Igualdade de gênero na área de finanças

Igualdade de gênero na área de finanças

Felipe Brunieri e Guilherme Malfi*

15 de novembro de 2021 | 06h30

Guilherme Malfi e Felipe Brunieri. FOTO: DIVULGAÇÃO

A área financeira sempre apresentou uma predominância masculina nos ambientes corporativos. Nos últimos anos, com a intensificação das discussões sobre a importância da representatividade feminina, muitas empresas buscaram desenvolver iniciativas para ampliar o espaço das mulheres em Finanças. Contudo, a igualdade de gênero vai além de proporções equilibradas entre homens e mulheres, envolvendo, também, uma equivalência de reconhecimento, oportunidades e respeito para ambos, de forma que ainda há muitos desafios a serem superados para que se atinja uma legítima igualdade de gênero e, portanto, uma diversidade enriquecedora para as companhias.

Apesar de mulheres ocuparem uma fração relevante dos cargos financeiros em níveis hierárquicos inferiores, somente uma pequena parte delas ascende a posições C-level. Por vezes, surgem notícias sobre Executivas que alcançaram elevados cargos na área de Finanças, a exemplo de Jane Fraser, a primeira mulher a liderar um dos maiores bancos de Wall Street em fevereiro de 2021. No entanto, o fato de Fraser ser a primeira e única Executiva a conseguir este feito tão tardiamente demonstra a dificuldade ainda existente, para o gênero feminino, de superar as desvantagens em relação aos homens no ambiente corporativo. No Brasil, somente pouco mais de 10% dos CFOs de empresas com o faturamento divulgado acima de 1 bilhão de reais são mulheres – de acordo com a pesquisa O Perfil do CFO no Brasil 2021, realizada pela Assetz Expert Recruitment em parceria com o Insper –, sendo que uma das principais razões para esse baixo índice é o preconceito velado contra o gênero feminino que se apresenta de muitas formas.

Entre os tipos mais comuns está o “manterrupting”, que consiste em um neologismo criado a partir das palavras “man” e “interrupting” e que se refere a momentos em que um homem interrompe uma mulher desnecessariamente por considerar a fala dela irrelevante ou errada. Na rotina de trabalho da área de Finanças, reuniões com gestores ou pares acontecem com grande frequência e, devido ao fato de posições de liderança ainda serem ocupadas majoritariamente pelo gênero masculino, esse tipo de preconceito torna-se ainda mais recorrente, tanto em reuniões presenciais quanto virtuais, em que mulheres são constantemente silenciadas, ignoradas, ou até julgadas por serem mais incisivas nas suas falas. Ademais, essa distinção entre gêneros se inicia muitas vezes já no processo seletivo, posto que várias empresas evitam contratar mulheres grávidas ou com filhos para não terem gastos extras com licença maternidade e não precisarem lidar com horários de trabalho mais flexíveis, tão necessários para Executivas que são mães. No que diz respeito a essa flexibilidade de horas, trata-se de um dos principais motivos pelos quais muitas mulheres perdem o emprego ou não são promovidas na mesma velocidade que os homens. Embora a divisão das tarefas domésticas e responsabilidades com os filhos venha se tornando cada vez mais igualitária entre pais e mães, o gênero feminino ainda possui uma sobrecarga maior em relação às questões familiares, o que se intensifica com a adoção do home-office. Segundo um estudo realizado em 2021 pela Accenture – empresa de consultoria e gestão – cerca de 29% das mulheres que trabalhavam na área financeira tiveram que deixar seus empregos temporária ou permanentemente, enquanto 34% ainda consideram a possibilidade de fazer o mesmo, principalmente por conta do cuidado com os filhos e com a casa e por não terem a possibilidade de adotar horários mais flexíveis na rotina de trabalho, levando empresas a perder talentos pela falta de empatia com a realidade dessas Executivas.

Dentro desse contexto, muitas companhias ampliam o espaço feminino dentro das organizações, porém não desenvolvem políticas recorrentes de apoio a mulher e acabam por não oferecer o suporte necessário para que elas continuem crescendo em suas carreiras. Mais uma vez, retorna-se à questão de que igualdade de gênero não se trata somente de proporções equivalentes, mas também dos mesmos direitos e oportunidades de crescimento profissional para ambos os gêneros. Para que isso aconteça, iniciativas de apoio à discussão sobre diversidade de gênero, como palestras, grupos de conversa entre Executivas, rotatividade entre homens e mulheres em posições de liderança e investigação de denúncias contra atitudes preconceituosas, são fundamentais e tendem a equilibrar as oportunidades profissionais para essas Executivas, permitindo que elas se sintam à vontade para expor suas ideias e confiantes para participar ativamente do processo de tomada de decisão. De acordo com um artigo da The Kauffman Fellows Research Center de 2019, equipes fundadoras que estimulam a igualdade de gênero são mais bem-sucedidas ao inovarem na captação de recursos junto a fundos de investimento. Assim, tanto a área de Finanças, quanto a companhia como um todo são fortemente beneficiadas com políticas de incentivo à diversidade de gênero, uma vez que a inclusão de mulheres no ambiente corporativo promove uma variedade de pensamentos que estimula outras formas de agir e solucionar problemas, contribuindo, por conseguinte, para o sucesso da empresa. Afinal, como diria a ativista paquistanesa Malala Yousafzai, “não podemos todos obter sucesso quando metade de nós é retida”.

*Felipe Brunieri e Guilherme Malfi, sócios-fundadores da Assetz

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