Idade das trevas

Idade das trevas

José Renato Nalini*

26 de novembro de 2021 | 12h00

José Renato Nalini. FOTO: DANIEL TEIXEIRA/ESTADÃO

Qual seria a explicação para o retrocesso avassalador que obnubila consciências presumivelmente esclarecidas, de luminares em suas áreas de atuação, que insistem nas bizarras teses conspiratórias?

A jornalista Renata Vasconcelos fala em “Aliança do Avestruz”, clube informal de líderes que optaram por enfiar a cabeça no chão e fingir que o coronavírus era uma gripe passageira”. O caso mais emblemático desse grupo é o Presidente John Maguruti, da Tanzânia, que afirmou: “O coronavírus, que é o demônio, não ode sobreviver em um corpo de Cristo. Vai queimar instantaneamente”. Ele morreu de Covid!

A colunista do Washington Post, Frida Ghitis, escreveu: “É impossível listar todos os absurdos ditos por esses demagogos populistas e tiranos. Todos os líderes mundiais cometeram erros, mas há algo realmente nefasto nas manipulações desses líderes mais infames”.

O tratamento político da pandemia não é o único sintoma de que a humanidade patina em acelerado retrocesso, rumo a uma espécie de “Idade das Trevas”. Negar a gravidade das mudanças climáticas ocasionadas pelo aquecimento global é outra maneira de atestar ignorância ou má-fé. Recusar-se à evidência de que a Amazônia nunca foi tão devastada quanto agora, é outra patologia que acomete alguns considerados eruditos.

O pavor ante o risco de comunismo, as acusações à China, que estaria prestes a conquistar o Brasil, tudo isso se acrescenta à patrulha que não reconhece o surgimento de outras formatações familiares e desrespeita seres humanos que não podem abdicar de sua genética para se enquadrarem nos parâmetros do mais necroso conservadorismo.

Não é fácil analisar a situação do mundo, que alcançou estágio científico-tecnológico superior às mais otimistas das ficções, mas convive com esse “andar para trás” em tantos setores.

Em países periféricos, de desenvolvimento atrasado ou, na verdade, sub-sub-desenvolvidos, compreende-se que uma educação falha, antiquada e restrita, não promova o surgimento de massa crítica. Parece convir ao Estado manter na escuridão a legião dos miseráveis, que passam fome, não têm teto, nem assistência médica, nem trabalho, nem perspectiva de existência digna.

O analfabetismo em sentido estrito, dos que não conseguem extrair do alfabeto noções rudimentares de conhecimento, lamentavelmente ainda não foi debelado. Mas a seu lado proliferam outras formas de analfabetismo: o funcional, de quem soletra, desenha em letra de forma o próprio nome, porém é incapaz de se exprimir de forma inteligível. Enorme o contingente de quem lê mas não entende, o incapaz de permanecer na leitura de mais do que algumas linhas. Algo que se reproduz inclusive na Universidade. Em lugar da leitura dos autores recomendados, prefere-se obter súmulas na internet ou na wikipedia.

Restringe-se o número dos inconformados, dos que não toleram o quadro deprimente da política partidária, refúgio de tanta falta de caráter e opção dos que não têm nada a perder. Quantos brasileiros já tomaram o rumo do exterior, convictos de que nada prenuncia mudança de rumos?

Todavia, existem aqueles que não desistem. Resistem. Procuram alertar os que ainda podem ser convertidos, para que a cidadania recupere o seu status e atue para mudar as regras do jogo.

O único titular da soberania, conceito relativizado, mas que ainda reside como apelo emocional, profusamente utilizado pelos negacionistas, é o povo. Ao menos é o que a Constituição da República proclama. E a falida representação deve ceder lugar a uma efetiva participação de todas as pessoas que querem fornecer oxigênio democrático para a nação brasileira.

Assumir as rédeas, banir os maus elementos, exigir que os esquemas de contenção, fiscalização e controle de fato funcionem, escolher os melhores – começando por identificá-los – não perder a capacidade de indignação.

Fácil não é. Mas a alternativa, deixar que o Brasil continue ladeira abaixo, é muito pior.

Toda lamparina, lanterna, pequena chama que se acenda nesta escuridão produzida por aqueles que só querem se beneficiar do Erário e se esquecem da população inerme, frágil e sofrida, é uma esperança que serve de estímulo aos que não jogaram a toalha.

E você, de que lado está?

*José Renato Nalini é reitor da Uniregistral, docente da pós-graduação da Uninove e presidente da Academia Paulista de Letras – 2021-2022

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