital determina. É triste pensar que Aghaia pode ser qualquer parte do mundo, pode estar aqui, no Brasil, ou em qualquer país que manipula as leis à vontade dos governantes. 

Lá nas aulas de Biologia, aprendi sobre a hierarquia da classificação dos animais: reino, filo, classe, ordem, família, gênero e espécie. Tinha uma sequência que era muito fácil de identificar. O Reino Animal. Classe dos mamíferos. Ordem dos primatas (macacos e seres humanos). Família dos Hominídeos. Gênero homo. Espécie Humano (ou Homo Sapiens). Eis nós. Ser humano, “homem sábio”. Não lembro de serem citados a cor de pele, classe social ou gênero feminino ou masculino. Aprendi que somos eu e você (homem ou mulher; criança, adolescente, adulto ou idoso), todos seres humanos. Todos sábios, iguais. 

Não tiro o mérito dos tratados e leis que conseguiram a igualdade das mulheres, crianças, raças. Mas isso tudo não vai adiantar nada se não mudarmos a semente cerebral do “bicho ser humano”. Se persistirem as discriminações e preconceitos, virá um novo século, e ainda estaremos lutando contra o que é humanamente hediondo. 

Acredito que está na hora de mudarmos nosso foco de luta. Porque, hoje, o “bicho ser humano” continua sendo racionalmente um ser irracional. As diferenças nos tornam únicos, especiais e capazes de mudar o mundo e se conectar com o próximo. A igualdade pela qual precisamos lutar hoje é que tenhamos seres com a mesma educação, bom senso, ética, respeito e empatia. Isto nos iguala a seres humanos. Qualquer coisa diferente é bicho irracional. 

*Ana Cristina Melo é uma escritora carioca, com 20 livros publicados, e acaba de lançar A Rainha Perdida pela Editora Opala. É também publisher do Grupo Editorial Bambolê.

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