Identidade de gênero: tudo o que você precisa saber

Identidade de gênero: tudo o que você precisa saber

Tatiana Pimenta*

07 de julho de 2020 | 10h21

Tatiana Pimenta. FOTO: DIVULGAÇÃO

Muito se fala sobre identidade de gênero no Brasil. A discussão têm sido acalorada nos últimos anos, pois todos buscam entender este conceito. A verdade é que a definição de gênero se modificou rapidamente ao longo dos anos e nem todos conseguiram acompanhar esta mudança por completo.

Por conta disso, ainda há muita desinformação atrelada a este assunto. E, embora este nem sempre seja o caso, algumas pessoas acabam ferindo outras psicologicamente, emocionalmente e fisicamente por causa da falta de informação.

Primeiramente, é preciso compreender a definição de gênero, ou melhor, as definições.

Diversas explicações foram criadas por estudiosos e filósofos, resultando em uma diversidade de visões a respeito de um único conceito.

De forma simples, gênero pode ser definido como um agrupamento de indivíduos, objetos e ideias que possuem características em comum.

Segundo a OMS, o gênero tem implicações para a saúde ao longo da vida de uma pessoa em termos de normas, papéis e relações.

Ele influencia os comportamentos de risco e busca de saúde de uma pessoa, a exposição a riscos à saúde e a vulnerabilidade a doenças. O gênero molda a experiência de todos os cuidados de saúde, em termos de acessibilidade, acesso e uso de serviços e produtos e interação com os prestadores de serviços de saúde.

Um pouco mais sobre gênero

Gênero também pode ser definido como as relações entre homens e mulheres, tanto perceptivas quanto materiais. O gênero não é determinado biologicamente, como resultado das características sexuais de mulheres ou homens, mas é construído socialmente.

É um princípio organizador central das sociedades, e geralmente governa os processos de produção e reprodução, consumo e distribuição

As questões de gênero costumam enfocam as mulheres e o relacionamento entre homens e mulheres, seus papéis, acesso e controle sobre recursos, divisão de trabalho, interesses e necessidades. As relações de gênero afetam a segurança da família, o bem-estar da família, o planejamento, a produção e muitos outros aspectos da vida

Resumindo, esta definição está associada às características comumente atribuídas aos homens e às mulheres. Para a compreensão ser mais fácil, pense em gêneros cinematográficos.

Existem filmes de romance, de ação, de terror, de suspense, de comédia, entre outros muitos outros. Cada um é colocado em uma categoria por conter qualidades específicas que os definem.

Por exemplo, os filmes de romance mostram um casal apaixonado enquanto os de ação envolvem lutas, guerras, missões secretas, explosões e demais características ligadas ao confronto entre duas forças em um cenário fantástico.

Os gêneros masculino e feminino também possuem atributos únicos. Todos nós podemos reconhecê-los facilmente porque somos ensinados e condicionados desde criança a fazê-lo. Em nosso país, é esperado que as pessoas expressem comportamentos condizentes com o gênero designado à elas.

Um exemplo um tanto simples é o fato das mulheres pintarem as unhas e usarem maquiagem e os homens não.

Para as mulheres, esse é um comportamento comum. Quando alguém age diferente do esperado, como um homem pintar as unhas ou uma mulher não gostar de maquiagem, pode causar estranheza nos demais.

O que é identidade de gênero?

A identidade de gênero diz respeito à como uma pessoa se sente em relação ao próprio gênero. Embora, como mencionado anteriormente, o masculino e o feminino sejam os mais reconhecidos, um indivíduo pode se identificar em outra “categoria” de gênero.

Ao contrário do que muitos pensam, o gênero não está somente relacionado à anatomia dos órgãos genitais. A autoimagem da pessoa é o fator que mais se sobressai já que ela se define conforme a sua percepção de si mesma.

Além de envolver a maneira como a pessoa se enxerga no mundo, engloba também o modo de expressão, como as roupas e a aparência.

Consequentemente, o seu comportamento, linguagem corporal, modo de falar e até modo de pensar também são influenciados pela identidade com a qual se identifica.

O conflito surge quando a pessoa age e pensa de forma diferente das normas atribuídas ao seu gênero. Cada cultura, seja de outra nação ou de uma região diferente, possui seus próprios conceitos do que é certo e errado para cada gênero. Mas nem sempre esses condizem com a individualidade da pessoa.

Tipos de identidade de gênero

Existem três tipos principais quando se fala em identidade de gênero. Antes de apresentá-los, é importante ressaltar que uma pessoa pode expressar mais ou menos características consideradas femininas ou masculinas em todos os casos.

