Ideias móveis

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Cassio Grinberg*

10 de dezembro de 2019 | 06h00

Cassio Grinberg. FOTO: DIVULGAÇÃO

Stacy Brown, fundadora da Chicken Salad Chick, conta que, quando pequena, seus pais tinham um hábito: toda a noite, no jantar, perguntavam a ela e ao irmão: com que tipo de problemas vocês se depararam hoje? E o jantar era conduzido por meio do pensamento de soluções em família. Isso era tão impactante que ela chegava a se preparar, e segundo ela, é esse hábito de desaprender soluções tradicionais e pensar soluções novas que conduz sua vida empreendedora.

Então eu resolvi testar. Passei um dia observando problemas e reunindo insights de como eu tentaria resolvê-los. Começou pelo elevador: uma experiência que é a mesma há 150 anos. Uma caixa claustrofóbica e constrangedora, onde é proibido olhar as pessoas nos olhos e, caso aconteça, você é obrigado a falar sobre o tempo. Por que o elevador não pode ser um ambiente mais “descontraído”, com wi-fi potente, ar-condicionado, andares aparecendo em telas LED, games rápidos para aproximar as pessoas, câmeras de selfie, cores controladas por lâmpadas tipo Philips Hue?

E por falar em Philips Hue, depois foi no trânsito: me lembrei da definição de fração de segundo do Millor Fernandes (o tempo entre o sinal abrir e alguém buzinar atrás), e pensei na ideia de unir tecnologia e comportamento: uma solução de iluminação para carros. Uma espécie de faixa luminosa ao redor do carro controlada por dispositivo interno, onde a cor do carro seria ajustada conforme o humor do motorista. Acordou com o pé esquerdo? Seu carro terá um feixe vermelho. Namorou na noite anterior? Azul. Assim as pessoas em volta podem entender e respeitar seu astral, que com o tempo vai ser informado por IA.

Depois recebi um áudio de WhatsApp de quase quatro minutos (não faça isto em casa!), e pensei: por que o WhatsApp não usa a mesma tecnologia de Podcasts para possibilitar que as pessoas escutem áudios em velocidade 1,5x ou 2x? Ou mesmo 0,5x, se tiver um amigo que fala rápido demais? Já caminhando pela rua, dois taxistas alimentavam a esperança de o Grêmio perder naquela noite. Lembrando do modelo closet na nuvem da Rent The Runway, pensei que poderia ser um negócio lucrativo a “camiseta do secador”: o rival joga? Você aluga por App a camiseta do Libertad, do Palmeiras, do Flamengo…

Achando estranho? Muitas empresas se erguem da percepção do próprio empreendedor sobre a solução de necessidades comuns: em 2015, Jen Rubio movia-se atrasada em um aeroporto quando sua mala quebrou deixando uma trilha de roupas atrás. Foi a inspiração para criar a Away, espécie de Warby Parker das malas, hoje avaliada em US$ 1.4 bilhão. Frustrado ao finalizar um treino de corrida e se deparar, na loja de conveniências, com uma geladeira só de bebidas com açúcar, Seth Goldman criou a Honest Tea — um chá engarrafado — adquirido pela Coca-Cola e com vendas anuais de mais de US$ 100 milhões.

Quer empreender? Leve os insights a sério, não peça muitos conselhos, preste atenção ao redor.

*Cassio Grinberg, sócio da Grinberg Consulting e autor do livro Desaprenda – como se abrir para o novo pode nos levar mais longe

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