Portanto, é importante olhar para os tipos de identidade de gênero com a consciência de que são baseados nos sentimentos e nas experiências de vida de pessoas reais e não apenas definições científicas.

Cisgênero: é a pessoa que se identifica com o sexo biológico designado no momento de seu nascimento.

Transgênero: é quem se identifica com um gênero diferente daquele atribuído no nascimento.

Não-binário: é alguém que não se identifica completamente com o “gênero de nascença”, nem com outro gênero. Esta pessoa pode não se ver em nenhum dos papéis comuns associados aos homens e as mulheres bem como pode vivenciar uma mistura de ambos.

Mas como um homem pode se sentir como uma mulher no corpo errado? Como alguém pode não se identificar com nenhum gênero ou com ambos? Como esta identidade é formada?

Saiba que não existe nenhum fator determinante.

Alguns acreditam que uma pessoa identificada como transgênera passou por um grande trauma na infância ou possui um desvio de conduta. No entanto, nenhuma dessas especulações está correta.

A identidade de gênero é oriunda do nascimento.

Uma pessoa que “de repente” se descobre transgênero muito provavelmente já vinha lutando contra seus próprios preconceitos e conflitos internos e, finalmente, consegue se expressar como realmente é.

Identidade de gênero X orientação sexual

Apesar de causarem confusão entre as pessoas, não existe uma relação entre esses dois conceitos.

Orientação sexual pode ser simplesmente definida como o desejo sexual que um indivíduo sente por outro.

Um homem transgênero pode sentir atração tanto por homens quanto por mulheres. Uma mulher lésbica com preferência por uma aparência tipicamente masculina não quer necessariamente ter a anatomia de um homem ou ser tratada como um. Embora possam existir casos assim, não é uma verdade universal.

É esperado que após passar por uma transição de gênero, tratamento baseado em ingestão de hormônios e procedimentos cirúrgicos para conquistar a aparência desejada, a pessoa sinta atração pelo sexo oposto. Mas este nem sempre é o caso.

O correto seria não fazer perguntas sobre a intimidade de outras pessoas, mas, em caso de dúvidas sobre a orientação sexual de alguém, perguntar em vez de assumir é a solução mais sensata.

Os tipos de orientações sexuais mais comuns são:

  • Heterossexual: atração pelo sexo oposto.
  • Homossexual: atração pelo mesmo sexo.
  • Bissexual: atração por ambos.
  • Assexual: atração por nenhum. Embora a pessoa não sinta desejo sexual, é capaz de manter um relacionamento amoroso.
  • Pansexual: atração por pessoas, independente de sexo.
  • Identidade de gênero X Sexo

Outra causa comum de dúvidas é onde o sexo se encaixa. Popularmente, usamos a palavra sexo em vez de gênero para definir se alguém é homem ou mulher. É comum ouvir a expressão “do sexo masculino” ou “do sexo feminino”.

Mas, em meio a todos esses conceitos novos associados à sexualidade humana, é mesmo certo falar assim?

O sexo se refere às distinções biológicas e anatômicas do corpo humano. Em outras palavras, aos órgãos genitais, aparelhos reprodutivos e outros. Uma pessoa biologicamente mulher possui vagina enquanto uma pessoa biologicamente homem, pênis.

Já o gênero está associado à construção social do sexo biológico. Logo, é esperado que uma pessoa biologicamente mulher siga as regras sociais associados ao seu sexo.

Por exemplo, um debate popular sobre as relações amorosas modernas entre casais heterossexuais é a divisão de tarefas nos lares brasileiros. No passado, as mulheres cuidavam dos afazeres domésticos e os homens trabalhavam fora.

Como essa dinâmica não é mais a única encontrada na sociedade, causa questionamentos e discussões sobre o que impede uma mulher ou um homem de realizar o papel do outro ou ambos ao mesmo tempo. É o questionamento da construção sexual do sexo “de nascença”.

Como a psicoterapia pode ajudar em conflitos de identidade de gênero?

Felizmente, a conversa sobre sexualidade aumentou muito nos últimos 10 anos. Essa exposição é benéfica porque, hoje, os jovens em fase de descobrimento da sexualidade possuem mais recursos e acesso a questões importantes sobre o tema.

Desse modo, o processo de descobrir e compreender a própria identidade de gênero é menos doloroso do que já foi no passado. A discriminação pode esconder essa realidade, fazendo parecer que “nada mudou”, mas é necessário comemorar até mesmo as menores conquistas.

Ainda assim, pessoas de todas as idades enfrentam conflitos internos sobre a própria sexualidade. Além disso, em um mundo que ainda caminha para uma realidade de compreensão e benevolência, esses conflitos costumam se agravar devido às pressões externas.

A psicoterapia, por naturalmente buscar o autoconhecimento e a solução para os problemas que afetam a saúde mental, pode amenizar os conflitos gerados pelas dúvidas, os questionamentos e as pressões sociais.

A psicoterapia trabalha questões de identidade

Um aspecto muito trabalhado na terapia é a identidade. Isto é, múltiplos pacientes possuem questionamentos sobre quem são de verdade, qual caminho deveriam seguir e por que não conseguem se sentir bem na própria pele.

A descoberta da sexualidade, o reconhecimento e a aceitação da mesma, e o momento de contar aos pais e amigos nem sempre são fáceis.

Quando a pessoa não encontra apoio em seu círculo social, o seu estado emocional pode se agravar. Os conflitos gerados deste desamparado geralmente são carregados pela vida toda, causando sofrimento ao indivíduo.

A psicoterapia pode ajudar em todos esses estágios. Pode servir tanto de guia para a pessoa se autodescobrir ou se aceitar quanto de ombro amigo para ajudá-la a reconquistar a autoestima e a felicidade.

Através de questionamentos e reflexões constantes, o paciente descobre e compreende sentimentos, mágoas e dores. É assim que se torna capaz de ressignificar suas memórias e emoções negativas.

A psicoterapia e os transtornos emocionais

É comum homens e mulheres que se identificam como transgênero sofrerem transfobia. O Brasil possui um dos maiores índices de violência contra transexuais, especialmente em locais onde informações básicas sobre identidade de gênero não conseguem chegar.

Por isso, não é incomum que pacientes transexuais apresentem transtornos emocionais resultantes da violência direta ou indireta. Apenas estar consciente das possíveis formas de discriminação existentes já afeta a saúde mental desses indivíduos.

Por vezes, o constante contato com casos de violência através de notícias, relatos nas redes sociais ou fofocas pode desencadear ansiedade, pânico e depressão. O medo de sofrer um ataque físico ou verbal, neste caso, é sufocante e pode se transformar em paranoia.

A psicoterapia tem o papel de tratar transtornos mentais e devolver a tranquilidade ao paciente, fortalecendo a sua capacidade de lidar com o estresse e o preconceito de maneira saudável.

A psicoterapia pode ajudar a desconstruir crenças negativas

No Brasil, ainda é comum encontrar diversas crenças equivocadas sobre identidade de gênero e orientação sexual.

É possível, então, que o paciente transexual ou não binário seja tomado por grandes angústias em relação a comportamentos e opiniões baseadas nessas crenças. Pode até mesmo internaliza-las e, inconscientemente, acreditar nelas.

Consequentemente, a pessoa não consegue gostar de si mesma e sofre extrema angústia quando apresenta um comportamento considerado ‘não apropriado’, conforme o que é esperado.

Um resultado comum deste conflito é a construção de uma vida com ‘aparência adequada’ somente para se encaixar nas expectativas de terceiros. Esta realidade forjada traz muito sofrimento para o indivíduo e acaba afetando entes queridos, que podem se sentir traídos com ‘a vida de mentira’.

Da mesma forma que o paciente consegue ressignificar suas emoções, também possui a capacidade de fazê-lo com crenças conflituosas com o auxílio da psicoterapia.

Quando procurar a psicoterapia?

A psicoterapia está sempre de portas abertas para ajudar as pessoas a terem uma vida mais feliz, saudável e proveitosa.

Indivíduos que possuam questões relacionadas à identidade de gênero ou mesmo sobre sua orientação sexual podem apresentar certas reservas em dar início a um um processo de terapia.

Entretanto, não é preciso cultivar dúvida ou vergonha de se abrir com uma pessoa desconhecida. O psicólogo é um profissional capacitado para conduzir a interação com o paciente da maneira mais confortável possível.

Felizmente, hoje é possível encontrar muitos profissionais especializados em tratar questões oriundas da sexualidade! Eles são mais conhecidos como sexólogos.

O que vai definir qual é o melhor psicólogo e a melhor abordagem para cada paciente é a identificação. É necessário haver empatia entre profissional e paciente e conforto ao interagir com o método escolhido.

Em síntese, o paciente pode buscar a psicoterapia quando desejar viver melhor consigo mesmo.

Sempre que uma pessoa sentir que os seus problemas emocionais estão tomando conta da vida exterior, afetando relacionamentos, o humor e a auto percepção, é recomendado a buscar ajuda profissional.

*Tatiana Pimenta é CEO e fundadora da Vittude. Única brasileira finalista da premiação internacional Cartier Women’s Initiative Awards em 2019. Engenheira que se apaixonou pela Psicologia. 

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